quinta-feira, 31 de março de 2005

PRÊMIO BRASKEM DE TEATRO

A cerimônia aconteceu ontem à noite, no Teatro Castro Alves, com o encontro da classe artística e todas as firulas a que se tem direito. Foi dia de relembrar as produções que estrearam ano passado, comemorar e lembrar que dia 26 de abril tem eleição da diretoria do SATED. A pioneira Escola de Teatro da UFBA recebeu homenagens e a "torcida" do Vila estava lá em peso, fazendo a festa para cada um dos seus indicados ou premiados.

Confira agora os premiados em cada uma das categorias:

Revelação: Vinício Oliveira Oliveira (diretor de Arlequim servidor de dois patrões)
Melhor espetáculo adulto: Arte (de Ewald Hackler)
Melhor espetáculo infanto-juvenil: Quem Conto Canta, Cordel Encanta (Cia Ziriguidum Borogodó de Teatro)
Melhor espetáculo adulto pelo Júri Popular: Chuá (Grupo Dimenti)
Melhor espetáculo infanto-juvenil pelo Júri Popular: Murucuto - o que não nos contaram (Grupo Trilharte)
Categoria especial: Jarbas Bittencourt (pelo conjunto de trilhas sonoras produzidas em 2004)
Melhor diretor: Ewald Hackler (Arte)
Melhor autora: Aninha Franco (Esse Glauber)
Melhor atriz: Jussilene Santana (Budro)
Melhor ator: Gideon Rosa (Arte)
Melhor atriz coadjuvante: Cristiane Mendonça (Vixe Maria! Deus e o Diabo na Bahia)
Melhor ator coadjuvante: Harildo Déda (A prostituta respeitosa)

quarta-feira, 30 de março de 2005

PROCESSO MARIGHELLA
Para contar a história de uma existência sem tempo para ter medo



Na última segunda-feira, 28 de março, o Bando de Teatro Olodum, com apoio da família Marighella, do escritor e jornalista Emiliano José e da Eurofort Comunicação, deu a largada definitiva no Processo Marighella. No primeiro evento oficial da série de atividades que, ao longo do ano, farão parte do `processo', tivemos uma apresentação do Bando, seguida de palestras de Carlos Augusto Marighella e de Emiliano José, finalizando num debate com público.

Vestidos com camisetas que estampavam o rosto do revolucionário, com calças, saias e botas pretas, os atores fizeram a leitura dramática do texto Chamamento ao Povo Brasileiro, escrito por Marighella em 1968. Nesta mensagem, direcionada ao homem comum da cidade e do campo, a firme denúncia contra a desigualdade social e a convocação à luta contra essa ordem. Na apresentação do Bando, a prosa revolucionária intercalada pelo poema Liberdade Liberdade, também de Marighella, recentemente musicado por Jarbas Bittencourt.

Carlinhos Marighella contou um pouco da vida do pai, uma pessoa desde cedo e intimamente fiel à sua postura política. Sem demagogia, Marighella vivenciava seu discurso igualitário - comunista na mais genuína conotação do termo - dentro de casa, nas ruas, no Partido. Era um homem empenhado na luta pela justiça social e procurava caminhos para reunir aliados no projeto coletivo no qual acreditava. Perseguido, privado de seus direitos políticos e cidadãos, agiu tenazmente até o fim dos seus dias.

Abrindo sua fala com a leitura do poema de Capinan, Vai, Carlos, ser Marighella na Vida, o jornalista Emiliano José se ateve à trajetória política revolucionária de Marighella, que culminou em seu assassinato, em 1969. Emiliano procurou detalhar seu envolvimento com o Partido Comunista, desde o princípio da carreira política, na década de 30, até suas divergências por causa da luta armada e o conseqüente rompimento. O jornalista, que também passou pelas mãos cruéis dos militares, falou sobre a perseguição da ditadura e da maneira corajosa como Marighella enfrentou o regime.



Ao final das exposições, o público - principalmente o jovem - manifestou curiosidade pelo personagem-título do Processo. Ao opinarem sobre o projeto e o espetáculo, as pessoas falaram da importância de se tornar mais conhecida uma referência histórica positiva para o povo brasileiro e a preocupação em conhecê-la sem mitificação. Marcio Meirelles, coordenador do processo e diretor do espetáculo que estreará em novembro, participou diretamente do debate e pretende manter aberto este canal com o público, a fim de levantar essas idéias e discussões.


terça-feira, 22 de março de 2005

Voltaram.

O Viladança está de volta depois da Turnê Nordeste. O projeto teve início em Dezembro de 2004 aqui no Vila, com sete apresentações de Sagração da Vida Toda, e foi retomado em Março: O Viladança foi a Maceió nos dias 11 e 12, e depois a Aracaju em 18 e 19.

A Turnê aconteceu com o patrocínio dos Correios e apoio da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Além das apresentações, o Viladança promoveu também workshops com dançarinos e curiosos nas duas cidades.

Problemas? Imprevistos? Acidentes? Surpresas desagradáveis?

Nada disso. Segundo Cristina Castro, diretora e coreógrafa, deu tudo muito certo. A surpresa (muito boa, por sinal) foi a resposta do público infanto-juvenil às apresentações de Da Ponta da Língua à Ponta do Pé. Na platéia, crianças de três anos até adolescentes de dezessete, vindos de escolas públicas e particulares, vibraram muito. O que não quer dizer que o público de Sagração... tenha sido fraco. Somando a quantidade de espectadores de Aracaju e Maceió, foram quase duas mil pessoas para seis apresentações: quatro de Sagração... e duas de Da Ponta...

A Turnê deu tão certo, que a Companhia já recebeu convites para retornar, tanto para Aracaju quanto para Maceió ainda em 2005. Um convite é para o IV Festival Nacional - Dança em Cena, que deve acontecer em Outubro, em Maceió, Arapiraca, Coruripe, Viçosa e Delmiro Gouveia, e outro, especificamente para Da Ponta da Língua à Ponta do Pé, para as comemorações do mês da criança em Aracaju. Ambos os convites estão sendo estudados, as possibilidades estão sendo checadas, mas nada confirmado ainda.

Os dançarinos trabalharam sem parar, mas também se divertiram muito: hotéis quatro estrelas, praia, piscina e visitas!: Marcio Meirelles, Jarbas Bittencourt, Fábio Espírito Santo, Everaldo Belmiro...

E agora que chegaram de viagem, é hora de descansar?

Não, o Viladança não pára. Da Ponta da Língua à Ponta do Pé estará de volta no palco principal do Vila em Abril, e vai ficar em cartaz até Junho. Pela primeira vez, a companhia fica com um mesmo espetáculo por mais de dois meses. Não apenas o espetáculo está de volta, mas também o projeto de formação de platéia que sempre o acompanha por onde quer que ele vá, mantendo a política da primeira temporada em Outubro de 2004.

Como se não bastasse, está no forno um novo espetáculo, com estréia prevista para Agosto. Só que este, por enquanto é surpresa total. É esperar pra ver.

segunda-feira, 21 de março de 2005

3 & Pronto - Latin in Box
Livre-se do seu lixo e colabore conosco

No dia 4 abril, a Cia Teatro dos Novos estréia Latin in Box, integrando o projeto 3&Pronto. Para criar o cenário da peça, a produção está recolhendo embalagens inquebráveis de produtos industrializados de todo tipo (comida, bebida, higiene e limpeza, papelaria, etc.). Estamos em busca de caixas de todo tamanho, latas, potes plásticos, garrafas... Desde que estejam inteiras e limpinhas. E vidro não vale, hein!?

É só juntar e deixar aqui no Vila, aos cuidados da Cia. Teatro dos Novos.

E no dia da estréia, você terá o orgulho de ver em cena aquela sua caixinha de sucrilhos, aquela lata de refrigerante, aquele frasco de detergente que um dia fizeram parte da sua vida. Ai, ai...

Lembrem-se: dia 04/04, às 20h.

quinta-feira, 17 de março de 2005

RELATO
porque essa guerra não acaba


Com este final de semana, o Bando de Teatro Olodum fecha a apresentação comemorativa de seu repertório, trazendo ao palco Relato de uma guerra que (não) acabou, montagem de 2001 que aborda de maneira contundente a violência vivida de perto pelos moradores do subúrbio. Ao longo desse mês, o Bando apresentou obras que fazem um panorama sobre a violência urbana, um tema recorrente no repertório do grupo, que faz questão de refletir a realidade social das camadas populares de maneira direta, numa linguagem acessível, muitas vezes com doses de humor.

A programação fez parte das comemorações dos 15 anos do grupo que, pela primeira vez em sua história, recebe um apoio para consolidar suas atividades, vindo da Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura, em reconhecimento da sua relevância artística e social.

Encerrada a temporada comemorativa, o grupo sai de cena para se dedicar à produção de duas montagens inéditas, que entram em cartaz também este ano. A primeira delas é um espetáculo infanto-juvenil Mama África, com previsão de estrear em julho e a outra, com estréia prevista no dia 4 de novembro, é Processo Marighella, um projeto em homenagem à memória do revolucionário baiano Carlos Marighella, cujo lançamento acontece no próximo dia 28/03, com um evento aqui no Vila.

quinta-feira, 10 de março de 2005

No Vila, soteropolitanos pagam meia!

Em março, o Teatro Vila Velha participa das comemorações do aniversário de Salvador, realizadas pela Fundação Gregório de Mattos. Ao longo do mês, as pessoas nascidas na capital baiana têm 50% de desconto nos ingressos para das apresentações que acontecem aos domingos. Para isso, basta apresentar a carteira de identidade comprovando o nascimento na cidade de Salvador.

Aproveite e venha conferir a nossa programação!

13/03 - Alices e Camaleões (infanto-juvenil) / O Muro
20/03 - Alices e Camaleões (infanto-juvenil) / Relato de uma guerra que (não) acabou
27/03 - Alices e Camaleões (infanto-juvenil) / ... e fez o homem sua diferença (dança)

quarta-feira, 9 de março de 2005

Viladança expandindo fronteiras


Da Ponta da Língua à Ponta do Pé - Foto: Andréia Viana

A partir dessa semana, o grupo baiano de dança contemporânea segue com sua Turnê Nordeste, patrocinada pelos Correios, passando por Maceió e Aracaju. Nas duas cidades a expectativa tem sido grande e, além de Sagração da Vida Toda, o infanto-juvenil Da Ponta da Língua à Ponta do Pé será apresentado para alunos da rede pública, com apoio das respectivas Secretarias da Educação. O Viladança também irá oferecer oficinas e palestras em ambas as cidades.

Também nesta semana, o grupo recebeu outra grande notícia: O Conselho Administrativo da UNESCO de Paris enviou-lhes uma carta reconhecendo a importância cultural do programa de formação de platéia Da Ponta da Língua à Ponta do Pé. A instituição endossa a qualidade do projeto através da concessão de sua marca para divulgação e captação de recursos para sua continuidade em 2005.

O Viladança conta com o apoio da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

sexta-feira, 4 de março de 2005

Cartas Abertas
As imagens falam por si mesmas. Fotos: Márcio Lima
segundas e terças. 20h. Cabaré dos Novos. r$ 14/ r$7






PRÊMIO BRASKEM - Vote você também!

O Prêmio Braskem abriu a votação popular nas categorias melhor espetáculo adulto e melhor espetáculo infanto-juvenil. Para votar, acesse http://www.braskem.com.br.

Não deixe os seus favoritos de fora!

quinta-feira, 3 de março de 2005

c o r r e s p o n d ê n c i a


Recebemos um e-mail retado!:

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Boa tarde !!

Estou muito chateada com o que aconteceu segunda-feira 28.02 com a maioria dos convidados pro debate da violência!

Na verdade gostaria de saber O QUE ACONTECEU??? Pois fui convidada para debater um assunto e chegando lá foi outra coisa diante dos vários debates políticos que ocorreram naquela noite.

Achei muita falta de respeito por conta das pessoas (sem nomes) que estavam lá.

O mesário agradencendo pela presença de vários políticos e esquecendo as pessoas (a maioria) que fizeram lotar aquela sala.

Gostaria que esta mensagem fosse passada para os organizadores, assim o ato não se repetirá quando for convidada para outro debate neste local!!

Adoro o Bando e a forma que é mostrada o forte talento de todos !!

Não sei se foi reparado + a mesaria pensou estar se tratando da BANDA OLODUM e não do BANDO de teatro quando falou que o toque dos estrumentos será reconhecido por ela onde ela estiver!

Aline
O QUE CABE NESTE PALCO 2005
A "Nata" de Alagoinhas se apresenta em Salvador



A Cia. Nata foi criada em 1998, por estudantes do Colégio Estadual Polivalente, na cidade de Alagoinhas. Logo em sua estréia, o grupo conquistou três troféus do I Festival de Teatro Estudantil, dentre os quais, o de melhor espetáculo, com O seco da seca. O sucesso se ampliou no segundo ano da premiação com a montagem Guarda-roupa íntimo, que arrebatou outros cinco troféus. A partir daí, a Nata seguiu investindo em suas pesquisas e pequenas produções, que passaram a ser apresentadas em escolas, centros comerciais e na Biblioteca Municipal. Em pouco tempo o trabalho do grupo cresceu e alcançou o palco do Centro Cultural de Alagoinhas e do I Festival de Inverno de Catu (BA). Além da produção de espetáculos, o grupo investe na realização de oficinas de teatro para iniciantes, com o objetivo de estimular o público a conhecer e se aproximar do teatro.Em 2004, através do contato estabelecido pelo projeto Teatro de Cabo a Rabo, promovido pelo Teatro Vila Velha com patrocínio da COELBA, o grupo teve a oportunidade de se apresentar na capital. Agora, no projeto O que Cabe Neste palco, o grupo consolida mais uma etapa de sua trajetória.

Nesta entrevista, a diretora teatral, Fernanda Júlia, fala um pouco sobre a carreira dA Cia. Nata e a proposta que o espetáculo põe em cena durante o mês de março.

Qual é a temática de Perfil?

Na verdade, Perfil não tem um tema específico. Nossa idéia é mostrar a versatilidade do grupo, fazendo um paralelo entre os estilos teatrais que trabalhamos. Usamos trechos do teatro clássico de Nelson Rodrigues, da estética regionalista Ariano Suassuna e a contemporaneidade urbana dos Melhores do Mundo (companhia teatral brasiliense). A peça é composta por esquetes e colagens que trazem nossas mensagens em suas transições.

Como foi o processo de criação da peça?

Selecionamos os textos de uma maneira que pudéssemos mostrar nossas maiores influências, de um modo que pudéssemos fazer uma homenagem a estes autores e evidenciar a identidade do grupo. Em seguida, fizemos oficinas para seleção de elenco e personagens, que foram seguidas por leituras dramáticas e ensaios. Tudo aconteceu em cerca de oito meses.

Então, neste espetáculo, vocês olham para seu próprio umbigo?

A Cia. Nata já tem mais de seis anos de história, por isso resolvemos fazer um apanhado dessa experiência para mostrar quem somos nós. Precisávamos valorizar o trabalho do próprio grupo, fazer um ?auto-marketing? lá em Alagoinhas, onde os artistas locais ainda são pouco reconhecidos.

E funcionou?

Sim. Desde a estréia tivemos um público bastante grande. Depois veio a participação no projeto Teatro de Cabo a Rabo (projeto do Teatro Vila Velha que promove intercâmbio entre artistas da capital e do interior da Bahia), que também nos abriu algumas portas e agora temos essa temporada no O que Cabe Neste Palco para mostrar nossa cara em Salvador.

Como você enxerga a cena teatral de Alagoinhas atualmente?

O teatro que fazemos em Alagoinhas ainda é muito intuitivo, não está muito preocupado com o esquema industrial, por isso não temos tanta pressão comercial e, conseqüentemente, temos mais liberdade. O nosso teatro tem uma estética mais ligada ao popular, que fala de uma realidade bem próxima, mas o que nos falta é apoio.

Qual é o papel da Cia. Nata neste cenário?

O Nata é um grupo comprometido com a busca constante por mudanças, no desenvolvimento de um trabalho versátil, procurando sempre fazer algo completamente diferente. Por mais plástico que seja nosso trabalho, pensamos sempre na questão da cidadania, fazer um alerta, estimular nossa própria consciência crítica e do público, mesmo no exagero ou quando fazemos piada. Junto com outros grupos, estamos fazendo uma campanha pela valorização do artista do interior. Queremos mostrar ao público e aos patrocinadores que nossos trabalhos têm qualidade, mas precisamos ser apoiados.

quarta-feira, 2 de março de 2005

Bando de Teatro Olodum discute
abuso policial e violação dos direitos humanos
Agressão ao ator Sérgio Laurentino revolta comunidade e mobiliza discussão sobre os ataques à cidadania sofridos diariamente pela juventude negra de Salvador


No dia 06 de fevereiro, domingo de Carnaval, o jovem Sérgio Luís Laurentino, ator do Bando de Teatro Olodum, foi agredido brutalmente por um integrante da Policia Mista (união do Exército, Marinha e Aeronáutica que, inexplicavelmente, atua no Carnaval). O crime seguiu todas as práticas de violação à cidadania já constante no cotidiano de Salvador e que atinge principalmente os jovens negros da periferia da cidade (brutalidade, inexistência de diálogo, prisão arbitrária, e mais humilhação na delegacia, incomunicabilidade etc.). Contudo, o Bando de Teatro Olodum que há 15 anos se dispõe a ser uma voz indignada contra essas arbitrariedades, mais uma vez não se manteve inerte. Cancelou as apresentações do Cabaré da Raça, que comemoraria os 15 anos do grupo (comemorar o que num momento como esse?) e organizou, nesta segunda-feira (28), às 19h, mais um Fala Vila, um debate no espaço do teatro, com o tema "Quem sustenta a violência? Quem a alimenta?". Várias entidades envolvidas direta ou indiretamente com o episódio foram convidadas. E todos os cidadãos e cidadãs da cidade intrinsecamente acometidos por esta situação foram convocados. Muitas instituições, como era previsível não mandaram nenhum representante: a Polícia Militar, a Emtursa, a Central do Carnaval etc. Os mais interessados em buscar resposta para esse estado de violência estavam lá: jovens negros da periferia da cidade, freqüentadores do Vila, representante das diversas entidades do movimento negro e social, alguns parlamentares, o diretor do sindicato dos policiais civis, o secretário e o subsecretário da reparação, entre outros.

O tema principal da discussão seria o caso Sérgio Laurentino. Seria, se os jornais desta segunda-feira não estampassem a tragédia do final de semana: Salvador teve as 24h mais sangrentas do ano, 19 execuções, muitas ainda não reconhecidas. Uma tragédia anunciada, pois, com a morte de quatro policiais militares na semana passada, toda a cidade, pelo menos a cidade negra, já esperava a vingança.

A promotora Itana Viana, do Ministério Público Estadual, informou algo que todos já deveriam saber, porém que muitos fingem desconhecer: não há no Código Penal brasileiro nenhuma pena de execração física ou moral, ou seja, nenhum criminoso, por mais vil que seja, não pode ser punido com humilhações ou porrada. A dramaturga e advogada Aninha Franco acrescentou detalhes à informação. "A única constituição brasileira que previa a punição física era a de 1824, que foi a primeira". Então, as formas de tratamento dado pelos policiais a qualquer pessoa presa na rua, no Carnaval ou qualquer evento, com força bruta, gritos e muita humilhação É CRIME. Apesar de contar, muitas vezes com o apoio popular, é desumano e inconstitucional.

Racismo institucional
Se não fossem as páginas dos jornais desta segunda, os presentes discutiriam o caso Laurentino e a violência policial no Carnaval, como casos isolados. Como se realmente houvesse uma violência policial específica no Carnaval, e não uma repetição das agressões diárias cometidas contra os jovens negros da periferia, afinal, como bem definiu o professor Samuel Vida, "O Carnaval é a reprodução concentrada das nossas práticas cotidianas. O cordeiro não é uma invenção do Carnaval. São os mesmos trabalhadores informais que passam o ano inteiro realizando trabalhos serviçais e com baixa remuneração, sendo humilhados e agredidos. Assim também, a violência policial não se resume aos dias do Carnaval. A violência, em nossa sociedade, é estrutural e está associada à violência racial". Todos na platéia já sentiram ou viram, na prática, a violência da qual Samuel Vida falava. Todos, os negros, por serem negros e moradores da periferia, e os poucos brancos presentes, por serem políticos ou militante do movimento social, que conhecem bem a atuação policial como aparelho repressor do Estado.

"A violência maior é do Estado, que se utiliza do braço armado, que é a polícia para cometer violência. É muito fácil culpar os policias. Para o Estado é cômodo deixar que policiais ajam com arbitrariedade e sejam apontados como únicos culpados", alertou o diretor do SINDIPOC, Marcos Souza, que fez questão de informar aos presentes alguns dados da vida árdua dos policias, com péssimos treinamentos, baixos salários e muita pressão no ambiente de trabalho.

Se a culpa por tanta violência contra a juventude negra não é somente do policial cabe muito bem a pergunta feita por Aninha Franco "Quem dá ordens aos policiais não é um comandante nomeado pelo Governador do Estado? O responsável, então, é o Governador? Estou apenas perguntando".

Nesse sentido, o subsecretário municipal da reparação, Elias Sampaio explicou um conceito que vem sendo trabalhado, nos últimos anos, pelos que lutam contra todas as formas de discriminação e pelo respeito aos direitos humanos, a idéia de racismo institucional, como o fracasso das instituições e organizações em preparar seus funcionários para oferecer serviços de qualidade independente da cor, etnia ou origem racial. A discussão sobre o racismo institucional começou em Londres, em 1999, a partir da morte brutal do jovem negro, Stephen Lawnrence, que deu origem ao extenso inquérito, de seis anos, sobre a ineficácia da Polícia Britânica em prover um tratamento adequado, e que teve em sua sentença a condenação de todo sistema policial britânico como responsável por essa morte, já que este não preparou bem seus funcionários. O caso Stephen Lawnrence tem semelhanças com a agressão ao ator Sérgio Luís Laurentino, com o mesmo despreparo dos órgãos militares em lidar com o fato.

Denuncie
O professor Fernando Conceição lembrou do tráfico de drogas que vem incentivando a violência em comunidades carentes como o Calabar. "Esse tráfico é alimentado por muitos de nós que visitam esses bairros, com nossos carros, diuturnamente, em busca de cocaína e maconha, acirrando a rixa entre gangues rivais e instalando a violência", alertou Conceição, cobrando um posicionamento do prefeito João Henrique que, segundo ele, deve exigir explicações do governador do Estado, o responsável pela segurança pública da cidade.

A platéia ouviu outros relatos de abuso de poder policial, como o do ator negro Ângelo Flávio, agredido no Pelourinho e de uma estudante espancada por tentar defender um inocente.

O secretário municipal da reparação, Gilmar Santiago, chamou atenção para a importância do Conselho Municipal dos Direitos Humanos sancionado pelo prefeito João Henrique na semana passada que, em um mês, estará funcionando, recebendo denúncias de violação à cidadania e acompanhando os inquéritos e as punições dos culpados.

A conclusão mais importante a que todos chegaram foi a necessidade de informações, para que toda a juventude negra desta cidade esteja preparada para situações como essa, em que sua condição de cidadão é ameaçada por policiais que se utilizam da farda para espalhar o medo e a violência. Todo cidadão e cidadã desta cidade deve conhecer os seus direitos, e como se dirigir aos criminosos fardados. Assim como recebemos inúmeras recomendações contra assaltos e outras ações de marginais, precisamos estar precavidos para possíveis abordagens brutais da PM. Já é consenso que revidar à agressão não é a melhor saída, além de inverter a condição de vítima para agressor. São muitas as organizações que podem e devem ser contactadas no momento da agressão, como o Disk racismo, a Anaad e o escritório Aganjú. Essas informações devem ser repassadas a todos, principalmente nos bairros mais carentes. Não podemos permitir que essas ameaças ao estado de direito continuem e, como um amigo de Sérgio Laurentino disse ter aprendido com o ator, não podemos ser tolerantes com a intolerância.

Salvador, 28 de fevereiro de 2005, André Luís Santana

terça-feira, 1 de março de 2005

O QUE CABE NESTE PALCO 2005
Humanos Demais - uma estréia que é demais pra a cabeça


Sexta-feira acontece a primeira estréia do Projeto O que Cabe Neste Palco 2005. Primeira, porque somente em março são duas. Os espetáculos Humanos Demais e Perfil - só vendo para crer, vindos de Alagoinhas, dividem a pauta do Cabaré dos Novos até o final do mês.

Mas agora vamos falar um pouco mais sobre a primeira estréia, do grupo Macabéicos, formado em Alagoinhas, a partir do encontro entre estudantes da Universidade do Estado da Bahia que tinham em comum a vontade de fazer algo de impacto para que suas reivindicações fossem ouvidas. O meio encontrado por eles foi a realização de performances perturbadoras e irreverentes, que logo chamaram atenção dos colegas, professores e dirigentes da Universidade.
Em 2004, através do contato estabelecido pelo projeto Teatro de Cabo a Rabo, promovido pelo Teatro Vila Velha com patrocínio da COELBA, o grupo teve a oportunidade de se apresentar na capital. Agora, no projeto O que Cabe Neste palco, os Macabéicos consolidam mais uma etapa de sua trajetória.

Através de uma entrevista coletiva com o grupo, que o tempo todo fazia questão de oferecer informações contrastantes, tentamos compreender um pouco melhor o espetáculo:

O que vocês querem dizer com Humanos Demais?

O espetáculo apresenta a alma humana de maneira desestruturada, numa estrutura não-linear. Procuramos mostrar o lado animalesco do ser humano, que as características exacerbadamente humanas aproximam o homem do comportamento animal. Como a busca pelo prazer sem limites pode chegar a extremos perversos.

O espetáculo tem uma característica de performance. Como vocês o descreveriam?

Nós rompemos com o esquema palco x platéia, desconstruímos o ambiente, a ação acontece em meio ao público, com sua participação. Não temos direção, nem script, trabalhamos muito com o improviso. Usamos poesia e música para conduzir o público até o local onde acontece a peça e provocamos sua reação. Temos apenas uma seqüência de quadros que seguimos, mas cada apresentação é um espetáculo diferente.

De onde vêm as referências que servem como base para o espetáculo?

Somos alunos de História e Letras da UNEB (Campus II, em Alagoinhas), entramos para o meio teatral "por acidente". Assim, tudo aquilo que lemos sobre construção de conceitos que se têm como cristalizados nos dá idéias para a encenação. São autores como Foucault, Deleuse, Guattarri, Nietzsche, Onfray e Baudrillard, além de outras leituras bem particulares de cada um de nós, que influenciam o pensamento que nos levou a construir (ou desconstruir) a performance.

Quando começou o interesse dos Macabéicos por fazer teatro?

Começou com a nossa indignação com o descaso da assistência estudantil da UNEB. Os alunos faziam reivindicações, mas não havia resposta. Resolvemos então fazer algo diferente para ganhar visibilidade e sermos ouvidos. Realizamos algumas manifestações irreverentes no campus. Somente a partir do encontro que tivemos no projeto Teatro de Cabo a Rabo nos estruturamos como grupo e fizemos pela primeira vez a performance. A partir desta apresentação foi que veio o texto.

E hoje, qual é o objetivo do grupo?

O que nos move é a diversão. Gostamos de fazer isso e nos divertimos fazendo. Fazemos um trabalho que foge da dogmatização, dos moldes pré-estabelecidos. É ter uma idéia na cabeça e um lugar para apresentar. Usamos o palco para dizer algo que não dissemos de outra forma. Por isso optamos por recolher o "lixo do teatro", coisas preteridas como virar de costas para a platéia e não estabelecer uma marcação espacial e misturar as linhas estéticas mais contrastantes. Temos o niilismo como um dos principais métodos.

Os Macabéicos chamam atenção: nada do que foi dito nesta entrevista explica o espetáculo.