sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Outra em Recife

Já sabemos que o grupo A Outra Cia de Teatro participou do XIII Festival Recife de Teatro Nacional, noticiamos aqui dias antes da viagem. Eles já estão de volta e a animação estava tão grande no Facebook dos atores que não podíamos deixar de postar aqui.
Como conta Júnior, foi tudo muito proveitoso. Contatos foram feitos, o Teatro Hermílo Borba Filho estava lotado, o público saiu satisfeito e pra fechar com chave de ouro, teve até uma critica sobre o espetáculo. Confere aí!
Beliscar a ternura (Valmir Santos)
A escrita de Mia Couto prima pela organicidade com que cria espaços simbólicos e neles assenta o leitor. Em Moçambique, ele é um interlocutor recorrente do teatro. Seus contos e romances têm boa acolhida nos palcos de outros países de língua portuguesa, sejam africanos ou ibero-americanos. O Festival Recife recebe A Outra Companhia de Teatro, um dos grupos residentes do Teatro Vila Velha, de Salvador, que transpõe para a cena a narrativa breve de mesmo nome: Mar me Quer. A adaptação e direção de Luiz Antônio Jr. consagram a musicalidade das palavras do autor ao duplicar as vozes dos personagens, Zeca Perpétuo e Luarmina, abrir transversais para cantigas populares e brincar com os gêneros, tempos e relatos da fábula.
Brincar é um verbo que não barateia. Ancora o jogo que demanda dos quatro atores atenção global na semiarena de espectadores que os envolve. Eddy Veríssimo, Luiz Buranga, Manuel Santiago e Roquildes Júnior demonstram sintonia nas mutações de papéis, no olho a olho da proximidade com o público, nas mutações do canto a capela, na miudeza da percussão sonora simultânea à ação e à narrativa. Dão a ver e ouvir que se apropriaram da pesquisa que enunciam.
Um desnível conjuntural na interpretação do texto e na incorporação de suas imagens, porém, arrefece a histórica de amor de estrutura e ritmo épicos – cantada e falada. A polifonia textual, espacial, temporal e interpretativa atinge tal grau de elaboração em Couto que parece imprescindível uma densidade existencial do elenco. Zeca Perpétuo, Luarmina e os redivivos Celestino e Agualberto transitam territórios presentes e antepassados, sabedorias de vida do velho à criança, de marcas do corpo e da alma que as atuações nem sempre correspondem tecnicamente.
Para além da mimese à qual recorrem com sutilezas, talvez coubesse aos atores/narradores aprofundar a figura do griô, a aura espiritual do mestre numa roda em que a memória é acessada por meio da oralidade. É mais complexo fazer isso dentro da corajosa proposta d’A Outra Companhia, em que outros níveis de escrituras estão em relevo. Aos signos verbal e corporal, preponderantes, somam-se os objetos não-convencionais transformados em instrumentos musicais ou materializados numa passagem ou outra; os dois aparelhos de rádio portátil que desenham espaçamento genial das palavras entre emissor e receptor; ou ainda a cena em que o espectador toma uma folha de papel em mãos para ler um trecho, momento em que a encenação promove um retorno coletivo ao livro como fonte seminal do projeto. Pois é também aqui que a ideia não se completa plenamente porque o ator transparece insegurança no ato da leitura de fora para dentro, não de dentro para fora justo na interação objetiva com o público.
De qualquer modo, o espetáculo desses artistas “belisca a ternura”, como escreve Mia Couto, com uma faixa de vibração poética digna do universo do autor. Não é pouco.

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