quarta-feira, 12 de junho de 2013

Com pocket show musical, o fotógrafo João Milet Meirelles, o diretor teatral Marcio Meirelles e a Santo Design apresentam pela primeira vez ao público baiano o livro “Bença”

A obra condensa um outro discurso sobre o espetáculo de mesmo nome, encenado pelo Bando de Teatro Olodum, refletindo o tempo, a tradição e a ancestralidade. 


A edição traz anexo o texto completo da peça, imagens do ensaio e de sessões do espetáculo, que rendeu ao coreógrafo Zebrinha o Prêmio Braskem de Teatro 2010 e também o de Profissional do Ano. “Bença”, montagem do Bando de Teatro Olodum, é resultado de dois anos de pesquisa do projeto “Respeito aos Mais Velhos”, patrocinado àquela época pelo edital de manutenção de grupo cultural da Petrobrás, o que permitiu um intenso laboratório sobre as questões que norteiam o tema.   

No espetáculo, dirigido por Marcio Meirelles, os saberes de mestres como Makota Valdina, Bule-Bule e Cacau do Pandeiro se cruzam, através das linguagens da dança, da música e do audiovisual, para falar do tempo, da memória cultural do povo negro e de sua ancestralidade. O lançamento do livro, com fotografias de João Milet Meirelles e design da “Santo Design”,  é nesta sexta-feira (14/06), às 19h, com pocket show de Ronei Jorge, Jarbas Bittencourt e do próprio fotógrafo, que também é músico. 



Quer saber mais sobre o livro "Bença", sobre o processo criativo do fotógrafo João Milet Meirelles e outras nuances da fotografia para teatro? Leia abaixo a entrevista.

Teatro Vila Velha – O que o lançamento do livro "Bença" representa nessa etapa de sua carreira? 

João Milet Meirelles - As fotos feitas sobre o espetáculo Bença, do Bando de Teatro Olodum marcam um ponto de pesquisa de imagem que venho desenvolvendo desde as minhas primeiras crises criativas, quando eu procurava algum objeto, foco. Eu me perguntava o que seria meu trabalho autoral, e mais, se eu tinha um. As várias respostas caminhavam para alguns pontos em comum: as fotografias de cena que eu fazia, muitas vezes apareciam para mim como uma terceira obra, que não era o próprio espetáculo, nem o registro dele, mas também obras fotográficas derivadas e de certa forma independentes.

TVV - O livro é uma transposição dessas ideias?

JMM - O livro soma esses interesses, essas pesquisas. É a experiência de “Bença” em outro formato, que não é a peça de teatro nem um catálogo de fotos, mas um livro que cruza fotografia e texto. Foi natural que, com a ideia do livro de fotos, houvesse o texto relacionado. O design é fundamental para a existência disso, então a Santo Design se tornou também autora da obra. Virei um espectador do trabalho de montagem do livro. Fui assistindo ao processo que criou relações de diagramação, edição, montagem; assim como criei minhas relações de composição, corte, cores, momentos. Esse livro propõe a experiência de “Bença”, pede a bença, dá a bença e faz uma homenagem ao tempo, aos velhos e à tradição.

TVV – O que diferencia essa obra de apenas um registro ou catálogo do espetáculo? 

JMM - Quando fotografei pela primeira vez um ensaio, ainda não tinha tomado consciência do que aquilo traria para mim. Não entendi bem o que se passava. Eram fragmentos com muitas pausas, sem figurino fixo, sem música ou luz. Apesar disso, me impactei com as fotos. Fiquei empolgado com o resultado que acabou tomando conta do programa da peça. Percebi que as pessoas que viam o programa antes já criavam a estética do espetáculo na cabeça. De cara isso já quebrava com a relação de registro. As fotos influenciavam o espectador antes mesmo de o espetáculo existir completamente. Eram fotos do futuro. 

TVV – O que mudou entre o ensaio e a experiência da estreia?

JMM - Foi na estreia que eu soube desse efeito das imagens sobre as pessoas, foi na estreia que fotografei de fato o espetáculo pela primeira vez. Aí, sim, pude entender o que “Bença” motivou. A meia hora inicial da peça envolvia quem entrava lá num "ninho" em que o tempo era rei e acomodava quem estava de fato naquele ambiente. Era um novo Marcio Meirelles, dirigindo um novo Bando, numa nova montagem, de um novo teatro, falando sobre o tempo, o respeito aos mais velhos e a tradição. O cruzamento de linguagens e a relação temporal que sempre me motivou como músico e fotógrafo, ofícios que escolhi para a minha vida, completamente ligados à relações de tempo.

TVV - Você já consegue observar as marcas do seu trabalho em relação à textura, enquadramentos, simetria e outros planos ou perspectivas?

JMM - Não procuro ter algum estilo nem jeito certo de fazer. Gosto de perceber as mudanças que vão acontecendo no meu jeito de criar foto e música. Acho que o fato de exercer esses dois ofícios me dá estímulos muito diversos. Vem ficando cada vez mais misturado e transversal. Daí, consigo olhar para as fotos de “Bença” e me perceber lá, mas vejo outros trabalhos meus bem diferentes, inclusive na linguagem, e consigo me perceber igualmente. 

TVV - Essa intimidade com o Bando de Teatro Olodum contribuiu de que forma para o registro de Bença?

JMM – Isso influenciou demais na forma de fotografar a peça pronta. Sendo o Bando, tinha um "se sentir em casa". Pude voltar lá outras vezes e me sentir livre para brincar com ângulos, retratos, discursos.

TVV - Que técnicas você utiliza? Você manipula as imagens em Bença?

JMM - Fotografei “Bença” com uma digital. E o digital pede uma "relação" que também é digital. Esse processo da pós-produção faz parte do discurso fotográfico. A foto começa na ideia e termina quando eu exporto o arquivo manipulado. Todas as escolhas estão dentro de conceitos que vou criando para dar força ao trabalho. Trabalho nas cores, níveis de contraste e corte das fotos.

TVV - De que maneira você explora os contrastes entre luz, formas e cores? 

JMM - Em “Bença” gostei de explorar o alto contraste, principalmente no preto e branco. Misturei cor com PB, mas sempre sem saturação nas cores. Gosto de ir junto com o que sinto do espetáculo que fotografo. No caso de “Bença”, fui com a cor do espetáculo - preto, branco, marrom e azul. Inicialmente, de uma forma bem intuitiva, depois, vendo onde eu estava indo, comecei a conceituar mais isso. Percebi que ali tinha muito do meu respeito e reverência à tradição fotográfica na Bahia, mas de um jeito bem particular. 

TVV - Que particularidades você identifica na fotografia para teatro? 

JMM - Fotografar teatro é fotografar um discurso, que está em forma de cena. É uma linguagem olhando outra linguagem. Gosto de caminhar junto com o discurso que está sendo proposto. Às vezes, é possível romper isso ou brincar com isso. 

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