segunda-feira, 9 de abril de 2007

Somos parceiros e não inimigos

Tem gente por aí que acha que branco é um horror, um demônio. Eu não acho.
Luis Carlos Prestes, por exemplo, não foi um demônio.

Matilde Ribeiro
Ministra da Secretaria Especial de
Política da Promoção da Igualdade Racial

Que declaração infeliz, ministra! E não adianta dizer que pinçaram uma frase do contexto. Nós somos parceiros dos brancos, não inimigos. Estamos na outra ponta do preconceito. Temos que ir contra tudo o que ofende negros, brancos, judeus, índios, japoneses; ou seja, o ser humano. Independe de raça, credo ou qualquer tipo de discriminação. Eu não faço parte de nenhum movimento de negro. Não por ojeriza. É que para isso é preciso disciplina; e eu não tenho
disciplina. Lembrando Tony Tornado, costumo dizer que sou um negro em movimento.


É claro que já fui discriminado. Hoje muito menos, pois tenho como me defender; me defendo com a intelectualidade, conversando. Mas é claro também que tenho objeções. Contra quem açoitou e contra quem vendeu o meu “tatatataravô”, contra os mercadores dos escravos africanos.


Eu, particularmente, tenho serviços prestados à nação, à libertação do país. Tenho militância ideológica no teatro e na política. Sou contra essa sociedade injusta que não fornece aos cidadãos condições de sobrevivência e possibilidade de progresso. Não é justo que se morra de fome no país. É preciso brigar sim contra a impunidade dos que foram eleitos e não cumprem suas obrigações com dignidade, independente de raça. Essa gente não é punida. Alguém pode dizer que isso não tem nada a ver com a declaração da ministra. Tem sim. Vivo no Brasil, pago meus impostos no Brasil, criei meus filhos no Brasil, exerço minhas atividades no Brasil. É preciso melhorar as condições de vida da raça humana.

A ministra, pela posição que ocupa, não pode se comportar como uma panfletária de rua ou uma estudante adolescente. A declaração veio num momento equivocado e, lamentavelmente, colaborou para que não se encaminhe a discussão para questões mais profundas. Tem gente por aí que acha que branco é um horror, um demônio. Eu não acho. Luis Carlos Prestes, por exemplo, não foi um demônio. Poderia citar muitos mais.

Sou ator. Meu sonho é que um dia não utilizem atores negros em novelas se não for absolutamente necessário. Atores devem ser escalados nos elencos independentemente da raça. E sim pela competência. É claro que numa novela como “Sinhá moça” ninguém vai deixar de colocar um negro como escravo. É diferente.

Por fim um questionamento. A ministra, por ser negra, não deveria ser necessariamente designada para ser a responsável pela Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial. O importante é que se escolha as pessoas independente da cor. Que isso não seja uma obrigação, e sim um destino. Por que a ministra Matilde não foi escolhida para o ministério do
Trabalho, ou da Educação, ou até mesmo como representante do Ministério da Saúde em São Paulo?

Autor: Milton Gonçalves

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