segunda-feira, 28 de maio de 2007

Questão de sobrevivência

Que loucura isso de mediar uma esquizofrenia entre o mundo real e o mundo artístico-cultural. Esse mundo real, capital-monetário, legal em que vivemos é causador de grandes distorções na nossa realidade. É diferente de uma indústria que tudo, da sua concepção ao seu “consumo”, é feito em função do capitalismo. Quando ouço falar em “indústria da cultura”...

Esse papel de traduzir arte para mercado, produção cultural para CLT, sobrevivência para orçamentos é tarefa árdua e complicada. Como toda tradução este trabalho também nunca sairá perfeito. A não ser que a própria arte em sua essência seja feita para o mercado, que a produção já seja tecnicamente estruturada dentro das normas trabalhistas, que o fim de tudo isso seja o financeiro. Mas nós não somos assim. O Vila não é assim. Muitos espaços de criação e difusão da cultura não são assim. Como se escapa a isso? Mudamos a realidade ou mudamos mesmo nós mesmos?

Os espaços culturais estão inseridos dentro de uma realidade capitalista que demanda uma estabilidade financeira estrutural. Salários, impostos, fornecedores são todos custos muito certos em relação as nossas receitas incertas. O que sobra é uma instabilidade fúnebre. Não estou dizendo algo novo ou que ninguém ainda não tenha dito. Somente acho sempre importante verbalizar tudo aquilo que nos incomoda, tudo aquilo que queremos mudar. O silêncio nos petrifica e explicita uma concordância. Não quero a manutenção. Só se for a manutenção do fazer. E está cada dia mais difícil garantir o fazer artístico nesse nosso mundo. Não sou artista mas sou um servidor deles. Estou no meio e enxergo bem os dois lados. Existem incompatibilidades estruturais.


Como mostra esse gráfico de curva senoidal a realidade é que todo mês temos despesas fixas a pagar, mas nem todo mês temos receitas para quitá-las. Estamos inseridos numa estrutura financeira rígida que se em dado momento não tivermos condições de mantê-la ela facilmente se quebra. Esse rompimento nos causa danos quase irreparáveis.

Os espaços culturais devem ser mantidos sempre. A produção cultural está diretamente ligada a um espaço que dele se associa. Ruas, praças, casas, galpões, ateliês, teatros. São todos estes espaços e devem ser mantidos. Como? É o poder público, é o privado, é a união dos dois? É nesse dilema que estamos inseridos. Acredito que o direito de sobrevivência não nos pode ser privado. Privado? Não pode ser privado ou do privado? Privatizado? NÃO PODE SER INCUMBÊNCIA DO DIREITO PRIVADO. Nossa constituição relata no seu Art. 215. “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.” É dever do Estado garantir a viabilidade deste sistema para que todas os direitos afirmados acima sejam garantidos. As políticas públicas devem dar conta disso. Não é a política pública delegando às políticas do poder privado que resolverá nossa problemática. São interesses divergentes que se tenta unir. Não é lógico que disso não resultará em bons frutos?

Vou lutar para que a cultura seja pública, a todo público e mantida pelo público. “O público são as pessoas?” já ouço os questionamentos. SIM! São eles (nós) que pagarão pela cultura! Sejam através de ingressos caros, ingressos baratos, ingressos garantidos e, principalmente, pelos impostos. Se for o poder público que nos financiará será nosso público, nossa platéia quem pagou de fato. E o recebo de direito!

Gustavo Libório
Coordenador Administrativo-Financeiro do Vila

Nenhum comentário:

Postar um comentário