segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

O berimbau ideológico de Ramiro Musotto

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

No segundo CD, percussionista contrapõe civilização e barbárie em viagem sonora multirracial



Ramiro Musotto é o mais baiano dos argentinos. Discípulo do pernambucano Naná Vasconcelos, apaixonado pelo samba-reggae, criador inquieto e detalhista, o percussionista, compositor e produtor busca sempre o inusitado, para fazer um tipo de música 'com características que ninguém tenha mostrado antes'. Autor de projetos arrojados, ele se prepara para lançar no Brasil o segundo álbum-solo, Civilizacao & Barbarye (Los Años Luz Discos). Quem for a Salvador, onde Musotto está radicado desde 1984, pode vê-lo com a Orchestra Sudaka, às segundas e terças, no Teatro Vila Velha (tel. 71 3336-1384), tocando os temas do novo CD e do anterior, Sudaka (2004).

Com título inspirado no romance ensaio político Facundo - Civilização e Barbárie, de Domingo Faustino Sarmiento, o álbum ganha edição nacional no início de março, pelo selo Cavaleiros de Jorge, distribuído pela gravadora Eldorado. Lançado em novembro na Argentina, onde ficou entre os dez melhores de 2006 na lista do jornal La Nación, o CD também já pode ser ouvido inteiro no site de Ramiro Musotto.

'Escolhi esse título porque tem a ver com o trabalho que faço. É uma análise sociológica da história argentina, aborda todos os conflitos, desde a conquista do deserto até a imigração. Minha música é uma mescla de cantos tribais afro-americanos com soluções tecnológicas', diz, exemplificando a atração dos extremos em contraponto. A grafia, sem acentos, tem por finalidade, como Sudaka, alcançar dimensões universais.

Se o livro tem até um ranço racista ('era o pensamento da época', 1845), o disco desenrola-se como uma viagem sonora multirracial, reflexo da ideologia do autor. Gravado em Salvador, Estocolmo, Grenoble e no Rio, o CD acolhe cantos de crianças indígenas guaranis, sons rituais de candomblé, choro de Jacob do Bandolim, mistura cangaço e tradição africana, tem sample de discurso do zapatista, reúne parceiros e cantores de Cuba (Léo Leobons), EUA (Arto Lindsay), Argentina (Santiago Vazquez), Irã (Rostam Miriashari), Bahia (Lucas Santtana), Paraíba (Chico César) e Suécia (Sebastian Notini), entre outros.

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