A SENSIBILIDADE DE UMA RAÇA
EXPOSTA NO II FÓRUM NACIONAL DE PERFORMANCE NEGRA

Fernando Coelho

A raça negra, tão essencial para a formação das gerações brasileiras, desde o dia 11 passado que, mais uma vez, vê-se diante de todas as possibilidades para continuar engrandecida e, no caminho das artes, poder reinar na plenitude de sua extrema criatividade. É nos debates, na troca de experiências, na elucidação de informações entre grupos de todo o Brasil que está o vigor de nova e contundente planilha de realizações, um mais vigoroso planejamento nacional de trabalho e reivindicações junto ao poder público.

Tudo esse painel de marcante transparência para a dança e o teatro dos negros brasileiros deve-se aos 4 dias - termina no dia 14 .09 -, de intenso relacionamento profissional entre dezenas de grupos que participam, com intensidade realizadora, do II Fórum Nacional de Performance Negra, acolhido nas dependências do histórico e resistente Teatro Vila Velha, em Salvador. Se a capital baiana é o cenário ideal para um fórum com esta pauta, o Teatro Vila Velha empresta um palco ainda mais repleto de lendária postura político-cultural para melhor seduzir os interessados em manter o ritmo e ampliá-lo, em escala mais abrangente, das produções artísticas que lideram.


Peter Badejo e Inaicyra Falcão no segundo dia do Fórum

Na palestra do bailarino e coreógrafo nigeriano Peter Badejo, convidado especial dos organizadores do fórum, o Bando de teatro Olodum, de Salvador e a Cia. Dos Comuns do Rio de Janeiro, fica uma sutil marca da força demográfica que o negro tem em nosso país de tão fraca memória: "Somos ricos em poder transformar tudo com o movimento e a música, disse ele no segundo dia do evento, porque somos produto de nossa história. Temos que olhar o passado para fazer o futuro melhor. A dança africana promove coesão social, prosperidade e trabalho digno".

Peter entende que a dança é um dever espiritual, uma prática espiritual: "A arte é multidisciplinar, queremos críticas, queremos voar sem asa, sermos pássaros livres". O que motiva Peter Badejo é unir a raça negra em todos os continentes e países para uma maior grande de cultura, religião, dança, arte e espiritualidade.

Na outra ponta da mesa, na imensa profusão de idéias e depuração de conceitos, a fala da professora do departamento de Artes Corporais da UNICAMP, Inaicyra Falcão, espelha, com clareza o esforço do fórum: "O fórum é uma proposta enriquecedora no aspecto das discussões, na busca de como os artistas negros lidam com essa temática. É um fórum inteligente na busca de soluções mais concretas, e ainda traz artistas importantes como Peter Badejo, que também tem uma preocupação com a performance tradicional africana na sociedade contemporânea", afirma.

A fina observação de Inaicyra, cantora das líricas maiores da linguagem yorubana, afinada intérprete de cantados versos sobre os encantados orixás, "Peter pesquisa a dança africana inovadora, inspirada na linguagem corporal do Batá, (um tambor que possui duas extremidades a serem tocadas com tiras de couro). O som é marcado e forte, vibrante. É o universo cultural - canto, movimento e música", afirma.

Joel Zito Araújo, cineasta, diretor e roteirista do Rio de Janeiro, avança com uma provocação que não é difícil de ser constatada: "A população negra no Brasil, maioria absoluta de nosso povo, é sub-representada no cinema, nas novelas, nas mini-séries. A televisão, por exemplo, não promove o negro, promove um padrão de beleza. Já o teatro é um celeiro de reflexão para corrigir o colonialismo no Brasil", sentencia.

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Links para mais matérias sobre o fórum:
BALÉ FOLCLÓRICO DA BAHIA NO FÓRUM DE PERFORMANCE NEGRA EDUARDA UZÊDA

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