quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Verão do Teatro Vila Velha tem Cabaré da Raça, Guerra de Troia e Shakespeare

Nem só de ensaios de axé e pagode vive o Verão baiano. O Teatro Vila Velha está aí para provar isso e, a partir de sábado, dá início a mais um Amostrão Vila Verão, que neste ano exibirá três peças de teatro com montagens inéditas: Por Que Hécuba, baseada em texto do romeno Matéi Visniec; Troilus e Créssida, de William Shakespeare (1564-1616) e Frankenstein, de Mary Shelley (1797-1851). Uma quarta montagem, já apresentada em Salvador, mas que ganhará algumas modificações no elenco e figurino, é Cabaré da Raça, um dos maiores sucessos de público do Bando de Teatro Olodum, exibido pela primeira vez há 17 anos.


Por trás de todas as atrações, está o experiente Marcio Meirelles, que dirige as quatro montagens. A que primeiro chega aos palcos é Por Que Hécuba, com Chica Carelli e atores da Universidade Livre, programa de formação de atores do Teatro Vila Velha. A montagem tem pré-estreia sábado e domingo e fica em cartaz dos dias 13 a 22.

O texto de Visniec atualiza o clássico de Eurípedes (480 a.C.-406 a.C) sobre a Guerra de Troia e aborda a violência em tempos atuais. No palco do Vila Velha até o Carnaval soteropolitano é criticado.

Antes de ser encenado em Salvador, o texto do romeno havia sido adaptado apenas duas vezes, sendo uma delas no Japão. “Quando o Vila Velha convidou Matéi para vir à Bahia, em 2013, ele me mandou umas fotos da montagem japonesa e gostei muito. Além disso, eu já estava fazendo Troilus e Créssida, também sobre a Guerra de Troia. Então, achei que seria um bom momento para montar Hécuba”, revela Meirelles.


Tradução
Imediatamente, Vinicius Bustani, aluno da Universidade Livre, traduziu o texto, escrito originalmente em francês. Em outubro, Visniec esteve em Salvador e compareceu à leitura dramática da peça. Na época, disse: “É uma peça sobre a violência, assim como a de Eurípedes. Mas no meu texto o olhar vai além do sofrimento e da vingança. Eu quis empurrar Hécuba para a revolta”. Entusiasmado com a tradução, Visniec cedeu os direitos de adaptação a Meirelles, que tratou logo de dar início aos ensaios.

O diretor se empolgou e decidiu inovar na linguagem, promovendo um “diálogo” entre os elencos de Por Que Hécuba e Troilus e Créssida, já que ambas tinham como mote a Guerra de Troia. 
“Resolvemos fazer uma convergência entre as peças. Muitos personagens são citados nas duas e alguns atores participam das duas montagens interpretando o mesmo personagem”, diz Meirelles.

Hécuba é um personagem mitológico grego que, vítima da violência, perde seus 19 filhos durante a guerra. Chica Carelli, que interpreta o mito, lembra que o texto não trata estritamente de Troia: “Na verdade, é a história de qualquer guerra e uma crítica à violência também contemporânea. Tanto que, na montagem, fazemos referência ao Carnaval baiano. O texto de Matéi é catártico e nele o trágico vem com humor”.

A estreia seguinte, que também integra o Amostrão, acontece no dia 9, com Troilus e Créssida, resultado do 28º Curso Livre de Teatro da Ufba. Espécie de anti-Romeu e Julieta, a história de amor, também de William Shakespeare, foi escrita em 1602 e mostra a impossibilidade do amor numa sociedade decadente.


Troilus e Créssida O texto de William Shakespeare, escrito em 1602, aborda o amor impossível entre dois jovens que, após a primeira noite juntos, são obrigados a se separar: durante a Guerra de Troia, Créssida será entregue aos inimigos em troca de um prisioneiro. 

Separação 
Os jovens que dão nome à peça, apaixonados um pelo outro, finalmente, se envolvem, mas no dia seguinte à primeira noite juntos são obrigados a se separar: Créssida será trocada por um prisioneiro grego.

Meirelles diz que seu interesse no texto era antigo, mas como exigia um grande elenco, adiou a realização da montagem. Além disso, não se trata de um texto popular de Shakespeare. “A peça ficou 300 anos sem ser montada e dos anos 60 pra cá, voltou a ser conhecida. Mas acho que esse é um ótimo momento para exibi-la”, justifica o diretor.

Em 11 de fevereiro, é a vez de Frankenstein estrear. Esta é a segunda parte da Trilogia dos Monstros, projeto de Meirelles que teve início com Drácula, exibida em 2012. O romance gótico, como classifica o diretor, vai circular por diversos pontos do Passeio Público, onde se localiza o Teatro Vila Velha. A peça começa ao ar livre, depois entra no teatro e vai novamente para fora dele.

“O texto é um embrião da ficção científica que, nas entrelinhas, trata de questões políticas e econômicas”, aponta Meirelles. Também em fevereiro volta a cartaz um velho conhecido dos baianos: o já clássico Cabaré da Raça, do Bando de Teatro Olodum, que estreou há 17 anos e volta com modificações no elenco e cenografia.

*Texto originalmente publicado pelo jornal Correio, no dia 01/01/2014.


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