quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Shakespeare, autor de massa, é traduzido por companhia local

Neste sábado acontece a última apresentação do Sonho no Amostrão Vila Verão
fotos: Márcio Lima



por ERNESTO DINIZ*
Artigo publicado em
03/02/2007 no caderno Cultural do Jornal A Tarde.

A peça Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, foi escrita num inverno longínquo de 1595 e é encenada agora, em 2007, no Teatro Vila Velha. Eu considero essa uma adaptação ousada por conjurar um dos maiores nomes do teatro mundial e, talvez, um dos mais temidos pelo público em geral.

Mas a proposta logo ficaria clara: derrubar os tabus e os preconceitos, numa via de mão dupla que conseguiu unir raça e história em um só palco.

E o palco do TVV sempre me deixa com uma sensação de platéia mais do que observadora, talvez pela disposição das cadeiras, as luzes direcionadas, os instrumentos musicais no fundo da cena, a fumaça leve no ar tão aconchegante e uterina. Senti-me como numa espécie de Globe Theatre reinventado.

Foi inevitável não me surpreender imediatamente com o palco montado. Reparei na iluminação auspiciosa, com tiras enormes de pano pendendo do teto, tons fortes de amarelo, laranja e vermelho, cadeiras e uma mesa no meio do palco, como uma parte desencontrada de algum boteco soteropolitano.

Não sei como seria um sonho de uma noite de verão numa terra onde o verão é uma constante cultural, e o teatro shakespeareano uma incógnita ou um monstro, pelo menos para a maioria.

Sentei na última fila, lugar perfeito para que eu pudesse me sentir entre a peça e a platéia, reservado, no fundo do que iria acontecer.

Do outro lado, uma foto grandiosa do dramaturgo descia da parede, fazendo vezes de estandarte respeitoso do seu espírito. Talvez para lembrar que ali estava presente uma entidade trazida de outras terras que não a africana: William Shakespeare. Era bastante apropriado renomear o terreiro.

ATUALIZAÇÕES – Já havia ouvido elogios desse espetáculo através de amigos, mas fiquei pensando como seria essa nova versão, já que o Bando de Teatro Olodum havia encenado essa mesma peça em 1999.

Como pesquisador de Shakespeare, eu estava deliciado com a proposta ousada e arrojada do Bando, pelo simples motivo de Shakespeare ser um nome que desperta medo em muitas pessoas e estranhamento em tantas outras.

Como uma espécie de fantasma ou território não-autorizado a qualquer um, como um portal apenas ultrapassado por aqueles iluminados, dignos de alcançar a intensidade dos versos mágicos do inglês vindo de Stratford-upon-Avon, para daí deliciar-se com seu teatro.

Mas o grupo teatral trata a questão com muito realismo, respeito e paixão pela arte. Em 2006, foram celebrados os 16 anos de existência da companhia e, sob a direção de Márcio Meirelles, soube aproveitar toda a experiência conquistada e invocar o legado do dramaturgo inglês.

A adaptação trouxe de forma simples e clara a peça que figura como uma das altas comédias do autor, considerada obra-prima pelo seu complexo e delicioso enredo.

As atualizações estéticas e culturais transformaram Sonho de Uma Noite de Verão em uma fábula fundamentada em traços identitários do Nordeste e da Bahia, abusando da afro-baianidade com o uso de panos de Angola, adereços e pinturas faciais que lembram os usados no candomblé, com tintas vermelhas, brancas e pedaços de papéis metalizados em seus rostos.

E foram ainda mais longe com a música, amplificando o poder do espetáculo.

As canções, belamente executadas ao vivo pelo elenco, brincam com os versos da peça original, mesclando ritmos locais como o arrocha, o afoxé, o samba-de-roda e até o hip hop com os aforismos da linguagem shakespeareana corajosamente reescritos para as platéias de hoje.

Essa foi uma característica interessante que trouxe para perto do espectador de teatro soteropolitano a realidade elisabetana do teatro inglês. Construiu-se, então, uma inteligente ponte entre Londres do século XVI e Salvador do século XXI.

O teatro de Shakespeare nunca teve compromisso com uma forma restritiva de fruição da arte, pelo contrário. O apelo das peças do dramaturgo era popular, ele sempre fez questão de agradar a todos os extratos sociais e, sempre que pôde, inseriu figuras de classes sociais divergentes em suas tramas.

Esse era seu artifício mais poderoso para cativar a todos e refletir a platéia no palco.

Sonho de verão pertinente para o imaginário baiano



O trabalho de pesquisa denota afinco e cuidado, sem esquecer o uso de marcações estéticas, e suas naturais atualizações, que concordam perfeitamente com a peça original. A tradução de Bárbara Heliodora cabe exatamente na língua portuguesa, sem perder sonoridade, nem diluir-se em uma linguagem fora do alcance do público. Esse encaixe proporcionou terreno fértil para o grupo, que soube aproveitar todo o poderio lírico e cênico da peça.

Nessa comédia, cada personagem possui características refletidas em suas roupas e posicionamento no palco. Não só esteticamente, mas fundindo isso ao espírito baiano de familiaridade com a música. Bobina, peça principal da comédia, foi a reinvenção do personagem original Bottom e manteve sua intensidade na trama. O carisma e a naturalidade gestual do ator Jorge Washington contribuíram para a manutenção da essência da personagem.

Os triplos Pucks e Oberons renovaram os personagens e criaram performances que adicionaram plasticidade às cenas. Talvez essas tríplices tenham sido reflexo do resgate da simbologia das sociedades matriarcais. Os Pucks, acertados no tom e representados pelos atores Dailton Silva, Roquildes Júnior e Ridson Reis, mostraram a energia da figura mitológica e atrapalhada da personagem. Sem deixar de marcar as danças das fadas, com seus panos volumosos e coloridos que hipnotizaram a platéia. E, finalmente, o grupo de teatro dentro da peça, desenvolvendo um jogo metalingüístico, desenha com perfeição a brincadeira que o dramaturgo costumava fazer em suas peças: uma peça dentro da peça.

UNIVERSAL – Como diz o prólogo do espetáculo, tudo foi sonho. E esse figurou como um sonho pertinente para o imaginário baiano e contou com a força dos ritmos musicais da terra e seus traços peculiares.

Unidos, esses elementos fizeram da peça uma aula de boa adaptação e mostram que o teatro é muito mais acessível ao público do que reza a cartilha austera do preconceito, que costuma relegar Shakespeare ao ambiente acadêmico e inatingível de salas de aulas e versões herméticas.

O Bando de Teatro Olodum dá uma aula de compreensão da diversidade, de resgate da identidade de um escritor das massas. Os atores golpeiam o texto com força suficiente para expor seus valores universais e contemporâneos, dentro de uma cultura tão rica como a cultura nordestina, sem a preocupação com o respeito engessado à obra do autor.

Da última fila, aplaudi o espetáculo de pé, porque me senti parte dele. Creio eu, isso foi o que Shakespeare sempre quis. Somos atores de uma grande peça e reconhecer isso numa obra-prima e adaptada depois de séculos, numa terra e numa cultura tão diversa da cultura de origem do dramaturgo, nos ensina o real motivo do teatro não ser sepultado: de ser sonho.

Sonhe, mesmo que não seja numa noite de verão.


ERNESTO DINIZ | é graduando em Letras pela Ufba e pesquisador do CNPq na área de Tradução Intersemiótica em Shakespeare.

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO | Teatro Vila Velha (Passeio Público).
Sábados, às 19h. Até o dia 10.

Um comentário:

  1. Tive o prazer de assistir esse maravilhoso espetáculo e fiquei encantada com a performance dos atores. Parabenizo a Márcio Meirelles pela excelente escolha do grupo e também pela iniciativa de colocar no palco do Vila um espetáculo Shakespeareano.

    Viviane Andrade

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