terça-feira, 21 de junho de 2016

Resenha de "Somos Todas Clandestinas", por Clara Romariz


"Somos todas clandestinas". Foto: Mila Bahia

"Meu útero é um campo de batalha", assim começa o texto da peça "Somos todas clandestinas" que esteve em cartaz no Teatro Vila Velha nos dias 18 e 19 de junho, as 20h. O monólogo é dirigido por Iajima Silena e Maíra Guedes, tendo como atriz Maíra Guedes, que emociona o público com a força da sua interpretação. Ele foi concretizado graças à #RedeClandestina através de financiamento coletivo. O texto foi criado a partir do relato de 30 mulheres, dentre as quais algumas abortaram clandestinamente, e de textos de poetisas latino-americanas. A peça trata do aborto, do abandono das mulheres pelos companheiros, do racismo, da força do patriarcado, do descaso do Estado. Inspirada no teatro Brechtiano e no teatro de agitação e propaganda, a peça é extremamente politizada e, trazendo muita angústia para a plateia, nos mostra uma realidade cotidiana no Brasil: o aborto é a quinta maior causa de morte materna, sendo feito em aproximadamente 850 mil mulheres por ano.

A equipe da peça é formada unicamente por mulheres feministas, o que politiza ainda mais a obra; são mulheres falando sobre seus abortos, os das suas companheiras que sofrem em silêncio, que são silenciadas pelo Estado, pela Igreja e pela sociedade civil. A luz do espetáculo é linda, os longos períodos de escuridão trazem ainda mais angústia a plateia. O único cenário são cordas presas ao teto do teatro, com que a personagem interage várias vezes ao longo da obra. As cenas são fortes, com texto cru e muito poético, o que surpreende o espectador: como tratar de um tema tão duro com poesia? Se banhando com tinta que representa sangue a personagem diz um texto duro. Uma cena, em especial, choca pelo seu caráter áspero. Uma mulher manipulando carne e falando sobre os abortos clandestinos de outras mulheres, do preço físico mental que pagaram por ele, da dor que sentiram, do sangue escorrendo no chão, do medo, do descaso de outros, da morte.

A apresentação, que utilizou o recurso audiovisual junto com a presença marcante de Maíra, acabou com um debate. Ela pediu: vamos deixar que as mulheres falem. E mulheres falaram, questionaram e agradeceram, contaram histórias e disseram: depois daqui não vamos sair as mesmas.

*Clara Romariz é integrante da universidade LIVRE do teatro vila velha desde março de 2016.

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