sexta-feira, 13 de julho de 2007

Sob a luz dos erês

Bando de Teatro Olodum estréia 'Áfricas', primeira peça infanto-juvenil da companhia
Jornal Correio da Bahia, 13/07/2007


Foto: João Meirelles

Por Marcos Uzel

Omolu queria se esconder do mundo. No dia em que os orixás se reuniram para uma grande festa na aldeia, ele preferiu se isolar para que ninguém visse sua pele repleta de cicatrizes. Solidário, Ogum tentou uma solução: colheu palhas no mato, cobriu Omolu da cabeça aos pés e o convenceu a participar do ritual. Mas somente Iansã não teve nojo de chegar perto dele. Para desespero de Omolu, enquanto a rainha dos raios rodava ao seu redor convidando-o para dançar, uma ventania arrancou a palha e acabou com seu escudo de proteção. Foi quando aconteceu a grande surpresa que deixou todos espantados. As cicatrizes se transformaram em flores. E as flores viraram pipocas.

Ao narrar esse conto para o Bando de Teatro Olodum em um seminário, o historiador Ubiratan Castro fez uma ponte entre as feridas ancestrais de Omolu, rejeitado em sua aparência, e o racismo renitente dos nossos dias. A dança de Iansã seria um contraponto à dor, representando a arte, a capacidade de transformação, a beleza da vida. Essa foi uma das chaves para Áfricas, o primeiro espetáculo infanto-juvenil do Bando, que estréia amanhã, às 16h, no Teatro Vila Velha. Com essa peça, a companhia mostra um pensamento sobre a afrodescendência para um novo público-alvo e valoriza a diversidade de um continente praticamente desconhecido das platéias mirins na cidade mais negra do Brasil.

Patrocinada pelo Ministério da Cultura, através da Fundação Cultural Palmares, a montagem baiana tirou de cena as habituais fábulas e personagens eurocêntricos dos textos infanto-juvenis. Ao valorizar a África e a cultura afro-brasileira, a encenação se nutriu de contos da herança negra que atravessaram séculos e continentes através das narrativas dos griôs, os sábios ancestrais que preservam a força da linguagem oral. São histórias como a de Omolu que o elenco quer apresentar ao público em um palco vibrante, impregnado de cores, música, dança, humor e encantamento.

"Nós mantivemos a mágica do teatro partindo do princípio de não infantilizar a África, de não tornar piegas nem tratar a criança como um ser que não entende nada", enfatiza a diretora Chica Carelli, uma das fundadoras do Bando, em 1990. Nesses 17 anos de trabalho, é a primeira vez que ela assume sozinha a direção de um espetáculo da companhia, que sempre contou com o comando geral de Marcio Meirelles, atual secretário de Cultura do governo baiano. Chica também assina o texto (em parceria com o elenco) composto por contos, lendas e por fragmentos do ciclo de palestras promovido pela equipe do projeto com estudiosos.

Criação do mundo - O material adaptado para a cena retrata o povo, os mitos, a relação com a natureza e a religiosidade de um continente formado por mais de 50 países. Dentre os contos, está o da criação do mundo. Diz a tradição oral africana que Oxalá, ao ser enviado por Olorum para criar o ser humano e os recursos da Terra, teve dificuldades na missão. Até que Nanã Buruku, o mais velho dos orixás, revelou para Oxalá o poder da lama, que moldou e deu vida ao homem. "Não existem peças com esse conteúdo para as crianças. Nossa intenção maior é fazer brotar na cabeça dos jovens o desejo de conhecer esse universo", destaca o ator Jorge Washington, um dos pioneiros do Bando.

Também na companhia desde a primeira formação de elenco, a atriz Valdinéia Soriano abraçou com entusiasmo esse desafio, mas não esconde o nervosismo de peitar a falta de intimidade com o público-alvo. "Ainda não sei direito como chegar, olhar, interagir. Por outro lado, estamos levando para eles as nossas questões, nossa ideologia, e isso é ótimo", assume com espontaneidade. O primeiro teste foi feito em um ensaio aberto para 20 crianças. Outra veterana, a atriz Cássia Valle diz ter se sentido aliviada com a receptividade: "Nós estamos descobrindo a nossa maneira de falar para esse público sem abandonar o que sempre caracterizou nosso trabalho. A reação no ensaio foi uma ótima resposta".

O cenário, assinado por Hélio Eichbauer, é o mesmo do espetáculo Erê pra toda vida/Xirê, de 1996, baseado na tragédia das oito crianças assassinadas na chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, em 1993. Essa montagem do Bando nem estreou em Salvador, devido a um problema de saúde enfrentado na época pelo diretor Marcio Meirelles. Um dos cenógrafos mais respeitados do país, Eichbauer colocou no palco um telão branco emoldurado por figuras de guardiões. Ao meio, fincou uma mandala africana. Tudo a ver, portanto, com a ambientação de Áfricas.

A plasticidade da peça é composta, ainda, pelos adereços e figurinos em tons multicoloridos de Zuarte Júnior e pela iluminação de Fábio Espírito Santo e Rivaldo Rio. Já a direção musical de Jarbas Bittencourt evidencia novas possibilidades no repertório da equipe, que adquiriu instrumentos africanos executados ao vivo pelos atores, que também cantam e dançam coreografados por Zebrinha.

Áfricas entra em cartaz num ano de conquistas importantes para o Bando. Seu elenco ganhou visibilidade nacional no cinema com o êxito comercial de Ó paí, ó, obteve bom retorno de público ao reestrear a peça homônima ao filme e ganhou, recentemente, o Prêmio Braskem de Teatro com Sonho de uma noite de Verão, eleito o melhor espetáculo adulto da cena baiana em 2006. Peça mais popular da companhia, o Cabaré da Rrrrrraça, que no dia 8 de agosto completa dez anos em cartaz, ganhará temporada festiva no palco do Vila Velha até o final deste semestre. E mais: o Bando acaba de ser contemplado pelo Programa Petrobras Cultural e deve lançar um novo espetáculo, em 2008, sem o fantasma da falta de patrocínio.

***
FICHA

Espetáculo: Áfricas
Direção: Chica Carelli
Texto: Chica Carelli e Bando de Teatro Olodum
Elenco: Bando de Teatro Olodum (Arlete Dias, Auristela Sá, Cássia Valle, Cell Dantas, Ednaldo Muniz, Elane Nascimento, Érico Brás, Fábio Santana, Gerimias Mendes, Jamile Alves, Jorge Washington, Leno Sacramento, Ridson Reis, Robson Mauro, S.L. Laurentino, Telma Souza e Valdinéia Soriano)
Estréia: amanhã, às 16h
Temporada: até 5 de agosto, sábados e domingos, às 16h
Onde: Teatro Vila Velha (Passeio Público/Campo Grande)
Ingresso: R$14 (inteira)

14 comentários:

  1. Opa, acho que seria aos sábados e domingos, 16h. Não é isso? A matéria diz sextas e sábados...

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  2. João Carlos Artigos - Teatro de Anônimo13/7/07 11:58

    Parabéns pra toda a negrada batalhadora do Bando pela Petrobras e muita merda na estréia do novo espetáculo.
    Abraços fraternos

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  3. Opa!!!!
    Que as muitas Áfricas se revelem... não só no palco, mas em mim, no outro, na gente!
    Muita luz e sucesso!
    E dali Bandoooooooo!

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  4. Parabéns ao bando e que todos os dias Olodumare os abençoe. Fernanda Júlia Cia de teatro nata Alagoinhas

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  5. aah, sim! jorge tá la!

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  6. Valeu, meninos....ah! tem uma observa�o que acho que ningu�m percebeu: a pe�a retrata que as diferen�as podem, sim, serem tratadas como iguais e prodigiosas, � exemplo do mudo, do cego e do menino com disturbios psiqui�tricos interpretados por br�s, robson e leno respectivamente.
    Ih! Meu navio vai quebrar rsrsrsrsrsrs

    beijos
    e
    sucesso

    Nina


    Jorge! Sou sua f� (pronto, falei, agora pode depositar o cheque na minha conta)

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  7. Iane R. Petrovich Gouveia16/7/07 10:55

    Parabéns para o Vila!!

    Parabéns para o Bando, Chica e toda a sua equipe.

    Esté também é um presente para Petrô. Que deve estar contente e vibrando com AFRICAS e todas as demais conquistas do Vila.

    Valeu Gustavo! A sua dedicação, suavidade e competência tem garantido ao Vila a manutenção da sua essência e passos largos no caminho da sustentabilidade institucional.

    Até agosto quero estar de perto com vocês, aprendendo, contribuindo e vivenciando AFRICAS, ....

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  8. Boa tarde,

    Assisti ao espetáculo Áfricas na estréia e adorei. Fiz um comentário no meu site...

    http://www.galinhapulando.com/visualizar.php?idt=567095

    Sucessos para todos do Vila.

    Valdeck A. de Jesus

    .
    Aqui o comentário completo:

    A Fundação Palmares patrocina um verdadeiro espetáculo, digno de ser visto por crianças, jovens e adultos.

    A pela infanto-juvenil Áfricas, que estreou no dia 14.07.2007 às 16:00 horas no Teatro Vila Velha, com o Bando de Teatro Olodum, conta e reconta a história e as histórias de todas as Áfricas: da feira, do preto-velho, das lendas, da cor forte, da água benta, do vendedor de vassouras, do afiador de facas, do vendedor de amendoim... e de todas as outras Áfricas: suburbana, Cajazeiras, Pirajá, Liberdade... Pelourinho, Cidade Baixa, encostas, bairros periféricos, Áfricas não-alfabetizadas, Áfricas-eleitoras, Áfricas-cidadãos de terceira classe... Áfricas-nortistas e nordestinas: brasileiros!!!

    O espetáculo, que brinca e faz divertir, que interage e que nos emudece pela nossa ignorância da exuberância de nossa própria História, nos leva numa viagem a continentes, culturas, comidas, música e musicalidade, crenças, contadores de estórias e de histórias, cirandas, cantigas de ninar, lendas, mitos e verdades, nos liberta dos conceitos e dos pré-conceitos, coloca no palco uma personagem “portadora de necessidade especial”, personagens de cor negra, de raça afro-brasileira-humana, nos embrenha nas sendas da religião (ou religiões) brasileiras e de raízes afros... Consegue nos fazer entrar num labirinto do qual não conseguimos mais sair: o labirinto das descobertas de novos horizontes e novas formas de ver nossa origem, que encaminha a cada um dos espectadores para uma reflexão profunda de sua brasilidade, a uma valorização de sua negritude, de seu sangue bom...

    (...) e nos fustiga a buscar estas outras Áfricas, dentro e fora de nós, a expandir nossa forma de ver e de enxergar o mundo.

    Educadores, gestores da educação e da cultura, bebam nessa fonte inesgotável que é o Vila Velha, que, como uma velha contadora de estórias e histórias, nos atrai, sempre, para seu colo e nos faz crescer de crianças a adultos e de adultos a cidadãos responsáveis. Multipliquem essas idéias... Quebrem o vício da história mal contada, e o caminho da África nunca mais será o mesmo.


    Um banho de arte: de interpretação, de música, de coreografia, de luz, etc.

    14, 15, 21, 22, 28, 29 de julho, 04 e 05 de agosto
    Sábado e Domingo
    16h
    Palco Principal - TEATRO VILA VELHA
    Ingresso: r$14 (inteira) r$7 (meia)

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  9. Eneia Virginia18/7/07 13:51

    Eu coloquei o comentário abaixo no Orkut de Jorge Washigton parabenizando pelo trabalho em Áfricas e sei que o Bando inteiro merece saber o quanto eu estou agradecida por essa oportunidade que o grupo está dando para nossas crianças e jovens,oportunidade de conhecerem a cultura afrobrasileira e sentirem que são parte integrante dela. Por isso quero colocar aqui essa mensagem no intuito de agradecer ao Bando todo pelo trabalho.

    Obrigada!!!!!!!!!!!!!!!!!!Foi lindo o espetáculo!!!!!!!!!!Parecia uma aula sobre a LDB 10.639/03.Espero vê o Vila lotado de crianças,não só as crianças filhas das pessoas do Movimento Negro ou filhas dos fãs do Bando e sim crianças que infelizmente não se reconhecem como afrodescendentes por culto do sistema de ensino atual.


    Adorei tudo,do início ao fim,dentro das minhas pesquisas sobre a LDB 10.639/03 eu verifiquei que como forma de auxiliar os professores da Rede Municipal a SMEC comprou ingressos para que esses fossem vê Comida de Nzinga espero que essa Secetaria faça o mesmo agora.E mais do que isso,compre ingresso também para os alunos da Rede.


    Ôh!!!!!!!!!!Onde tem escrito culto era pra ter culpa,mas até que ficou legal esse lance de culto...
    Afinal é assim,um culto a não afirmação da identidade afro.

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  10. Queria para benizar o bando por este espetaculo de suma importancia para nossas criançãs tudo esta lindo de mas mas quero relatar algo que min deixou muito feliz o crecimento do ator Sergio Laurento ele esta muito bem como feiticeiro admimo o trabalho dele desde o Wenley ele vem cresendo desde então sou sua fam negão e continua assim bjos ao bando e cusseço sempre
    Nair Dória

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  11. realmente quero dizer que ÁFRICAS ESTA MUITO LINDO MAS S.L. Laurentino SURPRIENDE como tudo que ele faz o cara é realmente grande em todos os sentidos e sem puxar saco ele é bom mesmo desde Wesley em cabaré da Raça que tudo que ele faz vira ouro quando tem oportunidade para tal queria parabenizar tambem a Direção de chica perfeita
    e valeu bando este final de semana estou descendo de galera
    abraços

    Renner...

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  12. ... Realmente muito bom, o espetáculo mim surpreendeu,pois achei que quando eu chegasse lá,fosse ouvir o que já é de costume sobre a saúde e miséria da áfrica,mais de uma forma espetacular o bando conseguiu,ensinar e conscientizar ñ só crianças,mais também adultos a ponto de fazer vir lagrimas aos olhos...
    LINDO muito LINDO
    ps: O feiticeiro foi simplesmente d+ sem palavras...surpreendente,perfeito...
    os aplausos ñ queriam parar de tanta emoção que o publico se encontrava...
    pode ter certeza,que muita coisa mudou em varias pessoas que ale estavam na estréia,via-se pelos comentários no final do espetáculo... todos regozijados
    Parabéns Bando de teatro Olodum e direção, por mais um trabalho desenvolvido e bem aceito pelo publico,parabéns pela raça que há em cada um de vocês,pelo desempenho.
    SUCESSO SEMPRE!!! 

    Cleide Senise

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  13. Achei o espetáculo muito lindo, vibrante e educativo mas senti a falta de Merry Batista. Tá me entendeeendo?


    Celma Sacramento

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  14. eu sou esperita meu pai de cabeça e OMOLU adorei a historia de meu pai sei que ele e quem cuida das pragas e da decomposição do noço corpo ++desejo a voçes uma vida linda e muita saude
    decho a saudação do meu pai OMOLU"Atoto Ajuberu Atoto"
    aproposito esse e um orixa q se deve ter muito cuidado nunca deve acender vela para ele tem o geito certo de acender se voçe nu sabe acender não tente

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