quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Rô-rô-rô

Eu tenho filhos...

(Bruno - Comunicação)



-x-x-x-x-

Rô-rô-rô

Me recuso.
Levar Eloá ao shopping
e tirar foto com Papai Noel?
Me recuso.
Por preguiça e consciência.
A menina nem sabe o nome dela direto,
vai lá saber que Papai Noel é Papai Noel?
E quando começar a saber
vou dizer logo a verdade.

- Minha filha, Papai Noel é invenção da Coca-Cola!

O povo aqui em casa fica horrorizado.
Horrorizado fico eu de levar minha rebenta
pra um lugar que faz de tudo
pra parecer que é frio,
com neve, e gelado,
e a gente neste calor desgraçado de Salvador.

- Eu não quero fingir que aqui é frio e mostrar a Eloá que o clima em que ela vive é o errado. Por que não fazemos um natal com signos do verão? Aqui é verão!

Como sou tratado como idiota,
(e me sinto também, eis a verdade)
ninguém leva em conta o que eu digo
e lá vou eu resmungando para o shopping,
com uma guria de um ano,
andando de mãos dadas para não cair,
apontando tudo com o dedo,
e falando em russo, provavelmente,
mas eu finjo entender
e respondo entusiasmado.
Um dia, espero,
ela chegará ao português.

Chegamos ao reino de Papai Noel.

- Está vendo, minha filha? Isto se chama imperialismo cultural. A nossa cultura é a de quem domina a gente, pode? Por tanto, não acredite neles!

Na entrada tem uma Garota Noel boazuda
que me olha, sem acreditar,
agachado e explicando pra Eloá não se lobotomizar.
Explico tudo.
A rebenta ouve caladinha, em meio riso.
Calo a boca também e espero sua resposta.
Ela ri.
E fala uma porra lá.
Tenho sempre que fingir que entendo,
pra não contrariar a menina.

Eu sei a dor de falar e ninguém entender,
não vou deixar isso acontecer com a minha bichinha...

Entramos na casa do Papai Noel...
Eu completamente derrotado,
vendo minha infante
ser apresentada ao Bom Velhinho e a sua trupe,
ao pólo norte, aos duendes,
e a uma cultura baseada em um inverno que nunca tivemos,
com todos aqueles signos e blá, blá, blá.

Já estava entregando os pontos,
quando acontece:

Eloá começa a estranhar tudo.
Não vai com a cara do pingüim,
grita com o boneco de gelo,
chora quando vê as renas
e, finalmente,
para minha felicidade completa,
senta no colo de Papai Noel
e olha pra ele com cara de quem pergunta:
"Por que esse cara tá de vermelho e de algodão na cara"?

Tirei as fotos com um gosto...

Volto para casa feliz.
Triunfante.
A mãe, com a calma de sempre,
diz que venci nada.
Ano que vem Eloá terá dois anos,
e, com três,
vai pedir para que me vista de Papai Noel.

Impossível.
Olho nos olhos de Eloá, sério,
pergunto se faria essa barbaridade com o pai.
Mas a meninha insiste em falar em russo...


Alan, O Miranda.
http://www.alanmiranda.blogger.com.br/

Um comentário:

  1. Sérgio Rivero5/12/08 19:59

    Muito bom!!! Também acho um horror esse Natal frio nos trópicos... Pior que isso só Halloween... ô povo besta pra comprar essa porcariada...

    Abraço

    Sérgio

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