quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Diário de Bordo: décimo dia de oficina com o diretor teatral Marcio Meirelles em São Tomé

Convidado pela “Cena Lusófona”, Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, o artista conduz na África, juntamente com António Augusto Barros (diretor da associação), uma seleção de atores para a montagem de um espetáculo com estreia em Portugal. 



Dia 10

este foi um dia especial
criada no lugar da cena q n deu certo sobre as drogas
a cena da adolescente grávida precisa estofo
peço a cada grupo q vá retrabalhar suas cenas
incluindo canções
pensando em ritmos
incorporando pensamentos e reflexões feitas em grupo ou a sós
fico com o grupo da gravidez
me dou conta q um dos problemas desse grupo foi a inconstância
dos seus participantes no trabalho
com várias faltas e mtos atrasos
mas trabalhamos
me dou conta tb q unicefs e ongs
q usam o teatro como ferramenta pedagógica
imprimiram aqui como no novo teatro amador feito nos subúrbios e comunidades brasileiras
um teor didático-social-prop
sem a grandeza dos dramaturgos q repensaram a estética do teatro no século XX
a partir da necessidade de comunicar às massas idéias políticas e revolucionárias
nem a grandeza de um anchieta ao incorporar as estruturas das tradições e ritos indígenas no seu teatro catequético colonizador
não há uma preocupação estética maior nesse “teatro inclusivo/didático”
a preocupação é moral e comportamental
há a ignorância qto a certeza de q só uma experiência estética profunda
é transformadora
há uma tentativa de passar ideias e preceitos e condutas somente pelas palavras
colocadas em roteiros pobres e ingênuos
isso se reflete nas cenas propostas
nas resoluções mágicas para problemas mto complexos
como o prazer  q provém das drogas e suas consequências
como o prazer advindo do desejo sexual e suas consequências
como refrear o delírio e o orgasmo c palavras apaziguadoras?
é preciso assumir q os atos humanos têm consequências
todo e qualquer
mas n dizer ao adolescente
explodindo de tesão e de ânsia de experiências radicais
q refreie tudo evite ou tome precauções?
como se precaver contra o desejo?
as estratégias serão outras para evitar um caminho sem volta
e devemos evitar os caminhos sem volta
ou apenas saber q eles existem e optar por seguir ou parar?
Trabalhamos uma meia hora sobre a cena da família envolvida
c a gravidez precoce
e n avança
percebo q os personagens são frágeis bidimensionais
e resolvo instalar o caos
chamo os outros grupos q trabalham sozinhos suas cenas
e acrescento a cada personagem uma relação c outro
filhos mães amantes primos amigos cúmplices aparecem
digo q eles são isso ou aquilo de alguém
q seu parente ou relativo está c um problema e ele precisa ajudar a resolver
e os mando para a sala de ensaio
o ruído aumenta
o caos se estabelece
os personagens interagem e se atropelam
novas relações e revelações surgem como coelhos numa horta
muito barulho por causas a ganhar
de repente a cena do djambi se refaz
mas o jovem lutador é q é montado
e começa a denunciar a verdade de cada personagem ali presente
e o ator é “montado” tb
sai da sala c outro ator o conduzindo
começa a andar pelo campo grande pátio do liceu
vou junto tento conversar ele começa a pedir q n o levem q ele quer ficar ali
me dizem “é assim às vezes a gente tem a memória leve
e o djambi toma conta é preciso ter cuidado”
ele grita avança outros chegam
conduzem-no de volta à sala
ele pede para todos saírem ninguém sai
alguns riem
uns duvidam outros vão ajudar executam procedimentos rituais
para tirar o espírito dele
ele pede q um outro ator se aproxime
“só quero meu amigo venha cá”
anda de mãos dadas c ele pela sala e pede
“vá lá fora traga 7 folhas de fruteira secas”
ordem executada folhas entregues “sete”
ajoelha-se esfrega as folhas na cabeça cai volta a si
“se fosse de verdade vc ia ficar a noite inteira servindo ele – traga vinho traga isso traga aquilo”
retomamos o ensaio
apresentam as novas cenas surgidas
arruma-se o caos
até onde o mergulho leva um ator para dentro do teatro?

26/07/2013

escrito em 10/07/2013

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