terça-feira, 9 de outubro de 2018

MEMORIAL d"Os Demônios", por Milena Nascimento

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Hoje ela andava pela rua e pensava como a rua é limpa, sim a rua é mais limpa que o seu corpo andante que suja com seus pés torpes, ela pensou: o caminho é mais limpo do que o seu caminhar, a rua vai limpando-a limpando o corpo sujo o corpo binário, a rua pede outro corpo um corpo a deriva que experimenta a limpeza que a rua te dá ela é experiência que não acaba depois do primeiro gole ela te sustenta e nã te deixa cair na overdose da experiência: ela olha a rua, a primavera chegou limpando a cachaça visgada na calçada as flores estão verdeando, amarelando nessa primavera vermelha, ela prova, tem gosto de açúcar: a rua muda de cor às 14:00 quando ela passa e a rosa azul cai ao chão mais limpo que o seu corpo torpe, ela ensaia, ela entra no passeio ela agarra a arte pela mão se entorpecendo engolindo Dostoiévski e Shakespeare pela língua que vai azedando e adoçando a rua com seu corpo entorpecido. 




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Mísera válvula cardíaca em dobraduras purificadas de sangue mole azedo e fértil, é isso que eu sou a outra ademoníaca maçã de quatro com as pernas abertas e o cortiço espedaçado, de quatro com a cor amarela molhada de quatro melada azeda e podre é ela é o processo ilegal do meu cérebro poroso, do meu cérebro fritando, do meu cérebro, do meu cérebro eu digo: mentrona-me metrônomo-me agora. É ela virada na moita saindo em cena em cima da preta parindo um miolo oco, roxo inhame inchado feto oco meu preço é caro, minha mão nas entranhas da preta custa caro meu caro.
Na mesa de um Bar SP20: processo Os Demônios.

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