quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A VALA COMUM - Páginas do Processo - nº 01







Faltando um mês para a estréia, abro um pouco do meu diário de processo para todos do TVV - artistas, colegas, técnicos, produtores, público e os fãs de carteirinha deste espaço múltiplo.



"Aproveito a oportunidade, o tempo razoavelmente livre para exercitar o poder da escrita e nada melhor do que dividir um pouco do processo criativo da montagem de A Vala Comum com todos.

Ao fim da terceira semana de processo, num total de 06 encontros - defino o meu preterido elenco. Algumas certezas saltam e muitas inquietações pipocam! No Texto A VALA COMUM - tal como está escrito e impresso pelo angolano José Mena Abrantes, há 11 personagens, o que sugere um elenco formado por 11 pessoas. No entanto, minha proposta é que tenhamos 12 figuras no elenco. Logo, busquei as 12 pessoas. Só que ao final destes 06 encontros, não tive ainda a oportunidade de me encontrar com todos num único ensaio - nem mesmo na 1ª leitura feita lá em junho... rsrss... parece brincadeira mas é verdade. O último ensaio desta primeira etapa foi o mais tenso. Considerando que duas pessoas confirmaram suas saídas, o elenco cai pra 10 pessoas, e destas apenas 06 estavam lá na sala. 06 é metade do meu elenco, ou melhor seria...! Onde estaria a outra meia dúzia de gente pra o elenco?

Uns estavam trabalhando, pra ganhar uma grana -é a resposta! Como não estamos com grana pra pagar as pessoas para virem ao ensaio e etc... não sou maluco de dizer não vá trabalhar, venha pra ensaio e coisas e coisas... afinal as contas aparecem na caixa do Correio todo mês e precisam ser pagas... eu gostaria de poder oferecer um mínimo para que todos possam estar no ensaio tranquilos - pelo menos na vinda e no retorno para suas casas... Entretanto, as certezas são poucas. E é aí que invisto num trabalho que possa gerar algum outro tipo de retorno - formação, orientação, percepção, construção...

Outros ainda, não apareceram por outros motivos, saúde, família... o fato é que cada um é responsável pelo que coloca em cena, pelo que propõe ou deixa de propor. A minha proposta é que o processo não sirva apenas como uma fonte de criação da cena, mas que ele possa ir pra cena, que seja mais um organismo da encenação. Que esta atmosfera laboratorial, experimental, ritualistica e sensorial esteja exposta durante a encenação do VALA COMUM. Como? É nisto que tenho me debatido, e acredito que foi revelado aos poucos. Uma coisa que me incomoda é que nos processos criativos pelos quais participei - seja como ator seja como diretor, seja como auxiliar, sei lá... - o processo, os laboratórios são sempre utilizados para gerar material, para auxiliar na construção das personagens e de suas relações e na sequência transformam-se em memórias que depois são contadas numa mesa de quintal, ao sabor de uma gelada cerveja com um arrumadinho de carne-do-sol e calabresa... Eu pretendo que este laboratório aconteça na encenação, que as pessoas participem, que o público não só assista como esteja dentro, que não seja passivo por costume, mas por escolha... que a platéia possa optar entre a atividade e a passividade "livremente".


Ao fim desta primeira etapa da pesquisa a qual denomino de etapa MÃO - reflexos psico-neuro-sensoriais, onde o SIM é a grande palavra dita. Nesta etapa propus a perda de alguns sentidos (visão e tato, em especial) para que outros sentidos (audição, fala, e os não titulados, mas existentes...) fossem ativados de fato, despertando um estado dilatado para encenação, por uma via não tão convencional. Isso gerou situações as quais os atores foram inseridos, trazendo para a sala de ensaio memórias, sensações, construções / reconstruções de histórias particulares que encontram ecos nas histórias dos outros e acabam por sair do universo particular/individual ganhando representatividade coletiva. Para aguçar estes sentidos, utilizei até onde pude alguns dos elementos base constituintes da vida: Fogo, Terra, Ar e Água - utilizado com máxima frequência. No início o choque, a lama, o sujo, depois o contraste do gelado no quente, em seguida como algo que desperta.

Experimentamos sensações estranhas e trouxemos para o coletivo histórias escondidas nos véus de nosso passado, coisas que acreditávamos esquecidas, superadas e/ou resolvidas. Passamos do over da alegria e da felicidade para o baço absurdo e dolorido, pela sua concretude - seja no acontecimento outrora lembrado, seja pelo embate entre a reação física e o que era pensado como estratégia de reação. Alguns, senão todos, passaram pela fase do "a mente pensa numa coisa e o corpo faz outra", os arrepios, os socos, as escoriações, as pancadas, os arranhões e machucados percebidos ao final do ensaio, ou sentidos no banho ou no dolorido do acordar, no arrocheado dos dias posteriores.


Utilizei ainda uma série de livre associações físicas entre os atores do grupo, de modo a formar grupos, tribos, guetos, coletivos que tem afinidades - através do lançamento de perguntas do tipo: por quem você rasgaria o mundo? / por quem você mataria nesta sala? / quem parece com você? / com quem você brigaria na certeza de que venceria? / que tem alguma coisa no corpo que você gostaria de ter?


O fato é que a exaustão que acaba por nortear minha pesquisa revelou-se invertido - surgindo da mente para o corpo. Normalmente os trabalhos de exaustão acontecem do corpo, cansando a "matéria" para liberação do inconsciente, de modo a proporcionar um estado de reação nas pessoas mais intenso e rápido. Ou seja, caminha na via do corpo para a mente - e portanto, o corpo acaba estando mais trabalhado, mais resistente, mais definido, tonificado... Neste processo experimento uma via oposta, que não pretende negar a outra, afinal estamos numa fase de dizer SIM - as propostas e proposições, as ações e reações. Enfim, propus e percebi que a exaustão originava-se na mente, no desgate psicológico, sendo refletido no corpo que reage, entrando num estado dilatado, para a geração do material cênico.

Tem sido um processo intenso, perigoso e delicado! Onde proponho um ser ATUANTE (oriundo do contato com a pesquisa do ator-performer Fábio Vidal), onde ator e indivíduo são o mesmo, a história pessoal ganha tom e cor e é encenada, a ficção imbrinca-se com o real. É uma quebra entre o que estar fora da sala de ensaio e o que está dentro - respeitando os limites do processo. Valorizando as potencialidades de cada intérprete e construtor da cena.


Nos expomos, entramos em contato direto com o outro, corpo no corpo, a energia dionisíaca e apolínea, prazerosa e dolorida, baça, estranha. E por isso, a importância do reconhecimento do outro enquanto colaborador de seu processo criativo. O que é gerado na sala de ensaio fica lá - sendo material para a encenação. E daí a pergunta: até onde podemos ir neste processo? Até onde posso expor este material coletado/gerado/potencializado? Porque digo isso? Porque durante os laboratórios experimentamos sensações não muito agradáveis e que são ressaltadas a partir do contato com o outro e das relações que são estabelecidas no jogo - mas o outro é um companheiro, é um cúmplice seu. E lá fora o mundo continua a girar e somos próximos/conhecidos/amigos. As "viagens" mexem como nosso sistema nervoso, fisiológico, sensorial e humano (entendendo o homem como um ser dotado de memórias).

O segredo, o nada, o silêncio e seus sons, o vazio e os seus mil seres, a escuridão e suas mil lembranças, o medo, a dor, a morte, o sexo, o beijo roubado e escondido, o soco, a briga, a lembrança do menino crescendo no meio dos maiores, o vômito, a argila e a sala suja pra limpar no dia seguinte, as velas e o preto do querosene no nariz e na garganta, a queda, o vocalize e o choro, o grito, o desespero, a profusão de sons entre apitos e atabaques, as cipuadas, o estouro da camisinha, o surto, o querer sair e as saídas dos outros, o não entrar no jogo, o ficar a querer entender o que eu (diretor) queria com este ou aquele exercício, a tentativa de sacar quais os meus objetivos, a proposta do nu, o desconforto de ficar de pau duro ou de seio arrebitado, a angústica de vir para o ensaio, a ressaca no outro dia, os e-mails, as perguntas, os depoimentos e as revelações, os encontros, as chegadas, as origens, as reflexões sobre o dia anterior, as massagens, a tontura, o toque, o tecido e o pano-de-chão, o não saber o que fazer, os reflexos nas relações cotidianas, a fita adesiva, as vendas, a cabra, o espelho, a bacia e a garrafa, o sem fim de perguntas e respostas e inquietações e urgências.

Ao longo dos primeiros 06 dias, depomos, conhecemos e reconhecemos o outro, dividimos uma intimidade e fortalecemos uma cumplicidade gigantesca, acreditamos e nos permitimos entrar neste universo da Vala Comum. Onde o SENTIR - FAZER - REAGIR ganha validade e velocidade sobre o PENSAR!


Ressalto ainda as coincidências do processo, o encontro, as respostas e as revelações. Utilizo um clichê: não é por acaso que estamos reunidos neste processo. Creio nisso! E quero trazer para cena as nossas vontades, inquietações, expectativas sobre o mundo o qual estamos inseridos. Discutir nossa memória histórica e contemporânea, individual e coletiva. O texto por se só, enquanto título, sugere um aprofundamento sobre as valas comuns utilizadas como ferramenta nas grandes guerras e conflitos mundiais, assim como nas ditaduras militares latino-americanas, no nazismo e no holocausto, nos processos de colonização... E o texto, me permite associar e aproximar a realidade brasileira a partir de uma discussão sobre a violência urbana a qual vivenciamos e integramos. Os assaltos, as chacinas, as disputas pelas bocas, o homicídios e os índices crecentes de violência em Salvador, no Brasil e no Mundo - reforçando a pergunta "Qual é a vala comum de hoje?"

E foi assim que enveredamos numa outra etapa onde discutimos sobre estas questões, estas proposições, pesquisando, debatendo, trocando, catando, e gerando mais material para a encenação que estréia no próximo mês (11/12), aqui no Palco Principal do Teatro Vila Velha. Desta vez mesclando o imaginário, as improvisações, e as loucuras nossas com a propopsta de encenação.


Quero aproveitar para frisar que algumas das técnicas, jogos e execírcios aplicados nos ensaios foram influenciados por outros processos, ensaios, espetáculos, oficinas e cursos. Então, trago para a sala de ensaio coisas que aprendi com Fábio Vidal, com o DIMENTI, com o BAC - Alagoinhas, com o OFICCINA Multimédia, com o José Celso Correia Martinez, Hebe Alves, Adelice Souza, André Rosa, Juliana Ferrari, Jacyan Castilho, Harildo Deda, Gordo Neto, Márcio Meirelles, com tantos outros e, pricinpalmente, com A OUTRA COMPANHIA DE TEATRO.

Aproveito este processo para ressaltar, aplicar e questionar alguns dos elementos e princípios utilizados pel'A Outra ao longo destes 04 anos de atividade, que geraram os 05 espetáculos dirigidos por Vinicio de Oliveira Oliveira - agora ator neste processo. A colcha de retalhos e a improvisação, o caboré, a música, a dança e o cenário enquanto elementos que se configuram num organismo integrante da encenação, o imaginário e a loucura de seus artistas, a pesquisa e fundamentação de seus espetáculos, a quebra do texto-base com a inserção de materiais gerados na sala de ensaio criando uma dramaturgia particular.

Neste momento, A Outra experimenta uma inovação na sua escritura cênica, descentralizando a imagem da direção do grupo. São três diretores, três propostas de encenação, três processos criativos, três janelas que apontam para horizontes distintos embora aproximados, e uma única encenação. Tarefa difícil pra os jovens diretores, para a jovem companhia, e para seu elenco multável. Espero estar contribuindo na edificação de uma companhia corajosa que se permite lançar no precipício teatral, experimentando coisas, arriscando-se, buscando novos caminhos e a afirmação de sua pesquisa por uma linguagem sua - que não precisa ser estática, presa a um molde ou formato de trabalho, mas que é entendida e compartilhada por seus integrantes, que é pensada, e consciente. Espero estar contribuindo na construção e formação destes atores que toparam fazer o trabalho e têm acreditado/confiado em mim. Espero contribuir no trabalho dos meus colegas não inseridos diretamente no processo laboratorial-experimental-sensorial-ritual, de modo a encontrar-se ressonâncias do processo na montagem da encenação com seus outros elementos - cenário, figurino, maquiagem, som, luz, projeto gráfico, fotografia e registros múltiplos..."

por Luiz Antônio Jr.

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