quarta-feira, 15 de abril de 2009

"abre aspas"


Confira alguns trechos da entrevista dada por Cristina Castro, diretora do Núcleo Viladança, à reporter Tatiana Mendonça, na revista Muito do último domingo.


_O EMBRIÃO DO VILADANÇA
Antes de eu construir o VilaDança falei que precisava de uma equipe. E fui atrás de quem na Bahia queria fazer isso comigo. Fizemos um projeto chamado Baila Vila. Era um dia só pra todo mundo, e uma vez por mês. Não tinha equipamento, não tinha som. A ideia era 'Você faz dança? Você quer mostrar a sua dança? A gente abre o palco pra você e transforma isso num espetáculo'. Então vinha do pessoal da universidade ao pessoal afro, ao pessoal de jazz, performances, loucos, tudo. E não tinha um critério (risos), era quem queria se apresentar. E essa experiência foi um marco pra mim de dirigir, porque tudo acontecia na hora. Isso durou um ano, foi muito interessante. Eu considero o Baila Vila como um embrião pra eu tomar coragem e dizer vou fazer um grupo de dança nesse teatro (risos).

_CRIADORA E PRODUTORA
Nunca vi essa parte adminsitrativa como uma coisa que eu fazia à parte do que eu fazia como artista. O artista hoje – sempre, na verdade – principalmente o diretor, tem que entender de tudo, porque ele é o leme da coisa. O que eu não sabia procurava saber. Fiz milhares de projetos erradíssimos, errei muito como administradora, mas todos esses erros fizeram eu me arriscar, e eu arriscar eu pude exercitar demais a minha criatividade. Hoje passados dez anos posso dizer sem prepotência nenhuma que eu aprendi, tenho bagagem suficiente para dirigir qualquer companhia, ou qualquer grupo, ou muitos grupos, não qualquer, mas talvez muitos deles.

_VILADANÇA VIRA NÚCLEO
Isso traz um alívio como diretora, porque é uma pressão muito grande de você estar o tempo inteiro fazendo projetos, projetos e projetos para sustentar aquilo. Mas você trabalhar oito, nove anos com a mesma companhia você cria laços afetivos, às vezes você vê mais do que sua própria família, e tá ali viajando, comendo junto, trocando ideias, se pegando, se tocando. Esse lado é ruim, porque você não vai ver todo dia, você não vai dividir as angústias, nem trocar ideias, mas acho que faz parte da mudança. Vou passar a reunir pessoas e isso não descarta em nenhum milímetro a possibilidade de trabalhar com os antigos dançarinos. Só não temos mais o compromisso de nos sustentar. A gente só vai ter o compromisso de sustentar o nosso desejo e a nossa vontade de existir enquanto artista. É mais por aí.

_DANÇA E TEATRO MISTURADOS
Vejo isso (essa necessidade de definir se uma apresentação é dança ou teatro) mais como uma preocupação dos professores, e de quem estuda a dança, do que do público. Acho que o exercício de trabalhar várias linguagens abre um vocabulário, traz uma referência, uma segurança, uma possibilidade maior para quem está fazendo. A dança contemporânea pede mais do que você controlar o seu corpo no movimento, ela pede uma atitude, ela pede um discurso. Para você construir um discurso, com o movimento ou com as palavras, você tem que ter base. Eu sempre digo: quando eu tô criando, eu vou ver exposição de arte, vou ver fotografia, pintura. Tem que trazer esses elementos.

_ARTE E MERCADO
A gente precisa de pontes, de mais empresários sabendo que a arte é necessária, e que patrocinar arte não é somente uma possibilidade de dar visibilidade à marca da sua empresa, a gente não pode ser agência de publicidade, não é pra isso que serve o produtor artístico. Mas sempre digo que pra gente poder trocar valores, tem que saber qual é o nosso valor. Descarto completamente essa possibilidade que a arte não é mercado. Se você entende mercado enquanto mercadoria e valores sobre mercadorias, a arte é mercado, sim, sem medo de dizer isso e estar virando o pior capitalista do mundo. Entender essa lógica traz sucesso para um grupo.

_POLÍTICAS PÚBLICAS
Com certeza existe muito mais gente atenta à isso. Não digo nem mobilização, mas atenção, que é o princípio da mobilização. Eu não queria falar sobre isso, mas vou falar. Eu não tô muito... O Teatro Vila Velha me absorve muito, não consigo muito ver dança e teatro, mesmo porque trabalho com isso e no final do dia a última coisa que eu quero ver é dança e teatro. Quando saio vou pro cinema. Vejo muito pouca dança. Não sou a melhor pessoa para falar por exemplo do cenário da dança na Bahia. Mas vi surgir editais que não existiam antes, como os editais de manutenção de grupo, que acredito ser uma boa iniciativa. Mas para se formatar uma política pública em torno de uma linguagem precisa de muito mais do que somente botar o projeto no edital. Precisa ter um pensamento, uma mobilização, uma classe que pensa, para que seja coerente com a demanda que tem, com o que você quer que tenha. O que eu vejo é que existe um caminho muito longo ainda para se chegar a isso. Sei que existe uma grande vontade dos artistas e existe uma abertura do Estado, da União. E aí é sentar e se definirem prioridades. Acho que a Bahia é um estado difícil, a gente não tem muito fluxo em relação à arte de mercado. E ao mesmo tempo a gente tem um Estado muito grande, com 400 e tantos municípios. No ano passado a gente foi num município, Gongogi, que nunca tinha recebido um grupo de artes cênicas. Teve outra, Coronel João Sá. Não tinha nem lugar para a gente se apresentar, não tinha teatro. Daí você vê como é difícil. Ao mesmo tempo a gente não tem há muito tempo um plano do município de Salvador. Não tem uma secretaria específica de cultura, que está sempre atrelada ou à educação, ou ao esporte. Salvador já é uma capital que precisa ter um maior incentivo na sua área artística do município. Você vê que a companhia oficial do Rio de Janeiro é o balé municipal. A companhia oficial de São Paulo é uma companhia municipal, entendeu?

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