segunda-feira, 19 de maio de 2014

Meu 1° Clássico: O ator Tiago Querino escreve sobre a experiência no espetáculo Esperando Godot

Tiago Querino em cena no espetáculo Esperando Godot

por Tiago Querino*

Um dia como os outros estava no Cabaré, naquela escadinha que dá acesso ao Passeio Público quando Seu Meirelles me chamou pra fazer o espetáculo: "tenho um personagem para vc, mas não sei se vc vai querer fazer uma peça fora da LIVRE". Não pensei duas vezes e aceitei. Depois de ter aceitado o convite sem saber de nada devido a minha emoção, perguntei o que ia fazer. "Vou fazer o que Meirelles?". Até então não sabia o Barril que eu estava me metendo. A primeira leitura o Barril de pólvora estourou, nego. Não podia dar pra trás. Eu pensava durante a leitura: "se eu desistir Meirelles vai ficar puto comigo." Fiquei quieto e deixei rolar.

Essa primeira leitura do texto foi um desastre. Rapaz, eu li mal pra caramba. Foi um tal de cuspir texto, intenção errada, gaguejei, falei baixo, a dicção péssima, me arrepiava toda hora, ficava louco qnd minha vez de ler tava chegando, acelevara as minhas falas pra acabar logo. Foi uma catástrofe. Assim que acabamos de ler não conseguia nem olhar pros atores. Fiquei na merda. Silêncio profundo. Meirelles esperou todo mundo ir embora e veio todo feliz com o seu sorriso do Kaos: "achou o que da leitura?" respondi que gostei e que tinha muito trabalho pra fazer. Na verdade eu não tinha entendido nada. Texto maluco da porra. Meirelles como todo diretor que conhece bem com quem trabalha foi logo na ferida: "ficou tímido pq? tá comedo? eles são atores como vc."

A cada leitura o medo me acompanhava. Namorei com o medo o processo todo. Os ensaios só faziam confirmar que quem tem, tem medo, pai. Errava tudo. Não entendia o que tava dizendo. Eu demorava meia hora para falar a intenção certa. Conversava comigo mesmo em casa: "esse texto não é pra mim, velho". As vezes queria sair correndo dos ensaios. Eu só fazia besteira. Por outro lado ganhei um presente. Estava ao lado de atores. Grandes atores. Já tinha visto os três em cena. Gosto muito do trabalho deles. E ter a sorte de presenciar o processo de cada um foi lindo. Levo pra minha vida. Ficava olhando a forma como eles faziam as cenas. Era de arrepiar. Que facilidade. Tinham momentos que preferia ficar só observando os três. Me divertia horrores. Queria que a LIVRE tivesse vivenciado isso. Celso Jr e Claudio Simões foram feitos um para o outro. São amigos de muito tempo. Bonito de ver. Sabem jogar. Jogo limpo sem carrinho por trás.

As piadas, conversas de bastidores, saudosismo me levavam pra outro mundo. Gargalhei muito. Os ensinamento então nem se fala. Suguei tudo. Celso, meu Vladimir, é mais objetivo, é pontual com horário, divertido, gosta de tudo certinho. As vezes impaciente como eu na vida, não larga sua garrafinha verde pra nada. Claudio, meu Estragon, é mais tranquilo, divertido tbm, não tão pontual como Celso, mas é calmo, tem um tempo que é só dele. Igor, meu Lucky, é sossegado, silencioso, fala qnd precisa, me auxiliou bastante. Os três me salvaram. Agradeço de coração. Meirelles é outro a quem devo muita coisa. Obrigado por me botar em risco o tempo todo. Não gosto. Mas sei que é preciso. Não entendo. Mas acho que não é pra entender. É pra fazer. Como Shakespeare. Como a LIVRE. Tbm como Marcio nunca esperei por Godot e nem nunca pensei em encontrá-lo. Sei que Godot não vem. O importante é o que vamos fazer até a sua chegada. E esse fazer nos move para onde a gente quiser. Como Estragon e Vladimir, que brincam, jogam conversa fora, brigam, fazem as pazes e estão sempre elaborando alguma coisa pra dar a impressão de que existem. Um dia não é o bastante para nós. Um dia, como os outros, ficaremos mudos, cegos e surdos. No mesmo dia e no mesmo instante o teatro pode fechar. Para isso não acontecer temos que esperar Godot.

Seguimos!!!


* Tiago Querino é ator da universidade LIVRE de teatro vila velha e integra o elenco do espetáculo Esperando Godot, dirigido por Marcio Meirelles, em cartaz no Teatro Vila Velha.

Esperando Godot
16/05 a 08/06 | sex e sáb: 20h | dom: 19h
sala principal | R$ 30 e 15

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