segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Quando palavras soam igual a música

O Bando de Teatro Olodum da Bahia com "Sonho de uma noite de verão" de Shakespeare em Ludwigshafen

Foi um milagre a platéia conseguir ficar sentada no seu lugar por tanto tempo: Os ritmos de samba-reggae ressoando do palco seriam suficientes para acordar e acender uma companhia inteira de dorminhocos. Porém, frequentadores alemães de teatro estão acostumados somente de ficar olhando, e foi por isso que os visitantes do Pfalzbau de Ludwigshafen se contentaram em aplaudir de pé após o espetáculo do Bando de Teatro Olodum Bahia.

Foi uma festa de cores e sons que o diretor e figurinista Marcio Meirelles, o diretor musical Jarbas Bittencourt, o coreógrafo Zebrinha e a cenografia da Minuisina de Criação trouxeram da Bahia tropical ao Rheno frio. E se o retrato hiperdimensional de Shakespeare no fundo do palco estava parecendo olhar um pouco céptico no começo, no final, com um pouco de fantasia, podiamos bem ver um sorriso satisfeito nos lábios do Elisabethano.

É que Marcio Meirelles deu ao Mestre o que pertence ao Mestre: (deu) aos atores uma tradução rimada e soante em portugues (de Barbara Heliodora), e aos espectadores alemães o texto conhecido de Schlegel, que nem sempre estava passando em total sincronia.

Mais importante ainda: O diretor não só ficou rigorosamente no original, ele também o encheu com vida pura, colorida, deixou falar, cantar, falar em rap e ritmos, e transformou o texto em música também nas partes quando a música não estava tocando /em cena.

O palco: vazio, excepto uma plataforma com instrumentos no fundo e um "céu" de fitas coloridas. Aqui é corte e floresta de Athenas, e já a entrada da galera colorida é um espetáculo/programa: um jogo agitadíssimo de pés descalços e ombros nus, de ancas requebrando e rodando em calças e saias coloridas, animado pelos ritmos de percussão e pelas melodias agradáveis de música popular brasileira, tocadas no cavaquinho, um violão pequenino.

O figurino maravilhoso e os enfeites pomposos nas cabeças dos atenienses, e também do Oberon e da Titania lembravam um pouco as roupas tradicionais tribais, porém os artesãos, completamente contemporâneos, pareciam ter vindo diretamente do meio de Salvador da Bahia, onde o Bando de Teatro Olodum e a Companhia dos Novos, que estava apresentando juntos, estão em casa.

"Deixa eu fazer o leão também!", o alto Jorge Washington como Bobina e Píramo mostrou acertando bem a alegria e o prazer de apresentar o teatro de Shakespeare e ganhou bastante risos na comédia dos artesãos. Como ele, também quase todos atores fizeram mais que uma personagem, e também instrumento.
Contribuiu à impressão extraordinária da encenação que o diretor Márcio Meirelles colocou, não só o Puck triplicado - três moleques ágeis, ligeiros e morenos- mas também deu ao Oberon Érico Bras dois da mesma espécie ao lado: um reforço da força natural do tipo especial.

Porém esse Oberon triplo nunca ficou muito zangado de verdade, nem na briga com Titânia (Auristela Sá). Assim finalmente se resolveram as confusões amorosas dos pares atenienses Hérmia (Elane Nascimento), Lisandro (Leno Sacramento), Helena (Jamile Alves) e Demétrio (Fabio Santana) para o bem, e uma obra de arte completa de cores e movimento, música, dança e palavras estava no fim.

Traduzido do jornal alemão Rheinpfalz, 14 de novembro de 2006.

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