quinta-feira, 10 de abril de 2014

O diretor Martin Domecq fala sobre Fora de Casa, espetáculo com pré-estreia neste fim de semana no Teatro Vila Velha



Neste sábado, 20h, e domingo, 19h, acontece no Teatro Vila Velha a pré-estreia do espetáculo Fora de Casa. A peça, encenada na Sala João Augusto, um dos espaços de ensaio do Vila, conta a história de duas desconhecidas que passam uma noite num teatro interditado. Um delas é uma atriz experiente e esnobe; a outra, uma jovem aspirante à cantora que gosta de MPB e RAP e não tem intimidade com o mundo do teatro. Brigas, jogos, discussões e confissões farão com que elas terminem compartilhando aquilo que as motivou nessa excursão fora de casa. O diretor do espetáculo, Martin Domecq, fala sobre o processo de criação da montagem.

De que fala "Fora de Casa"?

“Fora de Casa” fala de duas personagens que, numa noite, por razões diversas, se encontram numa sala de ensaio de um teatro interditado. Uma delas é uma atriz experiente que parece ter se aposentado... A outra, sonha com ser uma cantora famosa. A partir desse encontro a peça discute algumas questões relacionadas com esses oficios. Não se sabe porque razão foi interditado o teatro. De alguma forma essas duas personagens estão fora: fora de um circuito no qual imaginavam que suas vidas teriam um sentido pleno. Quando se encontram nesse lugar marginal, primeiro rivalizam, mas depois essa rivalidade se transforma numa complementaridade. Cada uma preenche certas ausências que a outra experimenta. Encontram uma escuta interessada, um público. Encontram também a possibilidade de brincar, de "ensaiar" o que ambas sonham.

Por que a escolha de apresentar em uma sala de ensaio?



Faz mais de dois anos que venho trabalhando nessa Sala com a LIVRE. Esse trabalho gera um conhecimento, uma intimidade com o espaço. A peça foi imaginada para esse espaço. Foi aparecendo olhando esse armário que contém uma parte importante da história das montagens do Vila e pisando esse maravilhoso chão de madeira que tem a Sala João Augusto. Não sei de onde vêm essas madeiras, mas elas contribuem a dar uma "alma" especial a esse lugar. Na peça há também um pequena referência a João Augusto. Em suma, queria fazer uma peça de câmara num lugar pequeno e aconchegante, essa Sala oferece isso.

Como foi o processo de montagem? 


O processo de montagem foi muito tranquilo porque contou com o apoio da equipe do Teatro Vila Velha (Zeca, Chica, Marcos, Eduardo...) e da LIVRE. Foi um processo de criação e de formação. A partir de um roteiro de situações que preparei, as atrizes fizeram improvisações durante dois meses. Depois interrompemos por um tempo os ensaios para que elas pudessem se concentrar nos projetos da LIVRE e eu pudesse escrever uma primeira versão do texto. Nesse ínterim, estrearam Porque Hécuba e Frankenstein. A LIVRE não para. Depois dessas montagens retomamos o processo de ensaios. Os ensaios que seguiram nos permitiram ler, compreender e aprimorar o texto. Foi muito gostoso porque a equipe trabalhou com entusiasmo, carinho e muita enrega pelo projeto. Isabel Lima me acompanhou com o trabalho do texto e como observadora e comentadora dos ensaios. Deyse Ramos fez uma ótima assessoria musical. Adriana Gabriela Texeira fez uma linda contribuição com os desenhos e colagens que serviram para a divulgação. Também Bertho Filho deu uma força para o treino das atrizes no final do processo. Sem esquecer que o pano de fundo que possibilitou esse trabalho todo foi a confiança de Marcio e o apoio de todos os participantes da LIVRE que fizeram a oficina Poéticas da Ausência em 2013. 


As Mulheres (colagem). De Adriana Gabriela.


A peça tem no elenco Sonia Leite e Cris Vieira, duas atrizes da universidade LIVRE de teatro vila velha, uma delas com mais de trinta anos de teatro e outra no início de sua carreira como atriz. Como foi unir duas intérpretes com uma diferença de experiência tão grande?

Quando escolhi as atrizes para trabalhar já tinha a ideia geral da peça. Precisava de duas atrizes de gerações diferentes, com trajetória e características diversas, cada uma com uma potência expressiva diferenciada. Precisava de atrizes que tenham gostado do trabalho realizado durante o Experimento IV e ao mesmo tempo que tivessem uma atitude aberta, disponibilidade e desejo de trabalhar juntas. O processo ia ser longo e elas tinham que poder assegurar a onda. Sonia trabalhou com muita generosidade e abertura. Entre todos conseguimos gerar relações de partilha, sem soberba, nem vaidades. Cada um de nós deu o que tinha para dar para acrescentar o que queríamos oferecer ao público. Sonia colocou a disposição do grupo tanto sua experiência como seu desejo de seguir aprendendo. Cris está começando mas ela tem um grande potencial e muita força. Também é bom que ela não tenha os "vícios" do oficio. Sua qualidade vocal e sensiblidade musical foram elementos chaves para poder resolver as situações do roteiro...Na peça elas brincam, cantam, brigam, sambam e cada uma tem seu momento... 


Vida (colagem). De Adriana Gabriela.


Qual a relação do espetáculo com o projeto "Poéticas da Ausência", trabalhado por você com a LIVRE no Experimento 4?

Quando pensei Poéticas da Ausência já sabia que queria trabalhar depois da oficina com um casal de atores ou atrizes para aprofundar essa pesquisa e produzir uma peça. Essa é a primeira relação. A segunda é que todo o que foi experimentado pelo grupo da oficina de 2013 foi um material que enriqueceu nosso trabalho, foi nosso ponto de partida. Os participantes dessa oficina poderão reconhecer situações, ações, imagens que apareceram na oficina e que são revisitadas na encenação. Finalmente, está todo o conteúdo de “Fora de Casa”. Há muitos links que podem ser feitos com o tema da ausência. Um teatro interditado é um teatro ausente. Porque está ausente? As personagens que se refugiam nessa sala buscam preencher uma ausência. Quais são essas ausências? Também a ausência de público e de estreias fazem que essa atriz entre num redemoinho de loucura... A peça não da muitas respostas... As respostas das personagens são respostas parciais que apenas servem como provocações para alimentar esses questionamentos.

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