segunda-feira, 14 de abril de 2008

Coletânea de diversidades



Foto: João Meirelles.


“O Mês da Dança no Vila e a Coletânea Casa Aberta, em particular, são fundamentais para a comunidade de Salvador. O Vila consegue ser interdisciplinar e especializado ao mesmo tempo, e assim é o Mês da Dança e o Casa Aberta. O Mês da Dança é o retrato do Vila: pluralidade com qualidade. Acadêmicos (como eu) dançam, e dançarinas (como Márcia Mignac, também professora) dão palestras. O corpo é o foco que atravessa e conecta todas as tendências e espaços, inclusive questionando porque festivais nacionais (como o Panorama Rio) não incluem companhias baianas (palestra com curadoras de festivais nacionais), ou nós não sabemos sobre as companhias de lá: as fronteiras de nosso próprio país são questionadas. Também as fronteiras da normalidade (prisioneiros que dançam são o debate de Corpo, Arte e Violência), e da dança como terapia (com Márcia Mignac falando de seu trabalho de dança do ventre com mulheres vítimas de estupro). Da dança de rua (hip hop) à dança do ventre, vídeos inéditos e grupos internacionais que vão causar frison e fricção (Science Friction), o Mês da Dança é Inter e Trans e, por isso mesmo, é dança por excelência, pois dança é troca, entre corpo e espaço, entre diferentes partes do corpo, entre multiplicidades de um todo, a partir de então, integrado.

Foi um prazer e uma honra dividir esse espaço das artes no Casa Aberta: dança contemporânea (onde destacam-se o iluminador agora dançarino e coreógrafo Rivaldo, literalmente iluminado; Ex-Passos de Lyria Moraes com Claudionor sobre pernas-de-pau, extrapolando qualquer possibilidade de equilíbrio até suscitar o uso de muletas, a deficiência física como dança, e o corpo como um navegador eterno - pernas-de-pau como remos ao final, lindamente surreal e poético; e o ponto tambem "literalmente" ALTO da noite: Janahina Santos dançando ao som de Márcia Castro em Despedidas, de Ricardo Fagundes, quando abrem-se as portas do fundo acima do palco e o vazio iluminado invade a todos, a natureza mais aguda do corpo - o desejo, a necessidade do outro/ausente - vira cena concreta), performances, instalações, dança-teatro, dança de rua no palco (que galera incrível!! A energia deles pulsava pelos corredores próximo ao camarim!!), eventos acontecendo em diferentes locais do Vila, envolvendo e surpreendendo o público, e dando oportunidade a grupos e coreógrafos independentes que têm pouca visibilidade no cenário local. A Bahia PRECISA deste espaço. OBRIGADA CRISTINA CASTRO, OBRIGADA VILA!!!

A primeira vez que dancei na Bahia foi no Vila, no Cabaré, no famoso Baila Vila, e de lá para cá tenho acompanhado o crescimento da dança no Vila, em especial o VilaDança, com sua abertura para a mistura de linguagens, e até quando eles brilharam no Brasil Move Berlin (tive essa sorte!!). E Casa Aberta tem esse sabor também. Ricardo Fagundes é um coordenador brilhante, consegue organizar todas essas diferenças (mais de 50 pessoas em 2 dias de pauta!), na hora, e com muito charme (dança, coreografa, acompanha a luz de todas as coreografias, conversa com cada um com atenção total, capta todos os detalhes). As duas noites foram assim: pessoas como Maitê, Marcelo e Janahina, que brilham no palco, coreografam para os demais, e dão apoio técnico sempre que preciso. O Vila tem essa equipe junta, gente querida que faz do trabalho um prazer, profissionalismo (direto e forte) com uma suavidade fluida (leve e livre). Os bastidores eram tão interessantes que não dava vontade de ir embora. Uma equipe de coração. Gente passando e se cuidando, cuidando do outro, fazendo tudo para as 2 noites serem perfeitas, e foram!


Sobre Corpo Estranho - Nasci com uma costela extra, de cerca de 10cm, que sai do meio da coluna cervical, pressiona a saída de um nervo, e empurra todo o lado direito do meu corpo mais para baixo (inclusive rodando ligeiramente as demais costelas e entortando a clavícula de modo visível), além de meia costela extra na mesma altura, do lado esquerdo. Por isso tenho dores permanentes em toda a região cervical, até as mãos, e toda a coluna, e só durmo com os braços totalmente abertos para cima, como um pássaro.

Através do trabalho com os Fundamentos Bartenieff desde 1993, venho organizando meu corpo dentro de sua própria harmonia, melhorando significativamente em termos de dores e tensões desnecessárias. O interessante é que as pessoas sempre pensam que sou bailarina, pelo meu biotipo. No Programa de Dança e Dança-Educação da Universidade de New York, onde cursei o mestrado e doutorado (1990-1995), às vezes até me perguntavam se eu era a professora de balé. Mas a história do meu corpo é bem diferente, e é o que podemos ver em Corpo Estranho. Estranho àquela imagem de dançarina, à imagem aceita como humana no cotidiano.

Em inglês, o termo se traduz para Foreign Body ou Corpo Estrangeiro, com implicações culturais. Afinal, o corpo do balé, como qualquer outra imagem corporal, tem sua origem em um con-texto histórico-cultural específico. Por isso a opção de músicas fragmentadas, trechos de shows ao vivo de latinos residentes nos Estados Unidos, ou de noticiários da rádio latina de New York. Tendo nascido em Anápolis, Goiás, vivido vinte anos em Brasília, três em São Paulo, cinco em New York, um em Berlim e outro ainda em Roma, resido há cerca de dez anos em Salvador, e a esta altura "todo lugar parece estranho e familiar" (trecho de um poema que escrevi na Índia, em 2003, onde fui estudar dança indiana; elemento também presente em Corpo Estranho, especialmente nas mãos).

Inicialmente explorei essas assimetrias anatômicas e culturais do meu corpo durante improvisações filmadas, não de modo consciente e dirigido, mas a partir das sensações de desconforto e necessidades do corpo. Aos poucos, posições bem curiosas e inusitadas foram surgindo, e uma desembocando em outra, como hieróglifos iluminados em pedaços, contando estórias em um idioma ao mesmo tempo desconhecido e familiar. Diferente da minha preferência por peso leve e ênfase vertical, meus movimentos são em maioria fortes e com ênfase horizontal, desafiando minha auto-imagem e identidade.

A cena solo desenvolveu-se posteriormente em um quinteto de uma hora com projeção de vídeo, que estreou no Quarta que Dança, Espaço Xis, 04/06/2001, com Ricardo Fagundes, Ana São José, Ieda Cerqueira, Samara Martins, e eu.

A cena solo (apresentada no CASA ABERTA) foi montada como numa edição de vídeo. Assisti à filmagem das improvisações várias vezes, enquanto refazia, analisava e registrava cada movimento através da Análise Laban de Movimento, reorganizando-os em uma seqüência concentrada em dez minutos. Ao final, ao realizar os movimentos, vi emergir deles uma imagem curiosa, meio pássaro meio réptil, com movimentos próximos ao solo, mas tentando voar. Certo dia, encontrei uma foto e informação que pareciam encaixar-se perfeitamente nesta "Estranha Forma de Vida" (título de resenha sobre o espetáculo; JOCEVAL SANTANA 2001). Tratava-se de um fóssil de cento e cinquenta milhões de anos atrás, o primeiro pássaro de que se tem notícia, meio pássaro meio réptil, descoberto em 1860:

Este era um pássaro realmente muito estranho... [com] uma longa cauda óssea... O cientista que o descobriu chamou-o de Archaeopteryx, um nome baseado em duas palavras gregas significando "asa antiga". (ATTENBOROUGH 1998, 14).

Neste fóssil, a cabeça do pássaro está curvada abaixo das asas, como que escondida, efeito que está presente em quase todo movimento de Corpo Estranho. A foto do fóssil acabou virando símbolo da peça, e hoje incorpora também a obra solo UEBERGANG (transição/baldeação, 2003), de 80 minutos, que inclui meu solo de Corpo Estranho entre uma série de outras cenas, personagens e vídeos”.


Ciane Fernandes,
que apresentou as performances “Veneza” e “Corpo Estranho”
na Coletânea Casa Aberta, no Mês da Dança no Vila.

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