quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Lázaro Ramos, Negritude e os Gatos do Pan

Esse e-mail do multi-talentoso Lázaro Ramos já teve reverberação nos jornais do sudeste (coluna de Ancelmo Gois, em O Globo online e impresso) e agora reproduzimos neste espaço como uma provocação. Confira aqui uma das listas dos "mais gatos do Pan".


Sobre a importância das representações e das referências

"Amigos.

Recebi hoje um e-mail do amigo Jorge Portugal, e resolvi compartilhar o nosso sentimento com vocês.

Num Pan como o que acabou de acontecer, onde vários talentos brilharam, enchendo de emoção os espectadores, permitam-me falar de uma emoção que não tenho como esconder do meu coração e dos meus olhos.

Sei, inclusive, que este meu comentário vai gerar uma série de interpretações, mas acredito que vale a pena pensarmos sobre isso.

Num Pan, onde a variedade foi a tônica dominante, cores diversas, homens e mulheres de varias regiões do país, vários estilos, vários olhares e sorrisos, enfim... DIVERSIDADE! Que é, a meu ver, a grande característica, e um dos grandes patrimônios do nosso país. Num Pan que ocorre numa época em que se discute tanto sobre a não-existência de raças - uma das frases que mais ouvimos ultimamente é "somos todos uma mistura" (inclusive, para mim, uma coisa mais que óbvia há muito tempo, e que não é uma pesquisa científica que me dirá "sim, somos todos iguais". Já sei disso há muito tempo. Apesar de, em várias ocasiões, esse direito à igualdade não ser aceito, mesmo que uma "não-aceitação" inconsciente). Uma época onde já se fala, ou onde se retorna ao discurso do "somos todos mestiços!" com batidas no peito de orgulho e exigências ou corte de direitos, usando esta mesma frase como argumento.

Uma simples e rápida observação num site me fez refletir.

Por que, ainda hoje, apesar de (bato no peito) "sermos todos mestiços!"...

Por que não valorizamos (valorização real e prática) a diversidade e a mistura como um valor fundamental da nossa nação? Na nossa casa, nos meios de comunicação, no nosso inconsciente e, às vezes, até mesmo nas nossas relações.

O que falarei a seguir talvez não lhes tenha chamado atenção, mas a mim toca profundamente.

Esse é um exemplo (banal, talvez), mas um exemplo de como, dia após dia, nós negamos quem somos.

Vejo hoje num site a escolha dos 10 atletas mais gatos do Pan.

Todos (e falo isso sem preconceito, mas como um estímulo à reflexão)... todos têm traços europeus.

O que isso quer dizer?

Quer dizer que continuamos "arianistas" no nosso inconsciente e no nosso subconsciente. E até gritantemente no nosso consciente.

Podem dizer "Lázaro tem uma idéia fixa, as coisas estão mudando", claro que sim, e aceito o comentário se ele vier junto com uma reflexão profunda sobre o que queremos para o futuro do nosso país, da nossa cultura e da nossa auto-estima. E o que podemos fazer para que as nossas consciências se tornem mais acolhedoras às diferenças.

Vamos lá, gente, vamos potencializar os nossos talentos e as nossas belezas diversas.

Reflitam!

Aproveito para, neste e-mail carinhoso, reforçar o que por várias e várias vezes nos é negado.
Esse, para mim, é o mais gato do Pan.


Diogo Silva - Ouro no taekwondo.

Minha esposa manda dizer que acha o mesmo.

Se quiserem, adicionem os seus gatos e gatas e repassem o e-mail.

Carinhosamente,

Lázaro Ramos

P.S. Acabei de ver a minha caixa de e-mail e, além de vários gatos enviados, achei também mais três outros concursos que refletem o mesmo pensamento.
Abraços

3 comentários:

  1. Eu acrescentaria até que, lááá no inconsciente, há mais problemas do que não reconhecer a mestiçagem. Tem o problema do conceito de beleza: mesmo quando não são atletas os eleitos, a beleza física, além de branca e européia, é necessariamente jovem, tem abdomen tanquinho e nenhuma, nenhuminha imperfeição na pele, nem que a perfeição seja via photoshop. Ah, e cabelos lisos, naturalmente. Ou 'naturalmente' alisados.

    O que exclui, por baixo, uns 95% da população brasileira.

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  2. De fato, o Diogo Silva é o mais gato do PAN!

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  3. acontece que "nós" digo, negros, estamos acostumados a receber informaçoes de o que seria uma beleza "pura", uma verdadeira beleza. Não sabendo, ou não aceitando o fato de que somos nós que fazemos nossa própria beleza... há uma perda de identidade imensa no nosso país. As meninas acham que mulher bonita é aqulea que tem cabelos lisos e longos, que são magras e altas, por isso acontece a descriminação inconsciente ou conscientemente de negros para negros...
    Como o Lázaro disse, é claro que vão me achar radical, mas temos que parar de aceitar o que a mídia dita! Entendam que ela exite apenas para fazer com que não tenhamos decisãos próprias, treinam as pessoas para que sejam suam marionetes...
    Assim, a maioria da "raça negra" acha que o certo é ser como a mídia diz: Use chapinha no seu cabelo duro, emagreça usando Magrins!!! Isso é balela!!!
    Acordem enquanto é cedo, e vamos mostrar que ñ servimos para sermos bobo da corte.

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