quinta-feira, 19 de abril de 2018

Tumulto nos trópicos




Sobre Tropykaos (2015), filme de Daniel Lisboa

Por Clara Romariz (Companhia Teatro dos Novos)

Tropykaos... O que é que vinha à minha mente, enquanto eu caminhava pela Avenida Sete tentando embarcar neste nome? Carmen Miranda… tropicália, bananas ao vento; sol a pino no Porto da Barra. Através do tumulto de calcinhas a dois reais, homens gritam em microfones promoções imperdíveis (Ricardos Eletro de rua), venda de vinis de música brega, um copo de água de côco de quatro reais e calor, muito calor: finalmente, chego ao cinema. Na sala quatro, com um forte ar condicionado, um Edson Celulari cego conta vantagem projetado no telão. Respiro. Entra no cinema um grupo de cinco pessoas. Um casal logo a seguir. Cochichos. Às vezes, risos frenéticos. Alguém respondia a cada palavra que Guima, o nosso protagonista, proferia. 

Primeira cena: um ônibus exibe a marca “Tropical”. Guima surge de casaco. Na sala, o ar condicionado me gela. O calor do homem inflama seus movimentos epilépticos. Ele morreria por um refrigerador cerebral; eu apenas quero me concentrar. 

"Ó paí, vei. Ó pro cara", fala alguém daquele grupo de cinco pessoas. 
Minha mente não para.

E se eu fosse fazer um brainstorm do filme? O que escreveria? CALOR = sol, queimadura (exposta), praia, óleo, febre de 38 graus, dor, aparelhos de refrigeração, fogo, inferno. Inferno este que se mostra na cena com Edgar Navarro representando uma espécie de demônio messiânico contemporâneo. Uma possível referência às igrejas evangélicas? Talvez. O lugar do culto, travestido com outro nome, era similar. A mesma forma catártica de se expressar. O demônio, personagem alegórico, saía de uma máquina de bronzeamento artificial. O fogo do inferno foi mercantilizado.   A venda da fé, aquela que conhecemos de longa data, se mostra através dos olhos alvoroçados de Guima. 

 Minhas ideias frenéticas são reproduzidas, uma por uma, na tela, aos olhos do poeta que não consegue escrever. Não há idealização neste ponto. Não há herói endeusado. Rico e sofrido, como em A Grande Beleza (2013). Ou rico com forte vontade de mudar radicalmente de vida como em Na Natureza Selvagem (2007). Não há crise de identidade, trauma, ou qualquer outra obviedade, que cansamos de ver no cinema. Toda a sua impotência é causada pelo calor. 

“Mas por quê?” - eu e o grupo (que não parava de tagarelar) nos perguntávamos. Por que é que ele não tira o maldito casaco? Que pergunta infantil era aquela. Pergunta que não acrescenta, seguramente nem importa para a narrativa. Me sentia igualmente na oitava serie quando Nubia, minha professora de literatura, passou A Metamorfose como livro paradidático. "Por que ele vira barata?",  nos perguntávamos, atônitos. "Isso não importa para a narrativa. Vejamos a cena da maçã que…”. “Mas por que ele vira uma barata?”. Era a mesma asneira juvenil.

O caos das ruas, praças e praias de Salvador vai tomando a tela. O mesmo caos que eu enfrentava na minha jornada rumo ao cinema. A tela é igualmente tomada por Guima, um rapaz de família rica que mora na periferia com um homem que fuma crack. O suave fogo do isqueiro que acende o fumo se mostra com máxima força, através de chamas que fariam agonizar, mas que são tratadas com naturalidade pela narrativa. Ao contrário do fogo, do calor e do sol que servem como sustentação para a história, aparecem episódios que são, à primeira vista, supérfluos. Massagem na praia de Stella Maris. Capoeira no Porto da Barra – tem algo mais tipicamente soteropolitano? Bar de poetas inconvenientes - "Por que você não escreve, Guima? Não sabe mais?”. Sexo terno. Estátuas suando: a cena mais surrealista do enredo. Chuva de imagens distribuídas pelo filme.

Saio atordoada já que, como diziam Os Mutantes, “Meu refrigerador não funciona”.

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