quarta-feira, 30 de maio de 2018

Instante 1





Cena produzida durante o Laboratório Escritas da Cena
Por Rubens da Cunha


ela
umdeles
ooutro

Jogados sobre o chão de madeira, calças de pijama, sapatilhas e um djembê. 


Persianas fechadas.


Na estante sem livros, repousam, solenes, uma vela e um vibrador.


Ela, nua, entre a estante e a janela. Eles, também nus, deitados sobre o tapete: ah, nossos corpos amorosos na sala... Ela sussurra.


Umdeles a olha: e agora, que faço com esse tato que encostou em outro, em outra. Que faço com esse limite quebrado, esse gosto demasiado na boca, nos baixos, nos dentros? Como retornar àquele cotidiano lá fora, como retornar às aparências, decências? 


Ooutro senta-se: ri. Foi demais, mesmo você se perguntando sobre o agora. O agora é isso, é essa nossa nudez, é esse chão de madeira, essa vela, esse vibrador, esse djembé. O agora pisa em nossa cara, tatua nossa pele. O agora se escreveu em nossos corpos pra sempre. Seremos sempre agora.


Mas e a vida, e o jogo das explicações, das fidelidades, dos abandonos que não podem ser feitos? Umdeles pergunta enquanto Ela calça a sapatilha. 


Ela dança, atravessando a sala. Sim, tudo isso vai incomodar, mas, ao mesmo tempo, essa leveza, esse dançar sem passado, sem futuro, apenas nós, nós e nossos corpos.


Ooutro pega o djembê e começa a tocar. 


Umdeles chora. É um tanto de medo ainda, um tanto de agonia. 


Ela e Ooutro param de dançar e tocar. Sentam-se ao lado de Umdeles. Ooutro o consola: O que foi? Esquece o lá fora, esquece as conexões com o lá fora. A persiana está fechada, o notebook desligado. Aquela porta não precisa existir. Não há saída pra nós. Não há entrada em nós. Somos isso. Seremos isso.


Pra você é fácil: é sem deus, é sem culpa, é como se você fosse um desses objetos, esse caderno rascunhado, esse vibrador. Puro objeto, pura coisa. Eu aprendi a ter alma, a ter necessidade de salvar a alma. Para mim a certeza de quem eu era sempre foi uma coisa, como eu me desfaço dela? como eu me torno essa dúvida dentro do agora?


Acho que você está exagerando, Ela diz, enquanto passa a sapatilha entre as coxas de UmdelesDeixa tua mente aberta assim como estão tuas pernas, teus poros. Esquece o que te ensinaram, aprende o tato, é só o tato que importa. Ela aprofunda os carinhos.


Ooutro achega-se, sussurra no ouvido de Umdeles: agora, agora, agora pra sempre. 


Umdeles não resiste. Fecha os olhos, abre a mente e deixa-se.

Sobre o tapete: o agora.
Abaixo do tapete: o chão de madeira.
Abaixo do chão de madeira: concreto, concreto, depois terra.
Dentro da terra: djembês de fogo.


terça-feira, 22 de maio de 2018

A faca só lâmina de Georg Buchner





Por Daniel Guerra


Pode até parecer estranho, mas intuo que o grande problema do louco seja a sua falta de vocabulário. A maioria das pessoas está acostumada a ver o cachorro como “cachorro”, o vovô como “vovô” e a uva como “uva”. Mas o que aconteceria com esses pobres mortais se num belo dia despertassem e vissem o cachorro transformado em ventilador, o vovô numa estante e o cacho de uvas em formigas assassinas? Tal pergunta parece feita por uma criança, mas esse tipo de filosofia é feita sob medida para que o nosso lado infantil suba à tona. Perguntar-nos sobre qualquer coisa como se fosse a primeira vez, questionar o óbvio ululante e não deixá-lo em paz, nem o objeto nem o perguntador, eis a filosofia em sua base primordial, o seu ponto de contato com a loucura e todas as suas portas escancaradas.

É assim que o louco, ou ao menos aquele louco que por um milagre ou condições privilegiadas consegue se subtrair às armadilhas do sistema, aquele que consegue não se tornar um “louco de hospício” (a expressão “louco varrido” toma este por excremento a ser higienizado, lembremos bem), é, de fato, um filósofo em seu alcance extremo. Só lhe faltariam as mediações necessárias. Mas incorporar a linguagem é incorporar também seus vícios, sua cultura, sua violência e suas invasões. 

Pois bem. Georg Buchner, habitante desse complexo mundo em convulsão chamado século XIX (no qual, segundo Henri Miller, se abriram definitivamente as portas do inferno) criou um personagem chamado Woyzek. Woyzek foi devidamente patologizado pelo sistema científico-capitalista. Tornou-se um louco varrido. Submetido pela figura do Doutor a um regime absurdo de ingestão de ervilhas, o soldado, outrora sem grandes atributos, vai se transformando aos poucos em psicopata. Essa é a trama básica da história. Não é necessário muito mais. Como expoente do expressionismo alemão, a peça revela-se mais na intensidade, na luta de luz e sombras, nos gritos e sussurros, do que no seu enredo. Daí a importância da transposição para o palco, onde os corpos reais tomam todo o espaço que merecem.

O ápice dessa transformação de soldado em assassino é representado pela morte de Marie, uma garota cristã pela qual Woyzek é apaixonado. Seus instintos sexuais e sua subjetividade, devidamente reprimidos por uma maquinaria sócio-política afiada (representada pela ciência e pelo militarismo), se voltam contra seu próprio amor, utilizando-se de sua memória e treinamento para encontrar uma via de escape em forma de violência e muitas facadas no corpo feminino. 

Durante toda a peça o louco é produzido, agido e coagido pelos outros, como um marionete. Sua fala é escassa e até que chegue ao final vai virando uma mera blablação sem muito sentido. Mas o personagem não é digno de pena. De fato, Buchner não nos dá tempo para a tão aclamada “identificação”. Ele o faz de propósito, evidentemente. É que Woyzek deve ser um zé ninguém e ao mesmo tempo, todo mundo. Um subproduto alegórico de máquinas assassinas. Por isso não é possível atribuir um peso moral ao feminicídio perpetrado pelo funâmbulo militar. Essa violência não vem apenas da faca que fere o corpo de Marie, mas da própria esquizofrenia capitalista circundante. Não é de Woyzek que devemos ter pena ou raiva, porque a culpa, por meio da obra de arte, é transferida para o próprio sistema social, e por consequência, a nós mesmos. Deveríamos levar a sério a acusação de Antonin Artaud. Não foi Van Gogh que se suicidou; ele foi suicidado pela sociedade.

O feminicídio de Buchner, portanto, não é particular nem específico; tampouco passional. Se o fosse, teríamos todo o direito de, em pleno século XXI, questionar duramente sua visão de mundo. Acontece que a faca que Woyzek impunha não é sua própria faca. É sobre a arma social que estamos falando. A faca específica que se levanta na peça é um símbolo de todas as facas do mundo. A mulher morta é o símbolo de todas as mulheres mortas. Mas esse tipo de leitura só seria possível, em cena, se Woyzek fosse incorporado em toda a sua “ausência de caráter”. Lembremos que Aristóteles falava da tragédia como drama de caracteres superiores ou nobres munidos de responsabilidade sobre suas ações, daí a possibilidade de culpa e expiação. Mas se Woyzek é desprovido de vida interior, só nos resta testemunhar o que lhe atravessa por meio da sua própria transparência. Buchner nos dá a ver, então, uma espécie de commedia dell’art subversiva, onde o humor é apenas corrosivo e o desfecho é apenas sangrento. Não há sentido maior. Não há salvação. O espectador receberia, portanto, na caixa dos peitos, a transferência exata do golpe em Marie. Aquele poderia se sentir tanto como a mulher que morre quanto como a mão e a faca que a perfuram. A dor e a culpa inexpugnáveis são os dois presentes de grego que Buchner nos envia. Recebamos bem ou não, ele estará lá.

Mas é fácil e perigoso, numa adaptação para os palcos, cair na mera passionalidade do crime, barrando assim as portas para o sentimento de terror remetido à uma comunidade - e não a indivíduos específicos. Retratar o crime de Woyzek como uma consequência do mero ciúme é, portanto, executar um crime muito maior. A responsabilidade é remetida, assim, do texto à produção do espetáculo; da suposta atemporalidade dos clássicos ao tempo particular da nossa própria época. 

Não falarei muito sobre o espetáculo Woyzek - Zé Ninguém, que está cumprindo sua temporada esse mês no Teatro Vila Velha. Me basta, para terminar, trazer a atenção para alguns pontos importantes. Valendo-se da linguagem estética dos cabarés e dos freakshows, o diretor Caio Rodrigo nos dá as rédeas de uma imaginação fértil e ao mesmo tempo cruel. Todo o jogo de títeres tendo como ponto de convergência o corpo de Woyzek é absolutamente claro. A sua transparência, a sua ausência de caráter nos é revelada, a não ser nos momentos em que a interpretação do ator roça os limites de um louquinho de novela das oito. Mas nos restaria - e aqui deixo a conclusão ao leitor curioso - perguntar-nos sobre a morte de Marie transposta para a montagem. Será que a produção deixou o crime excessivamente passional, resultado tão-somente do ciúme de um homem por uma mulher? Ou será que jogou a responsabilidade do assassinato primeiro para si mesmos, e depois para nós, o público que o testemunha? Deixo a pergunta no ar não porque queira fazer suspense. Mas gostaria de que cada um tomasse seu lugar nessa discussão. 

De resto, passo ao momento que mais me interessou na montagem: o metateatro, show de variedades erigido dentro da própria peça, onde se apresentam um professor com cabeça de cavalo e um contador de histórias que remete à melancolia de Edith Piaf e às trevas brilhantes de Kazuo Ohno. Essas histórias nos reenviam ao real mais cru e imediato: de que nada nessa vida faz ou deve fazer sentido, e que, portanto, tudo é possível. Inclusive uma risada dionisíaca ao final.


quinta-feira, 10 de maio de 2018

Vermelho, laranja, amarelo e cinza





Cena criada por Clara Romariz, durante o Módulo II do Laboratório Escritas da Cena


(Sala de uma casa na Graça, bairro de Salvador. Entardecer. Cinco tapetes chineses estampados, um perto do outro. As cores desses são basicamente azul, lilás e cinza. Velas na mesa de madeira. Falta de luz artificial. A luz do sol surge suavemente da janela vermelha, também de madeira. Marcela, mulher que aparenta ter 25 anos, aparece com uma caneta prendendo o cabelo. Laura, de vestido azul, está com uma xuxa preta no seu cabelo castanho cacheado. Tem 28 anos)

Marcela- Já pensou em como deve ser louco estar num incêndio? 

Laura- Ahn?

Marcela - Todo aquele fogo subindo, tudo ficando vermelho, laranja, amarelo escuro, e depois cinza.

Laura- Quê?

Marcela - E as pessoas correndo desesperadas, procurando o elevador que tá parado, ou sei lá, é... entrando nele e caindo. Aí a mulher que não tá achando o marido desce pela escada e tropeça e aí.

Laura- Você tá assistindo muito filme.

Marcela - Vai, Laura, embarca na história. Pensa comigo, vai. Pensa! E como foi que surgiu o incêndio? Talvez de uma tomada com um carregador velho, daqueles que tão com os fios soltos; ou de uma lata de lixo de um escritor, que parou de escrever no computador porque tinha medo de perder os arquivos.

(Joana aparece na sala com blusa com frases em inglês e calça de pijama, escovando os dentes. Aparenta ser a mais velha. O chão é de madeira velha, sem verniz, talvez por ter passado por muitos sapatos, ou pelo arrastar frenético da estante grande com três livros que a cada mês muda de lugar)

Joana- Tipo aquele filme colcha de retalhos, que a mulher escreve tudo no papel, (cospe a pasta misturada com saliva no copo de requeijão) os papeis voam e ela fica catando no jardim...

Marcela- Com aquele gramado lindo.

Laura- Vocês são é loucas.

(Joana expira com força)

Marcela- Tá. Aí, como o escritor parou de escrever no notebook, ele escreve tudo num caderninho

Joana- De capa vermelha, porque ele é comunista.

Marcela- Pode ser. E o lixo fica cheio de papeis amassados, porque ele arrancou do caderno. 

Joana- Tava em crise. Só saia "moralina"

Laura- Quê?

Marcela- Aí passa um vento forte na janela meio aberta, a vela, tipo aquela que tá alí na mesa, cai no lixo, o papel pega fogo e começa o incêndio.

Joana- E como ele tava dormindo até mais tarde.

Laura- A culpa é sempre do intelectual.

Marcela- Para, Laura, que saco. Você fica só botando defeito.

Laura- Não começa...

Joana- Shhh!

(Passa um vento forte na janela da direita. Laura corre pra fechar. Fica próxima a janela)


Marcela- Ou então a vela cai pro outro lado.

Joana- Porque o vento vem no sentido contrário e é na janela da esquerda que ele sopra.

Marcela- E bate na persiana. E o fogo vai subindo nela.

Joana- Vermelho.

Laura- O que é que é vermelho?

Joana- O fogo.

Laura- Mas fogo não é laranja?

Marcela- Não importa.

Laura- Vocês não sabem fazer os detalhes, aí não tem graça. A história fica péssima, sem sentido, não é verdadeira. Ninguém acredita.

(Entra Maria Clara, garota que aparenta ter menos de 20 anos, de cabelo solto e comprido. Traz uma vela pela metade em cada mão. Durante a cena, na qual não põe a vela em momento nenhum num prato ou em outra superfície, da vela sai cera branca quente e sua mão queima. Ela reage e segue)

Maria Clara- Eu acredito.

Laura- Você não conta.

Maria Clara- Eu não conto?

Joana- Shhh!

Marcela- E aí o fogo se espalha, vai tomando tudo que é de papel ou de pano. Chega na cozinha.

Laura- Como?

Marcela- Chega na cozinha, no gás e BUM, explode tudo. O prédio começa a pegar fogo, mas os bombeiros não chegam

Laura- Você anda vendo filme demais.

Maria Clara- Os bombeiros não chegam porque tão apagando outro incêndio.

Joana- Que é na esquina da rua. Tá há muito mais tempo.

Laura- Não faz nenhum sentido, se é na esquina eles iam. 

(Joana expira alto. A casa vai se escurecendo com a chegada da noite)

Laura (como em delírio)- Olha, tudo começa com um homem, que... não é escritor. Ele é fumante (riso baixo de Marcela) e está tentando há cinco meses parar de fumar, mas não consegue. Seu impulso, sua vontade é mais forte do que ele. Há cinco meses. Ah, ele tem ansiedade crônica. Não, não como você, Maria. O nome dele é Pedro. Pedro fumava sempre na varanda do seu apartamento do segundo andar, porque sua mulher não gostava de fumaça. Ela era super zen, natureza, saudável, macrobiótica. Pedro e sua mulher tinham alguns problemas. Brigavam muito. A relação estava ficando complicada. Não transavam mais, mal conversavam. Ela trabalhava muito, Pedro dizia. Ele era muito, muito teimoso, ela dizia sempre. 

Maria Clara (ri)- Já vi essa história.

Marcela- Proliiixa...

Laura- Ah, assim não dá.

Joana- Vai, Laura, continua, vai.

Laura (Suspira. Frenética)- Se separaram. Pedro acendeu um cigarro. Pegou no sono. A casa começou a pegar fogo. Por causa do tapete, igual ao que Marcela trouxe da China. O tapete espalhou as chamas, que se alastraram pela persiana. Fogo! Gritavam as mulheres do terceiro e do primeiro andar, desesperadas, frenéticas, hipocondríacas. Que sempre achavam que ia acontecer um desastre naquele prédio de velho. Os velhos não acreditaram nas hipocondríacas. Até que o fogo começou a tomar tudo. Pedro acordou, não sei se pela fumaça, pelo acaso, por instinto, ou pelo fim do efeito do remédio, cuja receita ganhou de um amigo geriatra. Acho que por instinto.


(Vento forte na janela a esquerda. Clarão)

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Par, ti, tu, ra, lê pêti, pêti pô lá, nescafé com chocolá



Foto: Liesbeth Bernaerts

Sobre o espetáculo Partituur, de Ivana Müller (Festival Viva Dança 2018)
Texto produzido durante o Laboratório Escritas da Cena, realizado pela Vila Barril.

Por Ana Carolina Oliveira   

UM. Existem certas apresentações artísticas que desafiam o nosso modo costumeiro de entrar em contato com a obra. Esses acontecimentos convocam para além de uma observação passiva e invertem a postura habitual do mero espectador, para implicar o público na própria vicissitude daquela experiência. São espaços nos quais geralmente não há cadeiras; a circulação é livre e o público se apropria do local como bem quiser. E por isso há sempre um estranhamento pairando. Frente a essas obras sempre penso se devo mesmo fazer algum tipo de interação ou me resignar e deixar ser levada pela corrente. Mas a questão central é que, nessas situações, somos compelidos a nos desacostumar. São propostas cênicas que nos desensinam a ver os espetáculos como geralmente vemos: distantes e apoltronados. Esse é o jogo de Partituur. Melhor dizendo: Partituur é um jogo. E a primeira jogada é desaprender a ver um espetáculo de dança.

DOIS. Uma vez perguntei para uma criança porque ela estava cheia de prendedores de roupa pregados no cabelo. Ela olhou para mim com impaciência e não disse nada. Fui logo tirando uma presilha da bolsa, e o gesto só a deixou ainda mais irritada. No auge do seu aborrecimento com aquela situação, ela olhou para mim explicando o óbvio: “Não preciso disso, eu estou fantasiada de roupa secando no varal”. As crianças têm disso. Elas estão a toda hora nos ensinado a entender o mundo por outras lógicas. São peritas em transformar as coisas com o olhar, esse olhar imprevisto, que ainda não foi cooptado pelos vícios utilitaristas do universo adulto. Diante de uma caixa de sapato, por exemplo, a criança se pergunta quantas existências aquele objeto pode conter. Uma caixa de sapatos pode ser uma cama, uma casa, um foguete, uma máquina ou qualquer coisa que ela quiser que seja. 

TRÊS. Enxergar uma partitura num conjunto de indivíduos se movimentando aleatoriamente num espaço, escutando sons que só eles sabem quais são, é desacostumar o olhar e exercer essa lógica infantil. Assim é Partituur, um espetáculo de dança voltado para as crianças. A dança é feita para elas e por elas, pois essa partitura só pode acontecer numa vibração pueril, que se dá a liberdade de fluir por aí sem medo do ridículo. Antes de entrar no local onde a dança acontece, nos é informado que ali não existem espectadores. Todos participam. Se você não tá afim de dançar, não entre. Aí fica logo patente o constrangimento do adulto. Trocávamos olhares receosos e risinhos sem graça, enquanto as crianças já estavam implicadas no jogo. O espetáculo acontece em um grande salão com linhas coloridas desenhadas no chão e caixas de papelão espalhadas pelo espaço. Antes de entrar todos recebem um fone de ouvido e um crachá com um nome que será seu avatar no jogo. Do fone saem instruções que podem ser seguidas ou não, e que sempre sugerem movimentos. Pular, correr, caminhar, ir de uma linha a outra, dançar, ser um personagem, ser um país, sair do seu país e ir visitar outros. Assim, minha postura de crítica foi destroçada e eu nem percebi a hora. Quando dei por mim já estava estirada no chão tentando me proteger de um grande terremoto. 

E JÁ! No final das contas a brincadeira suplantou a analise daquele acontecimento. Mas tudo bem, porque eu gosto de ser absorvida pela arte. Uma das grandes capacidades que a arte tem é a de capturar o indivíduo para o universo dela, de maneira que em certo momento o mundo ao redor se desvanece e nada mais existe, só o filme, ou o livro, ou a pintura. Mas até então eu não tinha percebido que a brincadeira também faz isso. E que brincar pode ser uma forma de arte. Ou que a arte é uma forma de brincar. Enfim, exercícios da lógica infantil. A verdade é que sinto falta de acionar esse olhar com mais frequência no meu dia a dia. Talvez se fizesse isso o mundo se transformaria em um lugar menos sisudo, distante e apoltronado.