segunda-feira, 27 de julho de 2009

Audição para platéia


Ontem assisti a um espetáculo teatral. Hamlet, texto de William Shakespeare, direção de Aderbal Freire Filho com grande elenco. Mas não falarei da peça. Minha crítica se dirige à plateia soteropolitana.

Alguns amigos meus, entre eles pessoas de teatro, não conseguiram ingresso. Outros não tiveram grana. Realmente não foram preços populares. É uma pena que essas pessoas não possam ter visto o espetáculo porque algumas outras chegaram na frente ou detêm melhor oportunidade.

Durante o espetáculo, na fileira da frente me incomodei com a luz forte de um aparelho celular, mas para minha surpresa o espectador jogava damas no seu iphone. No intervalo, na fileira de trás, um rapaz no telefone dizia “é legal, tem umas partes engraçadas. Mas eu cochilei algumas vezes. Tonico Pereira faz o pai de Ofélia. Num sabe quem é não? É da globo...”. Para quem não assistiu, o nosso amigo achou que o rei Cláudio era Polônio, pai de Ofélia. Quanto ao ator que interpreta Polônio, coitado, ao reaparecer na trama como outro personagem causou a seguinte reação: “oxe, ele não tinha morrido?”.

Essa é a plateia que pagou caro para ver celebridades nem tão de perto assim. Não entenderam muito da peça. Claro, a linguagem teatral, como é de qualquer arte, requer entrosamento com seu público, adquirido aos poucos, com visitas frequentes, constantes... Decerto, não é o caso dos emissores dos comentários reais transcritos acima. Apesar de estarem ali prestigiando conterrâneos brilhantes, provavelmente não foram ver Wagner Moura 10 anos atrás, no início de sua carreira, já destacada. Por uma razão muito simples: não vão ao teatro. Correção: vão ao teatro, quando tem alguma estrela global no elenco.

A plateia soteropolitana precisa que o eixo rio são Paulo aprove seus artistas para aí sim dar atenção a eles. Não interessa que muitos talentos se percam neste celeiro fabuloso que é a Bahia, simplesmente porque por aqui não parece interessar muito a essa plateia a produção local. Apesar do privilégio de morarem aqui, não podem dizer que viram a carreira de seus pupilos evoluírem. É importante destacar isso, pois o próprio Wagner já foi alvo de críticas por ter supostamente “deixado” o teatro baiano, por ter partido para o sudeste do Brasil. Que outra opção esta terra dá a um artista da sua grandeza?

Sei que essa não é a única plateia de teatro de Salvador. Existe uma outra, na qual estão, entre outros, os meus amigos preteridos de Hamlet. Esta assiste o teatro local. Porque faz o teatro local. Ainda que não interesse à maioria que lotou o teatro.

Resta ter esperança no que Hamlet (peça e personagem, traduzido e transcriado) diz sobre o teatro e seu poder único de dizer certas coisas em reinos podres.

Daniel Farias - ator

3 comentários:

  1. Daniel,
    Você foi muito lúcido em seu artigo. Infelizmente nos deparamos com essa constante em Salvador. De fato, é uma pena que seja esta a plateia, mas o ingresso tão caro convida este tipo de público. Afinal, eles só vão ao teatro quando são globais no palco, da mesma forma que frequentam "aqueles" restaurantes, "aquele" shopping e "aqueles" shows. Não podemos ingnorar que também o próprio teatro, ou aqueles que o fazem, alimentam esse "mercado", embora reconheçamos que o desafio do artista seja sempre o de interpretar o seu papel. O uso que se faz do seu portifólio ou da sua fama, faz parte do "jogo". Teatro na Bahia é comédia. Se for de graça, é popular. Se for na praça, é para os pobres, e se for "diferente", é alternativo.
    Viajando pelo interior com teatro, certa vez ouvi um depoimento que dizia que as pessoas não iam ao teatro com ingresso de 1Kg de alimento porque não devia ser bom. A esse preço?

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  2. Reflexão válida, com tristes e pertinentes constatações.
    Apenas nos mantenhamos atentos para não virar o "eles"-platéia-pouco-iniciada-que-não-valoriza" e o "nós-artistas-que-discutem-e-que-prestigiam-o-teatro-ainda-que-ninguém-valorize". Cuidados para nós, me incluo. Porque é esta platéia que temos aqui na Bahia, ainda que co-existindo com outras mais lúcidas. A pergunta é: como dialogar com o nos cerca?
    Bjo de pestanas pegando fogo.
    Bela

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  3. Disse tudo que eu penso, assino embaixo. Também fui ver Hamlet e também presenciei, bem perto de mim, celulares tocando e as pessoas atendendo e batendo papo, durante a peça, algo que parece mentira.
    Fiquei até surpreso de ver como o teatro estava lotado, e pensei o mesmo que você: estavam prestigiando o conterrâneo, mas só pq agora ele é uma estrela global.
    É uma pena mesmo que apenas uma pequena platéia se interesse pelo teatro feito aqui, que pelo que eu já vi (posso falar pq vejo muito), na maioria das vezes é muito superior a essas peças "de fora", que quase sempre são fracas, vazias, sem nenhuma criatividade, feitas apenas pra aproveitar a popularidade dos atores da Globo, sem qualquer compromisso com qualidade. Claro que não generalizando, mas aqui tem coisas muito boas, que deveriam ser prestigiadas.
    Eu por exemplo não sou do meio e estou sempre indo, não me importando a "fama" dos atores, mas como eu são muito poucos. Infelizmente acho que sempre foi assim e sempre será, não consigo ver nada que faça mudar isso. A televisão é muito forte, atinge as massas e "endeusa" os atores, então é de se esperar que isso aconteça.
    Mas achei legal pq Wagner Moura merece essa popularidade, pois é um ator de verdade que conseguiu seu espaço através do seu grande talento, diferente dessas estrelas "fabricadas" pela Globo.

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