quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Da dramaturgia de Habitat


Foto: Catarina Rangel


As pessoas perguntam o que é uma dramaturgia para dança. Minha resposta vem de alguém novo na prática dessa área, mas percebo que a intenção de contar uma história, de forma dialógica, surge naturalmente se respeitamos valores e especificidades, seja de que linguagem for mas, claro, procurando também quebrar o instituído. A diferença também reside no processo como cada grupo irá construir a sua dramaturgia. No caso de Habitat, a dramaturgia vem com uma estrutura básica, sobre temas construídos em espaços e/ou tempos, iniciando-se na generalidade focalizada na Cidade, pura e simples: de um tempo de origem (a cidade pré capitalista) para um tempo de composição (a cidade capitalista); e dali para espaços afetivos, genéricos e atemporais (a busca do poder e a solidão como resultado da conquista de poder) para, finalmente, atingir espaços físicos, específicos da Cidade do Salvador e igualmente atemporais (Feira de São Joaquim e Porto da Barra). Com isso, a dramaturgia faz um recorte de determinadas questões, mas vai pronta para acontecer, realmente, no processo dos ensaios. E, de fato, funciona assim, com seus intérpretes criando movimentos e seqüências, sob a direção de cena e movimentos de Cristina Castro, inspirados na temática de determinado bloco de cenas para, conseqüentemente, sugerirem transformações nos momentos seguintes... Assim, por exemplo, se Habitat, em dado momento, oscilava para um título como Cidade sem Salvação, tamanho o descrédito com que a dramaturgia olhava a cidade caminhando para um final mais cético, teve seu final modificado e acontecendo sob o sol, o sal do mar e a sensualidade das tribos dispersas que se encontram como belos índios felizes no Porto da Barra. Tudo isso porque a vitalidade dos dançarinos nas seqüências anteriores só veio demonstrar que a vida já vale pela força com que vivemos cotidianamente, seja buscando poder, 'o espaço que me cabe', seja na camaradagem com que feirantes disputam e compartilham 'o espaço que lhes cabe' na ação de mercar seus produtos. Ao fim vem a natureza para compensar tanto esforço e dedicação.

Busca-se, como em toda a história que se pretende contar, uma lógica interna, uma coerência para quem cria, mas sabemos que a infinidade de cenas individuais, acontecendo ao mesmo tempo, vai sugerir muitas leituras. Uma dramaturgia para se ver muitas vezes, pois é assim, prismática, a cidade dos nossos dias. Uma dramaturgia geradora de muitas visões, pois é assim que se quer provocar o espectador.



Sérgio Rivero

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