quarta-feira, 18 de junho de 2008

A Bahia e o Bloomsday

Na segunda-feira, dia 16, o Grupo Oficcina Multimédia, de Belo Horizonte, comemorou em Salvador o Bloomsday. Em posts anteriores, o assunto está bem explicado e a programação que eles prepararam está listada em detalhes. Agora chegou a hora de saber como é que foi o evento - um verdadeiro acontecimento pelas ruas do centro de Salvador. O melhor: nas palavras da diretora da companhia, Ione Medeiros. As fotos são de Richard Zaira!





Ficamos perplexos com a participação das pessoas daqui. Realmente o desfile das noivas superou nossas expectativas. Saímos do Teatro Vila Velha em três táxis, carregando nove noivas, apenas uma delas era uma mulher que por sinal foi confundida com um travesti! Dentro dos táxis, que seguiram juntos, um atrás do outro, as noivas já chamavam a atenção, alguns se espantavam, ouvíamos os comentários mais engraçados: "Casamento de gays?".




Na Praça da Piedade, ponto de partida do percurso, desceram as noivas às 17 horas quando muitos colégios liberam os seus alunos. A praça estava cheia de homens, mulheres, crianças, gente de todas as idades. A garotada adorava, batiam palmas, carregavam a cauda do vestido das noivas, numa alegria típica dos baianos. Contratamos um carrinho de café que tem um equipamento de som e ele acompanhava o movimento das noivas com um texto de um fragmento de Joyce, que gravamos sobre a música, "Claire de Lune", de Debussy. O som, muito alto, não era de muito boa qualidade, mas isto já estava previsto.



Uma das noivas vestia uma capa preta que cobria todo o seu corpo, atrás colado na capa, um cartaz com o texto ‘A noiva estava de preto’, numa homenagem ao filme de Truffaut. Por baixo da capa ele (porque era um homem) vestia apenas uma cueca e sobre seu corpo escrevemos o mesmo texto do cartaz com tinta preta. Ele ficava coberto de preto muito tempo, e de repente surpreendia as pessoas abrindo a capa e mostrando seu corpo quase nu.



Nesta performance, a regra era buscar a interação com o espaço e a comunidade, nada foi pré-estabelecido além do próprio cortejo. As noivas sentavam no colo das estátuas, corriam pelo gramado distribuindo panfletos com textos de Joyce e divulgando o espetáculo "Bê-a-ba BRASIL", tudo isto ao som de Debussy.



Uma das noivas vestia um cinto feito de bananas que foram disputadas pelos passantes, mendigos e pivetes que conseguiram duas delas e saíram felizes. Saímos da Piedade com um cortejo de pessoas que nos seguiu pela Av. Sete de Setembro, antes parando em grupo na porta de uma igreja que celebrava a missa da tarde. Juntaram todas na porta como se esperassem a sua vez de entrar.



Algumas pessoas que assistiam à missa se levantaram para tirar fotos, o padre de longe ficou na maior expectativa. Ouvimos do público: ‘Isto só podia acontecer na Bahia!’. Seguimos pela rua, as noivas entravam nas lojas,andavam no meio das pessoas, nos ônibus, todos acenavam, gritavam, soltavam piadas, batiam palmas, nunca vi tanta participação. No final da Sete de Setembro, as noivas invadiram a rua e saíram correndo no meio dos carros. Não pedimos nenhuma liberação oficial, apenas invadimos as ruas. Como já estava escuro, o farol dos carros que vinham em direção a elas, servia como iluminação, tudo isto acompanhado do carrinho de café tocando "Claire de Lune" sobre o texto de Joyce: “A pobre Isa, está sentada tão sentida , sentilando...’.



Chegamos na Praça do Campo grande e ali o grande acontecimento foi a entrada das noivas numa fonte iluminada nas cores rosa, azul, branco, que iam se alternando, tudo um tanto brega! O público em volta delirava. Mais uma vez, não tínhamos autorização para isto e deixamos a fonte a pedido de um segurança. Já no final do percurso, o dono do carrinho de café trocou Debussy por músicas da mais nova moda baiana, o estilo ‘Arrocha’. As noivas com roupas molhadas, tiravam o público para dançar. Isto sem contar todas as ações das noivas no Campo Grande, que deitavam no chão e nos bancos da praça, ou acompanhavam os corredores de cooper que se exercitavam naquele momento, ou se sentavam juntas no meio fio, de frente para o ponto de ônibus e diante de uma fila enorme de pessoas abriam um livro de Joyce e liam textos para o público.



As comemorações continuaram no café do Vila, com exibição de vídeos feitos pelo grupo sobre textos de Joyce. Depois, lemos fragmentos de seus textos e abrimos espaço para que o público também os lesse. Encerramos com o concurso de melhor leitura da palavra trovão. O ganhador foi Ney Wendell, diretor de teatro e coordenador da área teatral na Fundação Cultural do Estado da Bahia. Ele foi premiado com um livro do GOM além de dois ingressos para assistir Bê-á-bá BRASIL. Terminado o Bloomsday, lançamos o nosso livro com exibição em vídeo dos espetáculos montados a partir de 1998 até 2007. A receptividade foi enorme. Em fevereiro deste mesmo ano já havíamos lançado o livro em São Paulo (no TUSP) e depois o distribuímos pelas principais instituições culturais da cidade entre elas o MASP, o Instituto Moreira Salles e o Centro Cultural São Paulo. Aqui em Salvador estamos promovendo, então, o terceiro lançamento do livro que também será distribuído pelos Centros Culturais e bibliotecas mais importantes da cidade.
Nesta semana entraremos novamente em cartaz desta vez com Bê-á-bá BRASIL aqui no Vila no dia 20 de junho até o dia 29 do mesmo mês, quando retornaremos para BH.



De tudo isto, o que mais nos encantou foi a receptividade e a alegria do povo baiano. Foi gratificante a realização do Bloomsday em Salvador. Estamos todos muito felizes.

Um grande abraço,

Ione


Pessoal do GOM, que tal fazer o Bloomsday 2009 em Salvador de novo?!!


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