segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Remontagem do Bando de Teatro Olodum marca encerramento da Oficina de Performance Negra

Montagem original de "Relato" em 2001. Foto: Marcio Lima.

Em julho de 2001, a Bahia vivia momentos de descontrole absoluto. A greve das polícias civil e militar espalhava por todo o estado a violência, o tumulto e as mortes que em "tempos de paz" se limitavam aos bairros periféricos. Ao mesmo tempo, a peça Material Fatzer, de Bertolt Brecht e Heiner Muller, dirigida por Marcio Meirelles, ocupava o palco do Teatro Vila Velha, com alguns atores do Bando de Teatro Olodum no elenco. "Neste espetáculo, discutíamos a guerra e a quem ela interessa. Quem é o verdadeiro inimigo? É aquele contra quem lutamos, ou nos defendemos, ou aquele que nos manda lutar e diz nos defender? O que víamos na rua era o que estávamos discutindo no palco. A barbárie e selvageria que se instalaram nos obrigou então a tomar a decisão de fazer nosso próximo trabalho sobre aqueles fatos” – diz o diretor que propôs então ao Bando “fazê-lo não no centro, ou a partir do centro, mas nas comunidades onde ocorrem cotidianamente atos de barbárie e selvageria e a população continua a achar normal que assim seja", continua o diretor.

A partir daí, o Bando de Teatro Olodum começou a realizar oficinas com os moradores de bairros do subúrbio de Salvador. A ouvir o que aquelas pessoas falaram e, principalmente, o que calaram. Com o apoio de organizações e grupos de teatro comunitários, e a partir do material recolhido e da experiência de vida daquelas pessoas, foi montado RELATO DE UMA GUERRA QUE (NÃO) ACABOU. Não havia patrocínio, financiamento, apenas a vontade (ou a necessidade) de fazer. O Bando, com a economia das bilheterias de Cabaré da RRRRRaça e dos cachês do projeto Já Fui!, e o Teatro Vila Velha, com os serviços que podia oferecer, arcaram com as despesas do espetáculo. Com a administração de Chica Carelli e gastando o mínimo possível (vales transportes e o essencial para cenário e figurino) foi possível a montagem.



Remontagem com atores da Oficina de Performance Negra em 2014. Foto: Lucas Seixas

Treze anos depois, este Relato é remontado pelos mesmos atores, agora no papel de diretores, como resultado da II Oficina de Performance Negra. Tão atual e necessário quanto há treze anos, Relato trouxe à cena 30 jovens atores negros, que puderam compartilhar por seis meses a experiência do Bando de Teatro Olodum e respirar o Teatro Vila Velha. No palco, entre 26 e 28 de setembro, foi mostrado o resultado de muito trabalho e muita história, num espetáculo que quase nada tem de ficção.

Depois do espetáculo, a Oficina de Performance Negra encerra as suas atividades com a Mostra Audiovisual, que acontece no dia 13 de outubro, às 19h, no Cabaré dos Novos, com entrada gratuita. No evento, serão exibidos cinco curtas autorais: A herança de Nitorê, A espera, Invisível, Que cabelo é esse? e Reciprocidade. São dois documentários e três filmes de ficção com temáticas que abordam a estética do cabelo afro; relações amorosas; herança religiosa; e um personagem anônimo de rua. O curso, ministrado por Maise Xavier, proporcionou aos participantes a apropriação da linguagem audiovisual e a prática, passando por todas as etapas do fazer cinematográfico: idealização, roteiro, pré-produção, gravação e edição.

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