quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Corporação sanguinária - O Drácula da contemporaneidade



O novo espetáculo de Marcio Meirelles baseado no romance de horror de Bram Stoker (1897), Drácula, que teve sua reestreia no dia 14 deste mês no Teatro Vila Velha, tem como essência a grandeza do cenário que vincula o teatro e a tecnologia. Nenhum dos atores interpreta no palco o vampiro mais conhecido no mundo, entretanto, o Conde Drácula é visto, em alguns momentos na projeção, com imagens de filmes antigos.

Poderia ser mais uma edição do São Paulo Fashion Week ou a apresentação do show de um astro musical. Certamente, para quem não acompanhou sua montagem via Facebook, sem ter a mínima ideia de como seria o espaço cênico, teve um forte impacto. Dando a possibilidade de sentir-se membro de uma comissão ou de um evento para celebridades, o comprimento da passarela como extensão do palco trouxe uma nova dimensão de estrutura física para o público. Estando no lugar onde quase sempre é disposto para os espectadores, o palco em formato de grandes degraus, forrado por um tecido preto, causou estranhamento por fugir do convencional soteropolitano. E por estar em um nível mais elevado que a plateia, o público tem que assistir com uma visão de baixo para cima, este contra-plongée proporciona grandiosidade a obra.

Para colocar maior brilho aos olhos do público, a tela em 180° graus é um dos atrativos. A reprodução de vídeos foi utilizada para contextualizar o período histórico em que ocorre a cena, acompanhar a narrativa e dar ênfase a atmosfera. Vale mencionar que este elemento visual corresponde a esta fase atual, contemporânea, dando dinâmica e diversificando ao espetáculo.

A iluminação, um tanto estática, com focos de luz em pontos estratégicos onde os atores passam a maior parte do tempo, deixa a cargo da tela de vídeo a mudança da luz ambiente conforme as imagens nela são exibidas. A não ser pelo final da peça, quando a iluminação é essencial para determinar o seu desfecho, uma porta no fim da passarela é aberta, o que se pode ver é uma forte luz dos refletores como sinal de um amanhecer.

Referente aos elementos cênicos, enquanto ocorre a encenação os atores se revezam num banco para escrever na máquina de datilografar. O que dá a entender que estão escrevendo a história do livro Drácula, também utilizado em cena. Logo no início do espetáculo, um caixão preto com quatro rodas acentua a tragédia eminente. Empurrado de um lado para outro com a carga dramática do ator Rafael Medrado que, possui um olhar fixo e profundo capaz de intimidar e prender a atenção do público. Sua partitura em cima do caixão possuiu teor animalesco, são contorções corporais que empenham precisamente, demonstrando força e vitalidade. Outro elemento para uso da escrita é uma pena vermelha que fica presa a vestimenta da atriz Lis Luciddi que, ao escrever no vestido branco da atriz Luisa Prosérpio, remete a sua cor ao sangue pressuposto na história e no futuro da trama.

Cada ator fica na direção de um instrumento musical, eles revezam bateria, guitarra, contrabaixo e percussão.  Os acordes musicais denotam os sentimentos dos personagens ao serem tocados no clímax de uma emoção. Uma espécie de ilha de edição montada, em cima de uma mesa, faz parecer que Igor Epifânio é um DJ, o ator articula o texto com rítmica e agilidade, dando uma quebra na serenidade dos atos. Assim como a atriz Luisa Proserpio que, pela espontaneidade traz leveza à obra sendo sutil nos gestos, com uma doçura na voz e alegria ao sorrir. Juntamente com Ciro Sales formam o casal romântico da história que, entre desejos e renúncias provocam suspiros no público. Em contrapartida ao romantismo, Will Brandão com sua presença de palco traz um espírito revolucionário à cena, tendo expressão corporal e facial provocantes, que lembram o caráter vampiresco da obra.



O figurino é padronizado para todos os atores. Um delicado vestido branco transparente de tecido frágil com bordado e pregas. Acompanhado por um longo casaco preto de tecido grosso. A combinação resultada em um duelo entre o amor e o horror, a pureza e a brutalidade. Deveria haver um esforço para ter cuidado com o vestido, mas ele é usado com flexibilidade e beleza nos movimentos. Já o casaco deixa a sua marca de alinhamento, usado por ações bruscas que determinam o seu peso e vigor.

O espetáculo tem um grand finale, o salto de interpretação textual ao associar o Drácula da obra de Bram Stoker com o avanço econômico, o qual possui dentes afiados prontos para sugar a humanidade em nome do capitalismo. Desrespeita a ética provocando a destruição dos recursos naturais, agravando a desigualdade social e comprometendo a evolução humana. Uma crítica feroz as grandes corporações que concentram o poder em um grupo elitizado e um alerta para a sociedade de consumo. 

Texto: Rafael Sá Maia
Fotos: Tai Oliver



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