quinta-feira, 29 de agosto de 2019

UNIVERSIDADE LIVRE DE TEATRO VILA VELHA - Vinte anos de teatro em 2019 e eis que agora sou Novo! - Por: Miguel Campelo


Foto: Tatiana Semêdo

Beatrice Papillon em “A Noite do Rebolado Molotov”



Vinte anos de teatro em 2019 e eis que agora sou Novo!



Quando você acha que a profissão não te reserva mais tantas surpresas, vêm as reviravoltas. Sou um ator de teatro de rua. Essa é minha formação e labor ao longo de vinte anos de profissão. Somei experiências no campo (como diretor e autor, com grupos da reforma agrária) e nas boates (como drag queen e cantor), mas eis que entro numa casa de espetáculos. Um Teatro, propriamente dito, com paredes, telhado, refletores e poltronas. Que coisa Nova!

À convite de Márcio Meirelles, passo a integrar a Companhia de Teatro dos Novos, sediada no espaço que sua formação original construiu há 55 anos. (Esta é a idade do Vila Velha, os Novos estão completando 60 anos!!)

Não poderia estar mais entusiasmado! Trabalhar com uma companhia histórica do teatro baiano, dentro de um espaço emblemático de resistência cultural como o Vila, com um diretor que admiro há anos pelos trabalhos fantásticos que vi com o Bando de Teatro Olodum e a Cia dos Comuns.

Além de uma das coisas que para mim pesam especialmente: sou um ator de teatro de grupo. Poucas vezes integrei elencos. Tudo que sei sobre teatro aprendi em investigações coletivas e continuadas com xs companheirxs de tantos anos no Grupo Tá Na Rua e em colaborações com companhias do Ceará que têm bastante desenvolvidas suas linguagens e assinaturas cênicas. Afinal, cinco anos após deixar o TNR para migrar pro Nordeste, volto a integrar uma companhia. Já tava mais que na hora.

O que será que os próximos vinte anos me reservam?"



Miguel Campelo – Companhia de Teatro dos Novos

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

UNIVERSIDADE LIVRE DE TEATRO VILA VELHA - Ainda somos os mesmos - Por Michel Santana

Foto: Tatiana Semêdo
"Apolo Deus das artes" - vivido por Michel Santana em "Por que Hécuba"

- Texto produzido a partir do processo de organização dos documentos de memória do Teatro Vila Velha
Ainda somos os mesmos

Ainda somos os mesmos, diria Elis. Ver isto hoje não é uma dor, mas sim uma ponta de esperança.

Quando soube que iria para a comunicação, tive medo por imaginar que não teria habilidades suficiente para acrescentar no território e no trabalho dos colegas, mas acabei ficando responsável pela coleta de material para as postagens e a gestão dessa agenda de geração de material e uma coisa que eu não esperava estava por vir.
Gil Maciel (Te amo Gil), territorialista de comunicação, informou que havia algumas atividades a serem realizadas na memória do teatro (principalmente e inicialmente a substituição das caixas). Alguns amigos focaram mais no processo de montagem das caixas e eu me aproximei mais da substituição das caixas em si.

A primeira vez que entrei naquela sala com cheiro de antiga, imaginei que seria apenas mais uma atividade que eu já fazia pelo Vila. Puxei a primeira caixa. Estava bem deteriorada. Comecei a substituição. Em um momento me deparei com um envelope que continha recortes de jornal de uma peça: "Eles não usam Black-Tie". Marcio já havia mencionado esse espetáculo em um dos encontros com a Livre. A mesma curiosidade que matou o gato fez algo nascer em mim. Abri o envelope. Havia algumas fotos e textos falando sobre o texto de Gianfrancesco Guarnieri encenado por João Augusto.

João Augusto. Outro nome que Marcio já havia mencionado e que também é o nome que batiza nossa principal sala de ensaio. Comecei a ler e outros nomes ia surgindo com o passar dos envelopes e dos documentos. Alguns conhecidos e outros que desconhecia até então. Nomes como Echio Reis, Sônia Robatto, Carlos Petrovich, Othon Bastos, Thereza Sá, Carmem Bittencourt, Sônia dos Humildes, Benvindo Siqueira, Mário Gusmão, Chica Carelli, Bando de Teatro Olodum, Companhia Teatro dos Novos, Sociedade Teatro dos Novos, Grupo Teatro Livre da Bahia, Vilavox e inúmeros outros nomes. Continuei lendo. Naquele dia li mais que trabalhei. Saí da memória e fiquei pensando em tudo aquilo.

No outro dia voltei para a memória e li mais, vi fotos, borderôs, contratos, prêmios. Neste dia mergulhei e trabalhei mais, e com mais afinco. No outro dia trabalhei mais que neste dia. No outro, mais do que naquele. As horas passavam enquanto estava lá sem que eu percebesse. De certa forma aquilo me alimentava. Passei a ver umas coisas que Márcio ainda não havia mencionado: contratos, grupos, artistas, desenhos (inclusive do próprio Márcio), textos, cartazes, liberações e proibições de peças pela censura federal. Aos poucos um Vila que eu não conhecia foi se revelando (e se revela até hoje) durante esse processo.

Um documento em especial mexeu bastante comigo. Era uma carta datilografada que João Augusto enviou para Gilberto Gil em 1966 quando morava no Rio de Janeiro. Eu consegui ouvir a voz de uma pessoa que não conheci falando de grandes feitos do Vila e no Vila, e de velhos calos conhecidos. As lágrimas que me brotaram não foram de tristeza pelos velhos calos, mas sim de esperança por ver que há tanto tempo a arte sobrevive a todos esses calos antigos e os novos que vão surgindo. Esperança por ver que apesar de tudo, seguimos falando, falando e falando. Em tempos difíceis, seguimos. Esperança por ver que temos uma responsabilidade de seguir cumprindo o papel que é nosso. Esperança por ver que, mesmo estando no programa de formação que é a Universidade Livre, estou e estamos sobre ombros de gigantes, de gente que fez das tripas coração, que fez de ideias simples coisas inacreditáveis, de gente que conseguiu passar um discurso significativo para a sociedade muitas vezes com tão pouco recurso financeiro e logístico, mas com os principais recursos que qualquer um pode empregar em qualquer projeto: sangue, suor e lágrimas. Observar isso diz muito sobre o fato de termos a responsabilidade de pegar o bastão e seguir buscando chegar mais alto, alcançando novos vôos. Jamais para ser melhor que A ou B, mas por acreditarmos na arte que fazemos e no seu poder de questionar, de apontar, de perguntar  "por quê?" como a voz de Chica Carelli pergundo, ecoando no palco escuro do Teatro Vila Velha em Por que Hécuba.

Márcio uma vez disse que cada espetáculo é um milagre. Poder trabalhar na memória é ver os registros dos inúmeros milagres de gente que, como nós, seguiu acreditando.
Gente como nós.
Ainda somos os mesmos: vivemos.

Michel Santana – participante da Universidade Livre de Teatro Vila Velha

domingo, 18 de agosto de 2019

UNIVERSIDADE LIVRE DE TEATRO VILA VELHA - Dia 08/08 dia de nada - Por: Tatiana Semêdo


 Foto: @afroperiferica 

DIA 08/08 DIA DE NADA

Mas hoje é sim! Foram essas as primeiras palavras que disse quando a noite começou, ou talvez não (foram tantos ensaios com tanto improviso). Mas para nós começou muito antes! No dia anterior.
Depois de um ensaio exaustivo em que apesar de todas as questões relacionadas a luz, som e cenário ainda estavam por vir. Tínhamos encaixado uma base do que seria a noite seguinte. Então em roda percebemos que na manhã seguinte precisaríamos de mais um ensaio. A tarde do primeiro bloco deste dia foi reservada para arrumar cenário, figurino e o ensaio geral com luz, som e palco. Recebemos então a notícia de que teríamos um espaço para homenagear Márcio Meirelles em sua Comenda e assim tivemos que abandonar o barco que nos levava para o ensaio da manhã e entrar naquele grande Navio que embarcava para uma homenagem emocionante ao nosso artista de Teatro.




Foto: Tatiana Semêdo
Edição: Ananda Brasileiro

Foto: Tatiana Semêdo

“Barco que, ainda bem, é guiado por uma louca” Márcio Meirelles


A tarde foi cheia de “Músicas, gritaria, peitos. Foi incrível, claro, a noite foi incrível. Mas eu tive que pedi para abaixar o som da balbúrdia” Gil Maciel (Comunicação TVV). Foi incrível “abraçar o caos”. Foi incrível, criar todos os dias coisas novas, cenas novas, vida nova. Foi incrível receber a ajuda e o amor de cada um desse lar. Joilson cuidando da montagem de palco, ajudando com o figurino no meio da apresentação. Yan nos auxiliando a produzir, se sentindo em casa com aquele gostinho de Universidade Livre que ele já teve um dia. Nalvinha, Dona Irá e Meire nos dando apoio. Miguel Campelo nos mostrando os caminhos que poderíamos trilhar para esse, por que não dizer? Espetáculo.

E aquela explosão! Parimos. “Tinha um pouco de cada um de vocês” ouvi.
Gratidão pela parceria Vick Nefertiti/Paquite Arlequine, cada encontro durante as oficinas foi um dia de criação nova para introduzir o número que estava por vir. Foi muito bom ouvir da nossa colega Anne que se sentia ansiosa a cada aparição nossa “o que será que eles vão fazer? ”, disse. Obrigada a todos os “Livres da Caixa”. É muito bom ter o respeito, a parceria, a confiança para ouvir de um de vocês palavras de incentivo, elogio e crítica construtiva.
TEATRO BAIANO NÃO É GINCANA
Então assim considero que o dia 08/08 ainda não acabou, vai se reverberar em nós infinitamente.
Axé e Paz
Tatiana Semêdo - Integrante da Universidade Live de Teatro Vila Velha


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

UNIVERSIDADE LIVRE DE TEATRO VILA VELHA - Fábula do nosso tempo - Por: Carolina Lyra


Foto: Benedito Cirilo

Texto escrito a partir do espetáculo “Espelho para cegos” montagem da Companhia Teatro dos Novos e encenação de Márcio Meirelles.

FÁBULA DO NOSSO TEMPO

Li em algum lugar que “Teatro Decomposto ou o Homem-lixo: monólogos...” podia ser considerado como uma fábula de nosso tempo. Imediatamente me veio imagem de estar com a minha sobrinha, lendo pra ela ao invés das fábulas de Esopo, as fábulas de Visniec. Como seria isso? “Clarinha, era uma vez uma moça que estava passando e uma velha jogou o lixo nos pés dela, ela achou a que a tal velha tinha enlouquecido, mas todo mundo começou a jogar lixo nela, até o dia que ela percebeu que era a mulher-lixo”. Que horror. Não quero contar isso pra minha sobrinha. Vamos fazer outra tentativa. “Clarinha, era uma vez um homem, que desenhou um círculo onde ele podia entrar e ficar muuuito confortável, lá dentro ninguém podia tocá-lo, incomodá-lo, etc etc”... Mas lá pelas tantas a própria Clarinha ia perceber que ele virou prisioneiro da própria solidão e que ficar dentro do círculo talvez não fosse uma ideia tão boa assim. Isso seria horrível também.
Aliás, quando eu falasse que iria ler pra ela umas fábulas do Visniec, a própria Clarinha, daria uma rápida pausa nos youtubers que ela assiste pra dar um google nesse nome. Descobria rapidamente que Matei Visniec nasceu em 1956, na Romênia, que hoje mora na França e que escreve em francês, que ele é considerado pelos críticos como o novo Ionesco (whatever it means, isso não valeria uma nova conferida na wikipedia), que suas peças foram  traduzidas para o português e ele virou o “xodó do teatro brasileiro”. Nessa altura do campeonato, Clarinha ia estar achando que a tia dela é meio doida e se perguntaria o que é que a Romênia tem a ver a com o Brasil, como quem se pergunta o que é o amor tem a ver com gratidão. (Sim, nessa idade da fábula, espero que eu já tenha mostrado algumas músicas pra ela, e que Tom Zé ainda esteja vivo e peralta pra gente curtir um show juntas!)
Clarinha não deveria estar tão interessada assim, e não viu que o Visniec nasceu numa cidadezinha romena chamada Radaiuti, com apenas vinte mil habitantes e com uma estrada de ferro que a corta de uma ponta à outra. Não viu que eu poderia contar a história da mulher lixo, ou do homem do círculo, ou da mulher perseguida por um cavalo, ou de um operador de máquinas que recolhem cadáveres, ou dos lavadores de cérebros.
E se a Clarinha me perguntasse se eu gostei? E do que eu mais gostei? Eu ia ter que contar a verdade pra ela. Dizer que fui no teatro e que enquanto eu ouvia as fábulas eu ficava pensando “como é que o cara sai de uma cidade pequeninha na Romênia e vem me atravessar aqui, tantos anos e léguas depois?” Lógico que ela ia querer saber mais sobre isso. Será que eu poderia dizer pra ela a mesma coisa que eu diria pra gente adulta?
Logo no comecinho da peça um homem é devorado por um cãozinho de várias bocas. Enquanto eu imaginava o sujeito em carne viva, me veio uma frase... se é para a alegria de todos e delírio geral dos deleuzetes, digo à todos que “o mais profundo é pele”. Não fui eu que disse isso. Foi o Deleuze. Ou melhor, foi o Paul Valéry. Quer dizer. Foi o Nietszche lá atrás. Foi, na verdade, assim, um foi retuitando o outro e essa mensagem na garrafa chegou até 2018.
Eu sou tão louca quanto a “louca tímida” e as suas borboletas carnívoras, lindas e coloridas. Eu sou tão louca quanto a “louca febril” e seus caracóis pestilentos e a nostalgia das borboletas por elas serem limpinhas. Eu sou tão louca quanto a “louca lúcida”, seu monstro-chuva e o lamento pelo silêncio do caracóis pestilentos. Eu também vivo correndo e não consigo parar como o corredor da cidade. O mais incrível é ver que não se trata de um “eu”, se trata de um “nós”.
Eu poderia desdenhar, Clarinha, rir de teatro político. Teatro político pra quê? Pra quem? Não me interessa se for uma arte feita só pra quem leu Visniec e Ionesco e Beckett, ou sei lá mais quem. Mas nesse dia, eu levei sua tia Bia ao teatro comigo pra ver a encenação dessas fábulas que estou lendo pra você. Sim, tia Bia. Tinha um tempo que a tia Bia não ia ao teatro. Eu fiz essa mesma pergunta que você me fez pra ela!
Sabe o que me encantou, Clarinha? Foi como essas fábulas reverberaram nela! Sabe qual a parte que ela mais gostou? A mulher-lixo! Ficamos pensando juntas em voz alta, Clá-clá. O que são bolinhas de papel, chicletes mastigados e cacos de vidro? Quantas e quantas vezes servimos de receptáculo para o lixo alheio? Sem reagir? Por que não reagimos se sabemos que aquilo está errado? Por que nós trancamos na nossa individualidade? Por que queremos consertar aquilo já morreu? Por que não insistimos na fuga? Por que cedemos ao cavalo que nos persegue?
Olha Dona Clara, agora já está muito tarde e já está na hora de dormir! Depois a gente lê mais juntas. Ah, quer dizer que você gostou das fábulas do Visniec? Se tem mais? Não sei Clarinha, vou ter que procurar. Moral da história? Como assim, Clarinha? Ah, tá. Toda fábula tem que ter uma moral da história, né? Lá vai:


Moral da história: bailemos a valsa visniciana do risco sem medo do perigo.

Carolina Lyra - participante da Universidade Livre de Teatro Vila Velha

domingo, 11 de agosto de 2019

UNIVERSIDADE LIVRE DE TEATRO VILA VELHA - A Comenda 2 de Julho - Por Julyana Costa



Foto: Bianca Araújo

Edição: Ananda Brasileiro


8 de agosto de 2019.

          A Comenda 2 de Julho – proposta pelos deputados estaduais Neusa Cadore e Marcelino Galo - é entregue ao diretor, cenógrafo, gestor cultural, figurinista (vide http://www.marciomeirelles.com.br/) Márcio Meirelles, numa sessão especial que provocou arrepios, admiração e lágrimas. Uma figura essencial dentro do âmbito cultural e artístico do estado da Bahia – e também fora dele.

          Márcio possui anos de carreira, experiência, descobertas e um olhar expansivo perante uma sociedade que necessita de uma linguagem acessível para a compreensão do que ocorre fora das bolhas de cada ser humano.

          O compilado dos seus feitos, assim como os depoimentos de figuras importantes – dentre eles o ator, diretor, dramaturgo e encenador Zé Celso Martinez, a presença do Bando de Teatro Olodum, do Teatro dos Novos e da Universidade Livre do Teatro Vila Velha – diretrizes do dia a dia e da história do homenageado, potencializou um evento que poderia ser dedicado a qualquer outra pessoa do ramo, mas não com a mesma energia e significado.

          Nada se compara ao que foi vivido naquela manhã.

Julyana Costa - participante da Universidade Livre de Teatro Vila Velha

sábado, 3 de agosto de 2019

UNIVERSIDADE LIVRE DE TEATRO VILA VELHA – 3 & pronto “Pela Água” – O Processo PELA ÁGUA Por: Gabriel Brasileiro


FOTO: Tatiana Semêdo

O processo.

PELA ÁGUA.

um presente.

ter a oportunidade de por em prática aquilo que eu não tinha tanta experiência: poder experimentar.

explorar novas formas de estar em cena.

Descobertas.

Processo.

ampliAÇÃO.

Poder colorir o palco com a iluminação: crescimento.

ator e iluminador.

Agradeço.

O Teatro Vila Velha

A Universidade LIVRE

Fernanda Paquelet

Oportunidade!

Eis a liberdade para criar, opinar e sugerir coisas ao longo de todo o processo. Paquelet consegue filtrar, escutar.

Abrir a escuta:

os atores,

iluminação,

sonoplastia.

Fazer uma criação conjunta disso tudo, foi um dos grandes aprendizados.

Quero seguir descobrindo ao longo do projeto 3 & PRONTO e da minha trajetória na Universidade LIVRE.



Gabriel Brasileiro – Participante da Universidade Livre de Teatro Vila Velha.