segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

PRIMEIRA FALA

Entrevista publicada no Jornal A Tarde de hoje.

O nome de Marcio Meirelles até foi cogitado entre os muitos que alimentaram a boataria sobre a nomeação para a pasta da Cultura na gestão do novo governo baiano. Mas a confirmação do nome do diretor teatral e sócio do Vila Velha foi recebida com surpresa pelo meio artístico, tanto pelo inusitado da escolha - Marcio nunca figurou entre os mais cotados - quanto pelas indagações que ela suscitou.

Por exemplo: seria válido para a cultura baiana ser gerida por um homem ligado, especificamente, a uma linguagem? Outro burburinho que voou de boca em boca foi como Meirelles separaria a pasta das atribuições do teatro que dirige. Mas Marcio garante: a notícia não foi tão surpreendente para ninguém quanto para ele próprio. Eufórico, com os olhos vermelhos de emoção e cansaço, e ainda 'perplexo' com o turbilhão que invadiu a vida dele desde a quinta-feira passada, Meirelles se abrigou na própria biografia - até agora, sem manchas aparentes -, em suas certezas e sob o teto do Cabaré dos Novos, onde concedeu essa entrevista exclusiva, a primeira como secretário nomeado, à repórter CECI ALVES.

Ele falou como vai conduzir políticas públicas para o bem comum do meio artístico e cultural da Bahia; dos parâmetros que vai utilizar para tanto; como será a relação com o Teatro Vila Velha daqui para a frente; como irá se movimentar entre as coisas que lhe serão legadas pelo governo que deixa o poder; e desabafa: "Me sinto como o goleiro na frente do gol".

A TARDE | Como foi que o seu nome surgiu para a Secretaria da Cultura?
MARCIO MEIRELLES | Havia essa história prévia de cogitar meu nome para a Secretaria da Cultura, mas surgiu a hipótese de Juca, que seria genial. Mas tinha que ser eu, acabou... Sou eu. Quando Wagner me chamou, eu falei pra ele: "Pô, mas é muito grande (risos)". Aí, ele me disse que era só eu fazer o que faço, continuar meu trabalho e ampliar para a escala de Bahia. Então, na verdade, é importante porque é um reconhecimento de que o trabalho dessa equipe que eu represento, desse grupo todo aqui do Vila Velha, é um serviço público em que a gente executa políticas públicas, de Estado, mesmo, como deveriam ser todos os artistas, todo mundo que ganha verbas públicas, e leis de incentivos.

AT | Entre as inquietações do meio cultural baiano quanto ao seu nome, a primeira delas é: "Márcio Meirelles é um homem de teatro, vai priorizar só o teatro". O que você diria às pessoas que acham que você vai "guetizar" a Secretaria de Cultura do Estado?
MM | Eu acho que são pessoas que não me conhecem. Porque, primeiro, não sou só de teatro, eu transito em outras áreas, em outras linguagens; mas, principalmente, eu vou administrar a coisa pública, vou administrar políticas públicas para a cultura. E cultura eu entendo não só como as linguagens pelas quais eu transito. São muitas outras expressões e produções históricas que eu não domino, que eu não conheço sequer, mas que são familiares, por ser a gênese de produção popular, tradicional, ou por sua afinidade com alguma linguagem que eu conheço... Ou seja, eu sou de teatro, como produção simbólica, é a linguagem que eu escolhi para me expressar, para dar testemunho do meu tempo nesse mundo. Mas, enfim, já administrei o Teatro Castro Alves e... Bom, o governador me incluiu no discurso dele quando me anunciou e falou exatamente isso, que era uma escolha dele, exatamente pelo trabalho que venho desenvolvendo aqui, pela minha ligação com a cultura negra, com as culturas populares. E, ao contrário, eu tô com medo de que a expectativa seja essa também do lado de quem é de teatro, de que eu vá gerir a cultura em função do teatro, o que seria um absurdo. A gente tem que pensar o seguinte: o foco da secretaria vai mudar, como o foco do ministério mudou. E mudou não por uma invenção de Gil ou da equipe dele. Mudou porque o mundo mudou, porque a humanidade mudou, a sociedade evoluiu, a sociedade brasileira já percebe mais claramente os direitos civis, que a organização tem que ser de outra forma, que cultura não é só linguagem, que políticas públicas não são vantagens pra uns, que estão no poder... Então, como a sociedade mudou, elegeu o governo que colocou um ministério e, no caso da Bahia, colocou a secretaria na mão de alguém que pensa como a sociedade pensa, que a coisa pública é pública, que as linguagens são parte da representação simbólica, mas que toda a representação simbólica é cultura e que a Secretaria da Cultura tem que cuidar disso, da produção, do acesso, do consumo, da distribuição. Pensar nisso, também, como economia, também como indústria e também como leis, como direito.

AT | Como fica a sua relação com o Teatro Vila Velha, do qual você é sócio?
MM | Não sei, é uma relação que vai ser reconstruída. Claro que a gente está em crise aqui, tanto o Vila Vila quanto o Bando. Porque o Vila, tudo bem, pode-se pensar: "não, é um espaço que vai ser privilegiado". É evidente que eu não vou negar o Vila Velha. O Vila Velha recebe apoio do governo, e recebeu durante todos esses anos, desde que eu tô aqui, desde 94, que entrei, em 95, quando Paulo Gaudenzi, entrou na secretaria, me procurou e se propôs a ajudar e, desde então, a gente recebe apoio do Estado, o que é mais do que correto - um teatro que tem um projeto como esse, assim como o XVIII, assim como o Cria, organizações que são de utilidade pública, de serviço público, tem que ter o apoio financeiro, inclusive, do Estado. E o Bando de Teatro Olodum, que vai ficar sem um encenador trabalhando diariamente com eles? O Bando de Teatro Olodum é o projeto de minha vida, não é só um brinquedo pra montar pecinhas. É um projeto político, de afirmação, de valores que eu acredito, de afirmação da identidade negra, do valor dessas culturas afrodescendentes, do valor do ser humano. E como é que vai ficar o Bando? Ontem, isso aqui foi uma loucura, ao mesmo tempo uma euforia, uma alegria, porque o fato de eu ser secretário tem a ver com o trabalho de todo mundo aqui; alegria, também, de ter um amigo numa posição de poder, e que vai, pelo menos, tentar executar o que sempre falou, o que sempre sonhou, o que sempre sonhou esse grupo todo, esses grupos todos que sempre circulam por aqui... Sonhos de igualdade, de difusão, de espalhar as coisas, de direitos iguais para todos, de justiça... É um nó, mas será transparente e igual a qualquer outra organização que, como o Teatro Vila Velha, faça esse serviço público.

AT | Você se sente um pouco como o ministro da Cultura, Gilberto Gil, que também tem uma carreira e balançou, agora, em sua permanência no MinC...
MM | ...Porque são duas coisas que eu estou abrindo mão, duas coisas, ao mesmo tempo, que, na minha cabeça, não se confundem. A minha produção artística, que vou ter que dar uma parada, não sei quanto, não sei o quanto eu agüento. Então, não sei como é que vai ficar, como é que vai ficar esse encenador... Acho que a solução é deixar que o artista ilumine o gestor, que o conduza, com a sensibilidade e o olhar.

AT| Qual a sua plataforma para a Secretaria da Cultura?

MM | É basicamente a mesma que a gente tem executado aqui no Vila. Ainda tem que se transformar, ainda é um pensamento, eu tenho que ouvir muito antes, pra definir prioridades. Há coisas que me movem muito, que é, por exemplo, a necessidade das cidades do interior, dos produtores de cultura. A Bahia tem 417 municípios, uma produção vasta, diversificada e diversa, e a questão é: como dar visibilidade a isso, como dar apoio, sustentar, como as coisas trocam e circulam? Então, eu vou ter um olho para a Bahia como um todo. Implementar o Sistema Nacional de Cultura é uma prioridade. O alinhamento com o Ministério (da Cultura) é claro, não só porque é um governo do mesmo partido, mas pela admiração que tenho como artista, como produtor e como cidadão das políticas implementadas por esse ministério.

AT | Você já está pensando em termos de equipe?
MM | É evidente que os nomes passam pela cabeça, mas não pensei em nenhum. Fui pego despreparado, não me pensava secretário, nunca me pensei secretário. Nunca tive a pretensão de ocupar um cargo público. Inclusive, quando saí do TCA, jurei pra mim que nunca mais ocuparia um cargo público. Mas durante toda a minha vida, esses 34 anos em que atuo na área cultural, fiz teatro como uma questão política, e a cultura sempre foi uma questão política. Logo, a política da cultura sempre foi, também, um objeto de interesse, de discussão, de pensamento.

AT| Para quando pretende anunciar a equipe?
MM | Primeiro, eu tenho que entender o quê. Depois, com quem. Então, o que será isso de fato, quais serão as ações, como será a nova Fundação Cultural e quais serão as atribuições, o que fazer do Balé Teatro Castro Alves, o que fazer da Orquestra Sinfônica, o que fazer do Irdeb, como vai ser tudo isso? Isso vai ser um pensamento, e a equipe vai se juntar na discussão.

AT | Há quem defina que a atual gestão da Secretaria de Cultura e Turismo agiu mais como "balcão de negócios" do que como lugar de políticas públicas. Você concorda com isso?
MM | Eu gosto de Paulo (Gaudenzi). Eu sou amigo dele e acho que ele foi importantíssimo pra a existência do Teatro Vila Velha como é agora, por exemplo. Agora, existe um pensamento político de governo. Existia um rumo de governo no qual todas as ações da secretaria estavam inseridas. Existia um caminho político que levava a Bahia toda. A gente não pode isolar a Secretaria de Cultura. Ela está dentro de um governo, dentro de um sistema, dentro de um grupo político que age com coerência. Mudou o governo por um desejo da Bahia. E não foi só um governo. Mudou o rumo, escolheu-se um novo rumo. E a nova secretaria vai estar inserida dentro desse novo rumo, desse novo pensamento.

AT | Há uma lista de coisas que existem nesta gestão e que suscita uma curiosidade em saber como você vai geri-las. O primeiro exemplo é o FazCultura.
MM | Olha, eu acho que o FazCultura é uma lei neoliberal que entrega à empresa privada o direito de decidir o que fazer com o dinheiro público. Então, é uma lei que tem que ser repensada. Acho que é muito importante, facilitou muito, muita coisa foi criada pela existência do FazCultura, mas é importante rever com novos olhos, assim como a Lei Rouanet foi revista, tan-to em termos de patrocínio, de mecenato, como em termos de fundo.
Tudo vai ser repensado.

AT | Outro exemplo: Conselho de Cultura.
MM | Preciso ouvir muito e quero ouvir muito. Há as câmaras setoriais, os fóruns, as instâncias que já se organizaram por causa do ministério de Gil, com as quais já dá pra ter uma interlocução. E o fortalecimento do Conselho de Cultura como um interlocutor com a comunidade é importantíssimo. Então, o Conselho de Cultura tem que ser, de fato, uma representação da produção cultural do Estado. E tem que ser realmente um conselho, que vai me aconselhar.

AT| Mais um exemplo: editais para o audiovisual.
MM | Olha, audiovisual, comunicação, de uma forma geral, todos esses meios contemporâneos novos de comunicação, de internet, toda essa parafernália da produção, esse frenesi da produção de imagens e de narrativas simbólicas por meio de audiovisual é uma coisa que me fascina muito e que eu acho muito importante, porque é indústria também. Então, é preciso ter uma interface com a Indústria e Comércio, pensar na distribuição dessa produção, pensar no fomento, e acho que é uma coisa muito maior, que vem sendo tratada só por meio de editais. Acho que é preciso um pensamento profundo sobre a produção audiovisual da Bahia. O cinema baiano deu uma virada incrível nos últimos anos com um pouquinho só, que foram exatamente os editais. Então, a gente tem que parar e pensar que, se com alguns editais, com algumas ações, deu no que deu, se a gente pensa nisso profundamente, como indústria, como negócio e, principalmente, como representação simbólica e como espelho do que a gente é pra o tempo e pra o espaço, vai longe. Acho que o cinema, o audiovisual e a televisão são um capítulo a parte. Não é simplesmente o edital, não imagino que seja só um departamento, uma divisão da fundação, ou um órgão de radiodifusão.

AT| Para o Teatro Castro Alves e o Museu de Arte Moderna da Bahia, já há algo pensado?
MM | Acho que esse coração tem que bater mais forte e fazer circular mais sangue. Eu acho que, por exemplo, as oficinas do MAM são um caminho. Eu acho que são organismos e equipamentos que não podem ser, que não devem ser, pelo que custam, só um espaço de circulação.
Têm que ser um espaço de formação, de produção, de intercâmbio, de apoio e de circulação, também, evidentemente. É uma máquina muito grande e que pode ser melhor distribuída.

AT | Se na sua gestão houvesse uma temática, qual seria?
MM | Não sei. Há o nome de um filme alemão que eu adoro e que é como me sinto. Se chama algo como O Momento do Goleiro Diante do Gol. Estou perplexo com tudo isso. Tô defendendo uma coisa que é muito importante pra mim, que é o sucesso desse pensamento político, enfim, comportamental, estrutural, e, por outro lado, eu sou artista, mas vou ficar quatro anos sendo gestor e, depois, voltar às minhas atividades de artista. Então, tenho que preparar o momento do depois, também. Tenho que pensar que isso vai continuar, não que vai continuar uma gestão, mas que vai continuar uma prática, uma política, pra mim, pra meu filho, que é músico, para o Teatro Vila Velha, para o Bando, para todos os atores que eu conheço, para a literatura, para as expressões populares...

QUEM É
Nascido em Salvador, Marcio Meirelles é diretor teatral, cenógrafo e figurinista. Com 52 anos, tem 34 de carreira e, há 12, dirige o Teatro Vila Velha. É o mentor do Bando de Teatro Olodum desde 1990 e foi diretor do TCA de 1987 a 1990.

9 comentários:

  1. do verbo meter: meteu.

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  2. ingrid maria machado12/12/06 15:25

    soltou o verbo. é isso aí!

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  3. Conpetencia no teatro, competencia na política?...Tomare a Deus que funcione... Desculpem a desconfiança, mas ODEIO políticos!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  4. Petinha Barreto13/12/06 09:22

    Caro Márcio,

    Fiquei muito feliz com a excelente escolha do Governador Jacques Wagner para
    o comando da Secretário da Cultura. Tenho acompanhado sua gestão no Teatro
    Vila Velha e acredito que a forma com que vem desenvolvendo esse trabalho é
    a forma mais eficiente de valorização da cultura pela cidadania.

    Gostaria de deixar aqui a minha manifestação de confiança e de certeza de
    que sua gestão será um sucesso, ao tempo que coloco-me a disposição para
    contribuir no que for preciso.

    Um forte abraço.

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  5. Isabela Dantas13/12/06 11:56

    MM, como estou feliz por você e feliz pela Bahia. Quando comentam comigo, vai ser ótimo para o Vila, eu replico, vai ser ótimo para a Bahia! Tenho certeza que depois da sua passagem, a Cultura da nossa terra não será mais a mesma, pois estará mais forte, mais visível e transparente ao mesmo tempo, mais profissional. Como também tenho absoluta certeza que facilmente você transitará por todas as linguagens e manifestações, porque você é o cara!!!! Boa sorte nessa nova empreitada e estarei, mesmo distante, acompanhando o seu sucesso.

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  6. Parabens querido, estou em Portugal e vi a noticia pela internet.Fiquei muito feliz. te desejo toda sorte do mundo.

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  7. Carlos Carvalho20/12/06 12:21

    Meu caro companheiro Márcio,
    Que sorte da Bahia tê-lo como Secretário de Cultura. Aqui, no Recife, acompanho sua trajetória de luta. Tenho a certeza que as politicas púbicas para a cultura avançarão e assim ganham todos. Viva esse novo tempo que se aproxima com a sua chegada no governo e na gestão de Jaques Wagner. Viva a Bahia e viva o povo brasileiro.

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  8. Quem milita na Cultura da Bahia sabe que a nomeação de Márcio para esta pasta representa uma VITÓRIA para todos nós.
    Parabéns Bahia, ganhaste um presente. Obrigado, Wagner pelo presente. Boa sorte, Márcio, estaremos juntos nesta jornada!
    O interior dá VIVAS para vc!!!

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  9. È isso ai Márcio, esta será uma gestão revolucionária, vc sim estará conectado com a galera.
    Desejo-lhe garra e vontade nesta nova empreitada.
    Abraços Valmyr

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