domingo, 31 de março de 2013

Marcio Meirelles à luz e à sombra de Peter Pan


O diretor teatral cruza as fronteiras ultramarinas e explora outros territórios cênicos

Por Arlon Souza


No Dia Mundial do Teatro deste ano (27/03), Marcio Meirelles estreou no Teatro Viriato, na cidade de Viseu, em Portugal, o espetáculo “Sempre em frente até amanhecer”, numa incursão dramatúrgica pela história de Peter Pan, de J.M. Barrie (1860-1937) e a obra Indignai-vos!, do autor franco-alemão Stéphane Hessel (1917-2013).


O espetáculo é o último da trilogia K CENA – Projeto Lusófono de Teatro Jovem, num intercâmbio entre Portugal, Brasil e Cabo Verde, que reuniu 14 jovens portugueses com idades entre 14 e 17 anos. No trabalho, os adolescentes apropriam-se das obras de J.M. Barrie e Hessel para a construção do próprio discurso cênico, levantando questões de identidade, cidadania e política, buscando desenvolver o prazer pela escrita e pela interpretação teatral, num contexto de valorização da língua portuguesa e de fortalecimento das relações pessoais.

A partir do drama de Peter Pan, que se recusa a crescer para não ter que assumir a vida adulta, cheia de regras e obrigações, o grupo questiona a responsabilidade pela herança das crises econômicas atuais, como o legado da crise econômica européia, e a liberdade deles em se posicionarem diante desses problemas. Sobretudo, num momento em que o mundo clama por Democracia e Direitos Humanos, a obra de Hessel traz à tona a consciência do que pode se transformar a partir da capacidade que o ser humano tem de se indignar.

“Nós estamos vivendo num mundo globalizado, onde jovens do mundo inteiro se conectam, e onde, evidentemente, eles estão preocupados com esse estar no mundo. O adulto e a criação são metáforas. Não é uma questão de idade ser Peter Pan, é uma questão de manter o Peter Pan vivo”, reflete o diretor teatral Marcio Meirelles.  Por mais que a montagem soe como um manifesto jovem, o trabalho é cheio de despojamento, leveza e lirismo, a exemplo da cena acompanhada ao som de um violino, enquanto os jovens narram as aventuras de Peter Pan.

Com muita música ao vivo, marcada por canções do rock desta e de outras gerações, a encenação imprime bem as marcas de direção de Meirelles, desde a criação coreográfica, passando pela execução dos instrumentos pelos próprios jovens e pela proposta de sonoridade percussiva, à polifonia de vozes dissonantes.

Há ainda, pela percepção de experiências mais recentes, como “Bença”, “Drácula” e “Dô”, o uso da projeção de vídeo. Ao final, o diretor teatral pontua novamente a sua assinatura, encerrando com uma citação ao Bando de Teatro Olodum, na qual o elenco levanta o braço direito com mão fechada em punho, em agradecimento ao público.

À luz de Peter Pan e em constante busca de sua própria sombra, Meirelles demonstra querer descobrir ainda mais de sua arte, e mesmo de sua identidade, através do vigor criativo da juventude.

“Se vocês acreditarem neles, as fadas voltam a nascer. Assim como eles se transformaram, eu também me transformei. É possível ter esperança”, confia o diretor.    

Saiba mais sobre processo assistindo aos vídeos do projeto KCena: aqui.

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