quinta-feira, 27 de novembro de 2008

"Sejamos o lobo do lobo do homem"...



Enquanto expectativas e temores, tanto pessoais quanto coletivos, em relação a um elevado nível de exposição nos cerca a todos integrantes desse grupo de Teatro Negro; enquanto as negociações contratuais compreensivelmente necessárias e assustadoras para a maioria desses artistas enrolam-se em nosso pescoço à maneira de cachecol/cascavel e modifica o tom de nossa fala; enquanto certa classe dotada de alguma intelectualidade faz suas análises acerca de linguagem e conteúdo exibidos na série e mantêm-se, pelo menos para si, com algum estatus ao proferir suas sentenças de natureza estético-racial (acho que são os mesmos que há anos atrás diziam que aquele elenco não representava nada além deles mesmos); Enquanto esse enredo - extra palco e tela - se desenrola, a terra gira e muita coisa ACONTECE!

No site tudoagora vêm a tona a discussão sobre regionalização da tv brasileira e os cânones globais ao longo das ultimas décadas.

No Estadão, Mário Viana faz o que a meu ver é uma queixa velada e ressentida sobre certa discriminação contra os brancos. E eu acho que tem aí uma ligeira sensação de perda do protagonismo branco! Mas é no mínimo curioso ouvir isso do "lado étnico" que sempre classificou como paranóia esse tipo de discurso na boca de uma pessoa negra.

Aliás, ouvi de uma pessoa outro dia que o ator Lázaro Ramos não tem discurso. "É sempre um ator negro fazendo algo sem conseguir transpor as "barreiras" da sua pele" Juro que NÃO ENTENDI! Confessei minha falta de alcance e acuidade mental para prosseguir o papo e fui embora!

No Teleséries tem o depoimento de uma carioca que, no mínimo, mostra um pouco de certo imaginário de alguém de fora da Bahia e que é legal a gente ter conhecimento também.

No A Capa, que é um site que reúne notícias e informações focadas na temática GLBT, Yolanda e Neuzão são celebrados.

No blog Radioativo, um nordestino residente em São Paulo fala do seu orgulho em se ver regionalmente representado e faz críticas à emissora pelo seu tratamento usual do tema.

Já em blogs como o Papo de Buteco, tem aqueles depoimentos de pessoas comuns, expectadores não especializados que tanto foram e são úteis pro trabalho do Bando nesses anos.

Acho legal a gente ter um certo domínio do que rola acerca desse trabalho.

Não me lembro de uma outra situação em que as pessoas que vivem a olhar para o "espelhotelazul", ao se verem de forma decalcada pelos atores e diretores do sul do país, tenham celebrado tanto uma sua representação!

Acho no mínimo loucura acharmos que nossa presença naquela emissora tenha o poder de reformular seus paradigmas ideológicos. Mas, num mundo real feito de pequenas conquistas, acho que esse nível de protagonismo é um feito importante para a história da luta racial nesse país!

É preciso ter coragem! E conseguir olhar para além de nós, de nossos medos, de nossa fragilidade frente a tudo isso e reconhecer a nossa força.

Acho que nos momentos em que conseguimos sair do nosso imaginário individual, discutimos muito sobre as burocracias e demais pragmatismos profissionais. E até com certa dificuldade... mas precisamos nos por em condição de discutir sem conceitos maniqueístas, absolutos e utópicos essa gama de informações que cerca esse trabalho de Bando, conteúdos, etc... E oxalá tenhamos tempo algum dia para celebrar o que há de bom nisso tudo. Vou terminar com um e-mail que Chica encaminhou e que não sei bem quem escreveu. Mas acho que ela comemora de forma ajuizada a situação:

Chica e Márcio:

Liguei a TV sexta à noite, pra ver alguma besteira e apagar a cabeça de um dia cheio. Totalmente por fora e desprevenida. E de repente dou de cara com o Bando todo, forte e lindo, estampado na telinha pro Brasil inteiro ver! Peguei no meio, mas gostei muito de todos os personagens, de todos os atores. Vibrei com a invasão baiana. Tudo bem que é o Bando adaptado ao quadrado, adaptado ao melodrama, arrumadinho. Mas não importa, é um feito histórico. Torço pra fazer muito sucesso e a moda pegar. Parabéns por estes quase vinte anos de resistência, de continuidade, de pé no chão, de utopia, de alegria. Parabéns a todos do grupo e muito obrigada - foi emocionante.

beijos,


Rosyane


(Jarbas Bittencourt)

3 comentários:

  1. É isso aí, Jarbas! O Bando na Globo veio suprir uma carência do povo negro e baiano (até mesmo nordestino) de se ver representado na telinha. Uma representação ligitimamente nossa, sem a estereotipação vazia que costumamos ver por aí. Ó paí ó tem sido bastante significativo para mostrar que aqui nós temos conteúdo e (BONS) talentos pra mostrar. A Globo cerceia, sim, mas a semente está sendo lançada e acredito que muitos frutos ainda virão.

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  2. Então está tudo certo! O Bando cumpre sua função... ocupa mais uma trincheira. Não é a primeira (muito pelo contrário), e nem será a última.
    Vamos cambada de Quixotes pq os dragões estão por aí...
    (desculpa pelo "vamos"... é que me sinto parte disso tudo aí).
    Abraço saudoso...
    Gustavo Libório

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  3. Enfim, lá vai um comentário cheio de pensamentos desorganizados, mas então, estive nesse fim de semana, em Belém, trabalhando. E lá, senti uma coisa muito legal lá: embora estivesse numa capital da Região Norte, por lá, vi uma receptividade da série. O que sempre tive curiosidade de perceber: como outros estados estavam recebendo a série, como ela estava sendo vista fora daqui. Estava conduzindo uma oficina com jovens e vários vinham perguntar se aqui na Bahia se falava daquele jeito mesmo, dizer que gostavam que se identificavam, que era engraçado entre outras coisas.
    No fundo, não sei se por minhas interpretações, ou por uma real constatação, percebi uma identificação de um grupo que não é retratado e se também é feito de forma folclórica e estereotipada, com um outro grupo. Embora o mundo do Norte tenha grandes diferenças com o mundo do Nordeste, há muitas semelhanças e uma delas é a falta de representação na mídia, é ver o Brasil reduzido a poucos bairros da zona sul do Rio. Os caboclos de lá têm ainda um outro longo caminho de luta por representação há conquistar.
    No lado de cá, sinceramente, recebo com grande alegria ver a série no ar. Como negra, baiana (e como tal nordestina), enxergo duas conquistas: uma que é ter um elenco de atores negros, como protagonistas de um processo, de uma série e que essa está fora do eixo Rio-São Paulo. Ver o nosso sotaque sendo dito com sinceridade. E para os puristas, sim, é produto mesmo, é midiático, tá na Globo e é isso, um espaço que precisa ser conquistado.
    Acho que o Bando alcançou um lugar de visibilidade muito importante e que é um lugar não só para o Bando, mas para os milhares de atores e atrizes negros e nordestinos. Um lugar de afirmação e de se dizer: existimos.
    Parabéns e boa temporada no RJ.
    Mônica

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