quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A “Muvuca” dos corpos - O novo espetáculo do Viladança


O homem nasce cercado por pessoas que celebram a sua vinda ao mundo. O indivíduo não vive só, tampouco deseja envelhecer sozinho. A humanidade se desenvolveu devido a conflitos de opiniões, ideias que se repeliram ou que juntas construíram muralhas. De certo, é sobre este encontro de pessoas que se trata a abordagem do novo espetáculo do Núcleo Viladança. 

Exposição de pensamentos, modos de vida, religiões, sexualidades, raças, oposições políticas, pontos de vista, formas de se expressar, preferências e conceitos. Tudo isso são características humanas que ficam mais nítidas quando há aproximação entre os povos, onde o contraste se torna visível. É esta muvuca que possibilita a troca de conhecimentos, o partilhar de experiências e a exposição de pensamentos. Nas últimas décadas, o avanço tecnológico facilitou a comunicação, diminuiu as fronteiros geográficas colocando todos os seres humanos em janelas vizinhas. Através de uma discagem ou conexão continentes navegam até estarem lado a lado. Este contínuo diálogo teve como causa a diversidade cultural como um dos temas principais nas discussões da contemporaneidade. Indo além do encontro, refletindo sobre os efeitos deste impacto e as conseqüências desta colisão. O projeto Muvuca propõe um novo ângulo de visão, um olhar estrangeiro sobre as relações do homem com o universo. Um convite para ver a natureza em seu abstrato, liberar a imaginação, enxergar as notas musicais. Ouvir o silêncio, as ondas do mar, o eco, fluir ao desconhecido. Deixar florescer as percepções, sentir o cheiro do vento, do nascer do sol, transgredir a racionalização. Provar o sabor da chuva, da lágrima, da saudade, ter uma mente insaciada por descobertas. Tocar o sol, as nuvens, os ossos, visitar o inabitável.

De início a diretora e coreógrafa, Cristina Castro, discorreu um artigo como produto bruto. Coube junto a seus dançarinos a tarefa de lapidar a obra prima. Reunidos, fizeram sessões de experimentações corporais. O grupo teve como base o Contato Improvisação, embora o projeto final não seja algo improvisado. Cada movimento é estudado, elaborado, conectado a um desdobramento, toda estrutura performática será delimitada em tempo e espaço. Durante estes experimentos descobriram que existiam movimentos com uma mesma linearidade. Separados em grupos, lembravam determinados objetos que, foram denominados por uma cor, como os movimentos referentes ao mar intitulados de azul.

A montagem será dividida em quatro blocos, cada um representará uma cor. O primeiro bloco será o branco, o qual revela a luz e não os dançarinos, o ponto de partida, o sair do nada, a primeira conexão, a folha de papel. As outras cores serão o azul (o organismo), o vermelho (os espaços) e o amarelo (o deslocamento).

O espetáculo usará projeção de vídeos em três telas móveis para construir a dramaturgia da peça, contribuir com a dança e interferir nas cenas. As telas são elementos decisivos para situar o ambiente. A execução da música neste projeto não é uma trilha sonora, mas a musicalidade da matéria. Os corpos dos dançarinos fluem ao ritmo dos sons, a uma extrema conexão entre a ação e o que se ouve. As cores possuem vibrações, estão contidas no instrumental reproduzido. O toque de um encontro ou repulsão de uma despedida é marcado por uma batida musical.

Para Cristina Castro, Muvuca é um espetáculo para o público experimentar e não entender. Por ser uma obra subjetiva e sugestiva, se assemelha a uma pintura. Seus traços e cores despertam emoções no espectador que, ativa uma experiência sensorial, ele deve se permitir a contaminação para questionar que sensações lhe provocam. O planeta está em movimento, tal como a montagem cênica é efêmera, não está localizada em um ponto fixo, por ser abstrata, tudo pode acontecer. O mais próximo do que seria o projeto são as mudanças que ocorrem dentro de um organismo.

Observar, caminhar, encontrar, cumprimentar, ter o primeiro toque, interagir e reagir. A causa, o efeito, encontros e desencontros, estímulos, mudanças, construções e desconstruções, a intenção, os estados de espírito, tempos, impulsos, variação de tons, texturas. Fluir conforme a música, ajustar o tempo no espaço, buscar a profundidade. A luta, as barreiras, a perda, a despedida, os caminhos, as direções. O atrito é o que puxa e repulsa, o movimento de desfaz como algo natural da reação, os dançarinos devem permitir que isso ocorra. O apoio, os contrapontos, a sustentação, a confiança, a harmonia e a sincronia. A plástica, as formas, o deslizar, o navegar, o viajar. Entrar no outro, ir até onde os corpos permitirem, o entrelace, chegar ao limite e depois dizer adeus. O Muvuca não se define, não se limita. Não está fora, mas está dentro. É a aura, a alma, a vida, o âmago de cada ser vivo.

Texto: Rafael Samaia
Foto: Flickr do Viladança

Nenhum comentário:

Postar um comentário