quarta-feira, 13 de junho de 2018

A Cultura da bala transformada em política de segurança fere a arte


foto da peça EN(CRUZ)ILHADA

O nosso post de hoje deveria ter sido um post de alegria, de força e de esperança. Hoje pela manhã no Teatro, tivemos um lindo encontro de vontades para discutir arte, vida e cidadania. E uma das falas apontava exatamente para a necessidade de combater a cruel cultura da bala, disfarçada de política de segurança. E do papel do teatro nesse combate que é urgente.  Horas depois, a cultura da bala, que é racista, não se esqueçam, vitimou um de nossos atores.

Leno Sacramento, do Bando de Teatro Olodum, levou um tiro na perna, durante uma abordagem da polícia civil: Ele estava de bicicleta com um amigo vindo trabalhar no Vila, os policiais alegam que procuravam dois suspeitos de um assalto.  Durante a abordagem, um policial atirou e a bala atravessou a panturrilha do ator. Leno está vivo, mas ferido de várias maneiras, como todos nós, como sempre.
foto da peça EN(CRUZ)ILHADA

terça-feira, 12 de junho de 2018

Hécuba, a cadela



Arearea, Paul Gauguin

Por Lia Nascimento, Teatro dos Novos


Escrito a partir do processo de reposição do espetáculo POR QUE HÉCUBA (teatro dos novos).  

Hoje eu queria ser um cachorro. Às vezes penso nisso quando, seguindo o ritmo frenético da vida, me deparo com a contrastante tranquilidade de um cachorro que dorme à sombra de um carro ou de uma árvore no centro da cidade. Sinto inveja de um cachorro. Sinto inveja pela simples possibilidade de deitar, diminuir minha frequência cardíaca, esquecer as obrigações e cobranças mundanas e respirar numa sombra. Até que meu pensamento se desfaz quando considero a dificuldade que deve ser viver na rua, até mesmo como um cachorro. Chego a considerar as noites chuvosas e a fome, mas a ideia se reconstrói quando constato que o que não falta na rua é lixo e cachorro pra comer o lixo. Viver só pra respirar, pra piscar quando um vento um pouco mais forte passa, extravasar às vezes brigando por comida ou território, não sofrer pelo que passou, não ansiar pelo que está por vir, não chorar por culpa, não sentir preguiça. Não nada. Para não sofrer, para não comer cinzas, para não precisar ver uma nova poça de sangue. Acho que Hécuba é mal agradecida aos deuses. Deuses que humanamente decidem transformá-la em uma cadela. Agradeça, Hécuba. Porque sim. 


POR QUE HÉCUBA 
19 a 29 de julho / 02 a 05 de agosto 
No Teatro Vila Velha

terça-feira, 5 de junho de 2018

João Augusto não foi pra Cuba





Uma pequena biografia parcialmente inventada


Por Daniel Guerra


É difícil imaginar a vida de alguém se recorremos apenas a biografias. A complexidade de um percurso humano rejeita a mera síntese em fatos históricos. Por outro lado, numa única foto, num telegrama ou numa lista de compras de 50 ou 100 anos atrás, podemos testemunhar mundos que se abrem. É por isso que C. G. Jung começa sua autobiografia Memórias Sonhos Reflexões com essas palavras:

só me parecem dignos de ser narrados os acontecimentos da minha vida através dos quais o mundo eterno irrompeu no mundo efêmero. Por isso falo principalmente das experiências interiores. Entre elas figuram meus sonhos e fantasias, que constituíram matéria original de meu trabalho científico. Foram como que uma lava ardente e líquida a partir da qual se cristalizou a rocha que eu devia talhar.

Tenho que admitir: antes de começar esse texto, eu não sabia muito sobre a vida e a obra de João Augusto. Me lembrava apenas de algumas histórias contadas nos corredores da Escola de Teatro. Por exemplo: eu sabia que João tinha arrumado alguma treta estético-política com Martim Gonçalves, e que, depois dessa refrega, juntou uns alunos para fundar a Sociedade do Teatro dos Novos. Em 1964, ano do golpe militar, o Teatro Vila Velha foi erigido em pleno Passeio Público, onde permanece até então.

Quem primeiro me levou à fonte foi Marcio Meirelles. Abrindo a sala envidraçada do arquivo do Vila, passamos por corredores com estantes lotadas de caixas plásticas brancas, cada uma contendo centenas de documentos históricos. Confesso que na ocasião senti certo medo e alguma vertigem. Ter muita informação à frente tem me dado esses surtos de pavor. Mas saí de lá cheio de histórias. Marcio abria caixas e mais caixas, me mostrando programas de peças e festivais, documentos de diretores, atores, funcionários e fotos de produções épicas como as de Temporada de Verão, que reuniu no mesmo palco Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa. Ainda assim, me parece extremamente difícil juntar numa mesma paisagem a Tropicália, o Vila Velha, o AI-5 ou o suicidado Vladimir Herzog. Um paradoxo concreto; um tilt na imaginação.

Algum tempo depois, um pouco mais calmo e já com trabalho a fazer, entrei novamente na sala, agora assessorado pelo coordenador de comunicação Gil Maciel. Foi então que ele abriu a caixa que mais me tocou. Dela saíram objetos e papéis pertencentes a João Augusto, como por exemplo um carimbo contendo essa inscrição misteriosa: “DOADO POR João Augusto Azevedo”. Sobre quais documentos João imprimia essas palavras?

Ou um título de eleitor rasgado ao meio e colado com durex. Suas margens estão gastas e o papel bastante amarelado. No verso, consta que o professor e diretor teatral votou nos anos de 54 e 55, mas no terceiro campo, referente a 56, não encontramos nada. Minha imaginação dramática não demorou a ser convocada: João se recusou a votar em Juscelino Kubitschek? Ou se esqueceu do dia da votação? Ficou doente? Já pressentia o golpe militar oito anos antes e virou anarquista? Não. De acordo com os outros títulos encontrados, ele votou ainda em 58, 62, 66, 70 e 72. Só nos resta imaginar o que teria acontecido nos anos deixados em branco.

Fiquei sabendo também, que em 7 de abril de 1976, o tenente coronel Wilmaly Moreira Bandeira de Mello atestou que João Augusto Azevedo estava “desobrigado do Serviço Militar, em tempo de paz, de acordo com o disposto no art. 5º da Lei do Serviço Militar”. Há aí uma ironia sutil: se o AI-5 foi baixado em 1968, durando até os anos 80, como poderiam falar em “tempos de paz”?

Num documento do Ministério da Guerra, João aparece em uniforme militar, numa foto 3x4 dos anos 40, quando era apenas um adolescente. Acima da digital do polegar direito, exibe um bigodinho ralo e cafajeste, queixo voltado pra cima, os olhos desafiando o espectador (provavelmente um fotógrafo militar) e uns cabelinhos melados de gel e partidos de lado. Conferindo os dados pessoais do novo soldado, descobrimos que mede 1,75 de altura, sua “cutis” é “branca” e a barba está devidamente “raspada”.

 Depois saltamos para o João adulto. Tem 44 anos em 1972. Mas a foto, estampada numa carteira de assistência médica, revela uma face mais jovem. Talvez tenha burlado os trâmites burocráticos, colando ali uma foto antiga. Está metido num paletó cinza com gravata preta e exibe certa melancolia no olhar. O bigode cafajeste não existe mais, a barba continua raspada. O cabelo está partido do mesmo lado (da esquerda para a direita), mas agora, livre do gel, se mostra levemente revolto. Há um tufo rebelde no topo da cabeça, na extrema direita, que confere à figura um ar sutilmente subversivo. Seus olhos, abatidos por pálpebras levemente caídas, já não nos encara desafiador: se oferecem em contemplação. Mas uma contemplação ativa, como a de quem esconde um segredo impossível de revelar.

É interessante quando nos pomos a par das suas viagens, a maioria por volta dos anos 70. Várias etiquetas de bagagem informam que o destino de João foi principalmente os Estados Unidos. Viajou para São Francisco, Minneapolis, Las Vegas, Los Angeles, Washington e à Disneylândia. Sim, João visitou a terra do Mickey. Não há como saber se foi levando sua família ou se decidiu ir só. É no mínimo curioso pensar que João saiu por um tempo da mira dos cassetetes ou dos furacões de processos teatrais para dar um abraço no Pateta e no seu companheiro Pluto. 


De qualquer forma, seu rosto não parece muito alegre num passaporte expedido em 1973. Com 45 anos, João exibe um rosto marcado pela idade, com olheiras profundas. O cabelo insiste partido do mesmo lado, e no final do penteado, aquele tufo outrora juvenil despenca para perto da orelha. Mas o tufo ainda evoca mares revoltos, diferentemente dos seus olhos, que estão ainda mais pesados. Na verdade, há um grande abismo entre o olho direito e o esquerdo. O esquerdo continua vivo e atento, enquanto o direito parece dormir. Mas não é um sono tranquilo. No alto da testa, num topete em forma de onda para o lado, nascem fios brancos que continuam pelo corte lateral, conferindo-lhe um ar imperial. Vemos sua boca comprimida numa tensão sem fim. Um fio de cabelo separado dos outros, lá do alto, quase a contragosto, revela uma independência questionável. 

Virando a página, descobrimos porque João talvez tenha ido abraçar o Pateta na Disneylândia. Lemos ali: “Países para os quais este passaporte é concedido: válido para os países que mantenham relações diplomáticas com o Brasil”. E mais adiante, em letras garrafais: “NÃO É VÁLIDO PARA CUBA”. 

Ao menos João pôde ir para a Venezuela e para a Colômbia em 1976. Neste novo passaporte, vemos um João mais velho e bem mais altivo. Seus lábios esboçam um sorriso simpático e os cabelos brancos tomam quase toda a visage. Vejo nele muita dignidade. Agora, até as olheiras parecem se harmonizar com as rugas do queixo quadrado. Já é um senhor, um senhor respeitável. Algo ali me lembra Roberto Carlos.

Um ano antes, João estava em Nancy, França, durante o X Festival Mondial du Theatre. Na carteirinha de acesso ao restaurante universitário, João Augusto exibe o João artista. Brotando de um casaco jeans, o queixo volta a apontar para cima. Seus olhos brilham através da película fotográfica e os cabelos estão finalmente liberados. Os fios brancos se juntam aos pretos sem solução de continuidade, enquanto a boca por pouco não se abre num sorriso de desdém juvenil pelo mundo inteiro. “Fuck off putain de merde!”. João já não olha para o fotógrafo ou para as lentes da máquina. Observa atentamente um ponto distante, de viés, ao lado da câmera. Aponta para o fora-de-quadro, ali onde o infinito se encontra com a França e o teatro. 


Por fim, uma agenda de 1979. Nela, além dos dados pessoais da primeira página, não encontramos nada, a não ser alguns números de telefone anotados em janeiro. Em meio aos números, a palavra “hemograma” se destaca. Passamos as páginas com seus dias e meses vazios, até que nos batemos com uma caligrafia estranha. Já é outra a mão que escreve, no dia 25 de novembro de 1979, as seguintes palavras: “Falecimento de João às 15 horas e 15 minutos, Salvador Bahia”. 

No dia 26: “Enterro às 11 horas, Campo Santo Cemitério, Na quadra 13, Canteiro (?) 1.891”

E um dia depois: “Missa de sétimo dia, Mosteiro São Bento, Salvador”

Alguma coisa não bate. Se João morreu no dia 25, porque uma missa de sétimo dia 48 horas depois? Talvez aquela mão estranha (a da morte em pessoa, ou a de um parente, ou a de uma esposa, ou a de uma amante - pois a caligrafia me parece feminina) tenha apenas, naquele dia, sinalizado um evento futuro. O fato é que João não foi a Cuba, nem viu a ditadura acabar.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Um teatro da guerra e do exílio (Por Que Hécuba)



Por Clara Romariz

O livro Theater of War and Exile: Twelve Playwrights, Directors and Performers from Eastern Europe and Israel, de Domnica Radulescu, lançado em 2015, mostra uma perspectiva do teatro surgido do trauma político em locais de violência e exílio. Uma das peças abordadas no livro é Por Que Hécuba. Além de tratar do texto de Matei Visniec, fala sobre a montagem de Márcio Meirelles, realizada em 2014 com a universidade LIVRE do Teatro Vila Velha e Chica Carelli. 

A peça é uma adaptação da tragédia grega Hécuba, de Eurípedes, realizada pelo romeno, que se exilou na França em razão da ditadura vigente no seu país. O livro de Radulescu comprova a contemporaneidade do texto, que pode ser facilmente transponível tanto para o Japão quanto para a Romênia ou o Brasil. A autora traz a temática do feminino e da maternidade, imprescindível para a tragédia, que põe em cena uma mãe que, depois de perder seus 19 filhos na guerra de Tróia, é transformada em cadela pelos deuses do Olimpo. No prólogo de Por Que Hécuba, Matei diz:

"A dor de Hécuba é a dor universal das mães que dão luz à carne para canhão, meninos destinados a morrer cedo, crianças que se tornam, aos dez anos, crianças-soldado, garotos que, aos dezesseis anos, já são fanatizados, mas ao mesmo tempo fascinados pela guerra, jovens que, aos dezenove anos, já são veteranos e verdadeiros guerreiros experientes."

Além de transportar o texto para o mundo atual, Visniec traz elementos da tragédia como o coro, a elevada poesia das palavras e a presença dos Deuses e mortais se contrapondo. A peça será remontada em agosto de 2018 com direção de Márcio Meirelles, o Teatro dos Novos e atores convidados.

Uma prévia do livro pode ser lida aqui:

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Instante 1





Cena produzida durante o Laboratório Escritas da Cena
Por Rubens da Cunha


ela
umdeles
ooutro

Jogados sobre o chão de madeira, calças de pijama, sapatilhas e um djembê. 


Persianas fechadas.


Na estante sem livros, repousam, solenes, uma vela e um vibrador.


Ela, nua, entre a estante e a janela. Eles, também nus, deitados sobre o tapete: ah, nossos corpos amorosos na sala... Ela sussurra.


Umdeles a olha: e agora, que faço com esse tato que encostou em outro, em outra. Que faço com esse limite quebrado, esse gosto demasiado na boca, nos baixos, nos dentros? Como retornar àquele cotidiano lá fora, como retornar às aparências, decências? 


Ooutro senta-se: ri. Foi demais, mesmo você se perguntando sobre o agora. O agora é isso, é essa nossa nudez, é esse chão de madeira, essa vela, esse vibrador, esse djembé. O agora pisa em nossa cara, tatua nossa pele. O agora se escreveu em nossos corpos pra sempre. Seremos sempre agora.


Mas e a vida, e o jogo das explicações, das fidelidades, dos abandonos que não podem ser feitos? Umdeles pergunta enquanto Ela calça a sapatilha. 


Ela dança, atravessando a sala. Sim, tudo isso vai incomodar, mas, ao mesmo tempo, essa leveza, esse dançar sem passado, sem futuro, apenas nós, nós e nossos corpos.


Ooutro pega o djembê e começa a tocar. 


Umdeles chora. É um tanto de medo ainda, um tanto de agonia. 


Ela e Ooutro param de dançar e tocar. Sentam-se ao lado de Umdeles. Ooutro o consola: O que foi? Esquece o lá fora, esquece as conexões com o lá fora. A persiana está fechada, o notebook desligado. Aquela porta não precisa existir. Não há saída pra nós. Não há entrada em nós. Somos isso. Seremos isso.


Pra você é fácil: é sem deus, é sem culpa, é como se você fosse um desses objetos, esse caderno rascunhado, esse vibrador. Puro objeto, pura coisa. Eu aprendi a ter alma, a ter necessidade de salvar a alma. Para mim a certeza de quem eu era sempre foi uma coisa, como eu me desfaço dela? como eu me torno essa dúvida dentro do agora?


Acho que você está exagerando, Ela diz, enquanto passa a sapatilha entre as coxas de UmdelesDeixa tua mente aberta assim como estão tuas pernas, teus poros. Esquece o que te ensinaram, aprende o tato, é só o tato que importa. Ela aprofunda os carinhos.


Ooutro achega-se, sussurra no ouvido de Umdeles: agora, agora, agora pra sempre. 


Umdeles não resiste. Fecha os olhos, abre a mente e deixa-se.

Sobre o tapete: o agora.
Abaixo do tapete: o chão de madeira.
Abaixo do chão de madeira: concreto, concreto, depois terra.
Dentro da terra: djembês de fogo.


terça-feira, 22 de maio de 2018

A faca só lâmina de Georg Buchner





Por Daniel Guerra


Pode até parecer estranho, mas intuo que o grande problema do louco seja a sua falta de vocabulário. A maioria das pessoas está acostumada a ver o cachorro como “cachorro”, o vovô como “vovô” e a uva como “uva”. Mas o que aconteceria com esses pobres mortais se num belo dia despertassem e vissem o cachorro transformado em ventilador, o vovô numa estante e o cacho de uvas em formigas assassinas? Tal pergunta parece feita por uma criança, mas esse tipo de filosofia é feita sob medida para que o nosso lado infantil suba à tona. Perguntar-nos sobre qualquer coisa como se fosse a primeira vez, questionar o óbvio ululante e não deixá-lo em paz, nem o objeto nem o perguntador, eis a filosofia em sua base primordial, o seu ponto de contato com a loucura e todas as suas portas escancaradas.

É assim que o louco, ou ao menos aquele louco que por um milagre ou condições privilegiadas consegue se subtrair às armadilhas do sistema, aquele que consegue não se tornar um “louco de hospício” (a expressão “louco varrido” toma este por excremento a ser higienizado, lembremos bem), é, de fato, um filósofo em seu alcance extremo. Só lhe faltariam as mediações necessárias. Mas incorporar a linguagem é incorporar também seus vícios, sua cultura, sua violência e suas invasões. 

Pois bem. Georg Buchner, habitante desse complexo mundo em convulsão chamado século XIX (no qual, segundo Henri Miller, se abriram definitivamente as portas do inferno) criou um personagem chamado Woyzek. Woyzek foi devidamente patologizado pelo sistema científico-capitalista. Tornou-se um louco varrido. Submetido pela figura do Doutor a um regime absurdo de ingestão de ervilhas, o soldado, outrora sem grandes atributos, vai se transformando aos poucos em psicopata. Essa é a trama básica da história. Não é necessário muito mais. Como expoente do expressionismo alemão, a peça revela-se mais na intensidade, na luta de luz e sombras, nos gritos e sussurros, do que no seu enredo. Daí a importância da transposição para o palco, onde os corpos reais tomam todo o espaço que merecem.

O ápice dessa transformação de soldado em assassino é representado pela morte de Marie, uma garota cristã pela qual Woyzek é apaixonado. Seus instintos sexuais e sua subjetividade, devidamente reprimidos por uma maquinaria sócio-política afiada (representada pela ciência e pelo militarismo), se voltam contra seu próprio amor, utilizando-se de sua memória e treinamento para encontrar uma via de escape em forma de violência e muitas facadas no corpo feminino. 

Durante toda a peça o louco é produzido, agido e coagido pelos outros, como um marionete. Sua fala é escassa e até que chegue ao final vai virando uma mera blablação sem muito sentido. Mas o personagem não é digno de pena. De fato, Buchner não nos dá tempo para a tão aclamada “identificação”. Ele o faz de propósito, evidentemente. É que Woyzek deve ser um zé ninguém e ao mesmo tempo, todo mundo. Um subproduto alegórico de máquinas assassinas. Por isso não é possível atribuir um peso moral ao feminicídio perpetrado pelo funâmbulo militar. Essa violência não vem apenas da faca que fere o corpo de Marie, mas da própria esquizofrenia capitalista circundante. Não é de Woyzek que devemos ter pena ou raiva, porque a culpa, por meio da obra de arte, é transferida para o próprio sistema social, e por consequência, a nós mesmos. Deveríamos levar a sério a acusação de Antonin Artaud. Não foi Van Gogh que se suicidou; ele foi suicidado pela sociedade.

O feminicídio de Buchner, portanto, não é particular nem específico; tampouco passional. Se o fosse, teríamos todo o direito de, em pleno século XXI, questionar duramente sua visão de mundo. Acontece que a faca que Woyzek impunha não é sua própria faca. É sobre a arma social que estamos falando. A faca específica que se levanta na peça é um símbolo de todas as facas do mundo. A mulher morta é o símbolo de todas as mulheres mortas. Mas esse tipo de leitura só seria possível, em cena, se Woyzek fosse incorporado em toda a sua “ausência de caráter”. Lembremos que Aristóteles falava da tragédia como drama de caracteres superiores ou nobres munidos de responsabilidade sobre suas ações, daí a possibilidade de culpa e expiação. Mas se Woyzek é desprovido de vida interior, só nos resta testemunhar o que lhe atravessa por meio da sua própria transparência. Buchner nos dá a ver, então, uma espécie de commedia dell’art subversiva, onde o humor é apenas corrosivo e o desfecho é apenas sangrento. Não há sentido maior. Não há salvação. O espectador receberia, portanto, na caixa dos peitos, a transferência exata do golpe em Marie. Aquele poderia se sentir tanto como a mulher que morre quanto como a mão e a faca que a perfuram. A dor e a culpa inexpugnáveis são os dois presentes de grego que Buchner nos envia. Recebamos bem ou não, ele estará lá.

Mas é fácil e perigoso, numa adaptação para os palcos, cair na mera passionalidade do crime, barrando assim as portas para o sentimento de terror remetido à uma comunidade - e não a indivíduos específicos. Retratar o crime de Woyzek como uma consequência do mero ciúme é, portanto, executar um crime muito maior. A responsabilidade é remetida, assim, do texto à produção do espetáculo; da suposta atemporalidade dos clássicos ao tempo particular da nossa própria época. 

Não falarei muito sobre o espetáculo Woyzek - Zé Ninguém, que está cumprindo sua temporada esse mês no Teatro Vila Velha. Me basta, para terminar, trazer a atenção para alguns pontos importantes. Valendo-se da linguagem estética dos cabarés e dos freakshows, o diretor Caio Rodrigo nos dá as rédeas de uma imaginação fértil e ao mesmo tempo cruel. Todo o jogo de títeres tendo como ponto de convergência o corpo de Woyzek é absolutamente claro. A sua transparência, a sua ausência de caráter nos é revelada, a não ser nos momentos em que a interpretação do ator roça os limites de um louquinho de novela das oito. Mas nos restaria - e aqui deixo a conclusão ao leitor curioso - perguntar-nos sobre a morte de Marie transposta para a montagem. Será que a produção deixou o crime excessivamente passional, resultado tão-somente do ciúme de um homem por uma mulher? Ou será que jogou a responsabilidade do assassinato primeiro para si mesmos, e depois para nós, o público que o testemunha? Deixo a pergunta no ar não porque queira fazer suspense. Mas gostaria de que cada um tomasse seu lugar nessa discussão. 

De resto, passo ao momento que mais me interessou na montagem: o metateatro, show de variedades erigido dentro da própria peça, onde se apresentam um professor com cabeça de cavalo e um contador de histórias que remete à melancolia de Edith Piaf e às trevas brilhantes de Kazuo Ohno. Essas histórias nos reenviam ao real mais cru e imediato: de que nada nessa vida faz ou deve fazer sentido, e que, portanto, tudo é possível. Inclusive uma risada dionisíaca ao final.


quinta-feira, 10 de maio de 2018

Vermelho, laranja, amarelo e cinza





Cena criada por Clara Romariz, durante o Módulo II do Laboratório Escritas da Cena


(Sala de uma casa na Graça, bairro de Salvador. Entardecer. Cinco tapetes chineses estampados, um perto do outro. As cores desses são basicamente azul, lilás e cinza. Velas na mesa de madeira. Falta de luz artificial. A luz do sol surge suavemente da janela vermelha, também de madeira. Marcela, mulher que aparenta ter 25 anos, aparece com uma caneta prendendo o cabelo. Laura, de vestido azul, está com uma xuxa preta no seu cabelo castanho cacheado. Tem 28 anos)

Marcela- Já pensou em como deve ser louco estar num incêndio? 

Laura- Ahn?

Marcela - Todo aquele fogo subindo, tudo ficando vermelho, laranja, amarelo escuro, e depois cinza.

Laura- Quê?

Marcela - E as pessoas correndo desesperadas, procurando o elevador que tá parado, ou sei lá, é... entrando nele e caindo. Aí a mulher que não tá achando o marido desce pela escada e tropeça e aí.

Laura- Você tá assistindo muito filme.

Marcela - Vai, Laura, embarca na história. Pensa comigo, vai. Pensa! E como foi que surgiu o incêndio? Talvez de uma tomada com um carregador velho, daqueles que tão com os fios soltos; ou de uma lata de lixo de um escritor, que parou de escrever no computador porque tinha medo de perder os arquivos.

(Joana aparece na sala com blusa com frases em inglês e calça de pijama, escovando os dentes. Aparenta ser a mais velha. O chão é de madeira velha, sem verniz, talvez por ter passado por muitos sapatos, ou pelo arrastar frenético da estante grande com três livros que a cada mês muda de lugar)

Joana- Tipo aquele filme colcha de retalhos, que a mulher escreve tudo no papel, (cospe a pasta misturada com saliva no copo de requeijão) os papeis voam e ela fica catando no jardim...

Marcela- Com aquele gramado lindo.

Laura- Vocês são é loucas.

(Joana expira com força)

Marcela- Tá. Aí, como o escritor parou de escrever no notebook, ele escreve tudo num caderninho

Joana- De capa vermelha, porque ele é comunista.

Marcela- Pode ser. E o lixo fica cheio de papeis amassados, porque ele arrancou do caderno. 

Joana- Tava em crise. Só saia "moralina"

Laura- Quê?

Marcela- Aí passa um vento forte na janela meio aberta, a vela, tipo aquela que tá alí na mesa, cai no lixo, o papel pega fogo e começa o incêndio.

Joana- E como ele tava dormindo até mais tarde.

Laura- A culpa é sempre do intelectual.

Marcela- Para, Laura, que saco. Você fica só botando defeito.

Laura- Não começa...

Joana- Shhh!

(Passa um vento forte na janela da direita. Laura corre pra fechar. Fica próxima a janela)


Marcela- Ou então a vela cai pro outro lado.

Joana- Porque o vento vem no sentido contrário e é na janela da esquerda que ele sopra.

Marcela- E bate na persiana. E o fogo vai subindo nela.

Joana- Vermelho.

Laura- O que é que é vermelho?

Joana- O fogo.

Laura- Mas fogo não é laranja?

Marcela- Não importa.

Laura- Vocês não sabem fazer os detalhes, aí não tem graça. A história fica péssima, sem sentido, não é verdadeira. Ninguém acredita.

(Entra Maria Clara, garota que aparenta ter menos de 20 anos, de cabelo solto e comprido. Traz uma vela pela metade em cada mão. Durante a cena, na qual não põe a vela em momento nenhum num prato ou em outra superfície, da vela sai cera branca quente e sua mão queima. Ela reage e segue)

Maria Clara- Eu acredito.

Laura- Você não conta.

Maria Clara- Eu não conto?

Joana- Shhh!

Marcela- E aí o fogo se espalha, vai tomando tudo que é de papel ou de pano. Chega na cozinha.

Laura- Como?

Marcela- Chega na cozinha, no gás e BUM, explode tudo. O prédio começa a pegar fogo, mas os bombeiros não chegam

Laura- Você anda vendo filme demais.

Maria Clara- Os bombeiros não chegam porque tão apagando outro incêndio.

Joana- Que é na esquina da rua. Tá há muito mais tempo.

Laura- Não faz nenhum sentido, se é na esquina eles iam. 

(Joana expira alto. A casa vai se escurecendo com a chegada da noite)

Laura (como em delírio)- Olha, tudo começa com um homem, que... não é escritor. Ele é fumante (riso baixo de Marcela) e está tentando há cinco meses parar de fumar, mas não consegue. Seu impulso, sua vontade é mais forte do que ele. Há cinco meses. Ah, ele tem ansiedade crônica. Não, não como você, Maria. O nome dele é Pedro. Pedro fumava sempre na varanda do seu apartamento do segundo andar, porque sua mulher não gostava de fumaça. Ela era super zen, natureza, saudável, macrobiótica. Pedro e sua mulher tinham alguns problemas. Brigavam muito. A relação estava ficando complicada. Não transavam mais, mal conversavam. Ela trabalhava muito, Pedro dizia. Ele era muito, muito teimoso, ela dizia sempre. 

Maria Clara (ri)- Já vi essa história.

Marcela- Proliiixa...

Laura- Ah, assim não dá.

Joana- Vai, Laura, continua, vai.

Laura (Suspira. Frenética)- Se separaram. Pedro acendeu um cigarro. Pegou no sono. A casa começou a pegar fogo. Por causa do tapete, igual ao que Marcela trouxe da China. O tapete espalhou as chamas, que se alastraram pela persiana. Fogo! Gritavam as mulheres do terceiro e do primeiro andar, desesperadas, frenéticas, hipocondríacas. Que sempre achavam que ia acontecer um desastre naquele prédio de velho. Os velhos não acreditaram nas hipocondríacas. Até que o fogo começou a tomar tudo. Pedro acordou, não sei se pela fumaça, pelo acaso, por instinto, ou pelo fim do efeito do remédio, cuja receita ganhou de um amigo geriatra. Acho que por instinto.


(Vento forte na janela a esquerda. Clarão)